Ideologia (conservadora) de gênero: modos de enterrar – 1º palmo

A expressão ‘ideologia de gênero’ é relativamente recente, mas quem e o que dão sustentação a ela são tão antigos quanto a Bíblia. De modo amplo, esse ‘quem’ é representado por militantes (em fundações e institutos de viés conservador ou atuando autonomamente), religiosos de diversas denominações e empresários reacionários e de direita no espectro político. ‘O que’ dá fundamento e repercussão a suas ideias: o capital financeiro vultoso dos dois últimos; uma base político-partidária; o lobby e a infiltração na classe média.

A fim de esclarecer e enterrar os equívocos relacionados à expressão ‘ideologia de gênero’ como formulada pelos conservadores, o Resista! inicia esta série, dividida em sete palmos e uma pá de cal. A cada palmo, tentaremos mostrar um problema no conteúdo dessa expressão e um prejuízo que ela causa a conquistas mínimas de direitos civis, sociais e humanos já obtidos em nossa sociedade.

Normatização e gênero

De um modo geral, ideologias de gênero sempre existiram. No entanto, desde os anos 1980, grupos reacionários elegeram uma ‘ideologia (conservadora) de gênero’ e passaram a combater, de maneira mais organizada e orquestrada, algumas discussões no campo da política e da cultura. Como alerta Julian Rodrigues, eles passaram a questionar “bandeiras dos direitos humanos, do feminismo, da igualdade racial, dos direitos sexuais e reprodutivos, da liberdade artística, da laicidade, da liberdade religiosa, da educação crítica, da democratização da comunicação” (como vamos ver nas próximas publicações).

Um conceito que sofre constante bombardeio é o de gênero como Judith Butler o propôs. De modo rápido, o gênero é uma prática discursiva (inter)subjetiva em constante elaboração e construção – quer dizer, ele não é natural e não está previamente normatizado. Por isso, ele não se confunde com o sexo biológico (macho e fêmea) ou cromossômico (XX, XY e algumas variações que podem caracterizar o intersexo). O gênero (masculino, feminino e outras manifestações) é construído na cultura e na vivência social.

No entanto, por questões históricas e socioculturais, estabeleceu-se um padrão normativo e binário que promove um conjunto de normas de comportamento e de existência considerado natural. Esse padrão é sustentado pela convenção masculino = homem = macho e feminino = mulher = fêmea. Esse padrão também gira exclusivamente em torno de: a) um sistema de relações normativas heterossexuais, b) uma finalidade biológica procriadora, c) traços nítidos do machismo, patriarcalismo e patrimonialismo que regem nossa sociedade. Em outras palavras, esse padrão se apresenta como um projeto de poder que luta para se manter de forma hegemônica e demoniza tudo o que se contrapõe a ele. Assim, estamos diante de certa ideologia que invoca um caráter naturalizado e, a princípio, inquestionável. Formas de comportamento que desviam desse padrão são dadas como condenáveis.

Desse modo, tudo o que foge ao binarismo sexual e de gênero convencional é dado como corruptível à formação familiar tradicional, à moral e aos bons costumes. Esse mesmo raciocínio serve para explicar as tentativas de enquadramento e combate sem tréguas às bandeiras mencionadas acima. É justamente cassar ou reprimir as formas subversivas, subalternas e variadas de manifestação do gênero que leva à extinção daquelas bandeiras.

É em torno disso que voltaremos a conversar nas próximas publicações.

Assinaturas-Luiz

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