Ideologia (conservadora) de gênero: modos de enterrar – 2° palmo

Um dos pontos de origem mais distante da onda reacionária atual é a organização dos chamados think tanks. A expressão significa laboratório ou fábrica de ideias. Nesse sentido, essas organizações se estruturam com o objetivo de produzir e difundir conhecimentos sobre assuntos estratégicos com vista a influir e provocar transformações sociais, culturais, políticas, econômicas, científicas.

É necessário esclarecer que existem ‘laboratórios de ideias’ progressistas e conservadores. Nas últimas décadas, os ‘laboratórios’ de viés retrógrado tornaram-se mais atuantes e visíveis nos espaços da política, da religião e da economia. Nesse sentido, pregam a defesa do Estado mínimo e do ultraliberalismo econômico; a revisão de direitos civis e sociais; a moralidade dos costumes e apoiam forças de centro-direita, direita e extrema-direita. Um exemplo no campo político, segundo o Brasil de Fato, é a estadunidense Atlas Networking, que estimulou, por exemplo, o patrocínio financeiro da Fundación Pensar, em Buenos Aires (favorecendo a vitória do neoliberal Maurício Macri na eleição presidencial), da Eléutera Foundation, em Honduras (participando do cenário pós-golpe hondurenho de 2009) e do MBL, em São Paulo (contribuindo para a campanha que levou ao impedimento de Dilma Rousseff).

Por sua vez, um dos líderes do Instituto Millenium, Fernando Schüler, defende que uma das maneiras de bancar a via de reforma do Estado “é travar uma guerra cultural permanente para confrontar os intelectuais e a mídia de esquerda”. Ao que tudo indica, a ‘guerra cultural’ pretendida reúne táticas como a manipulação e/ou simplificação de conceitos e ideias, saber jogar com a ignorância/desconhecimento das pessoas, alimentar o pânico moral.

A falácia da igualdade racial

A ideologia (conservadora) de gênero tende a ignorar a discriminação racial na sociedade brasileira, fortalecendo o discurso mítico de igualdade racial, de convivência harmônica e equilibrada entre as raças. Com relação à população negra, os exemplos diários (mas de existência secular) que desmentem esse discurso são inúmeros – a desigualdade de acesso à educação formal, à moradia, ao atendimento à saúde; a desigualdade na concorrência por postos de trabalho e na remuneração salarial; a ocupação majoritária de postos de trabalho considerados subalternos; a alta vulnerabilidade física e psicológica em casos envolvendo ocorrência policial; a erotização, fetichização e objetificação de corpos de negros e negras.

Para o momento, basta pegar um exemplo do chamado racismo estrutural – aquele que trata da discriminação racial incorporada às instituições em oposição a casos individuais de racismo. Em 2015, pesquisa realizada pelo Laboratório de Análises Estatísticas, Econômicas e Sociais das Relações Raciais (LAESER) da UFRJ identificou que mulheres negras recebem até 172% menos que outras pessoas. O filósofo do Direito Silvio Almeida toma esse dado para explicar que o racismo estrutural atua em três dimensões: a econômica, a política e a subjetiva. Por receberem o menor salário na organização socioeconômica brasileira, as mulheres negras também são as mais afetadas, proporcionalmente, pelo sistema de tributação, que incide sobre consumo e salário. O circuito da desigualdade e discriminação raciais está armado: a mulher negra recebe o menor salário; paga mais imposto; mora em lugar de grande vulnerabilidade social; sofre mais privações; está submetida a mais tensões familiares e sociais; está mais propensa a várias formas de violência; está mais sensível a desenvolver problemas crônicos de saúde. Enfim, é uma espiral que se distende em várias dimensões.

Quando os defensores da ‘ideologia (conservadora) de gênero’ se posicionam favoráveis à extinção ou redução das políticas afirmativas de redução das desigualdades raciais (como o sistema de cotas, neste caso), em conformidade a um modelo ultraliberal, eles demonstram que ignoram a discriminação e a desigualdade raciais latentes em nossa sociedade.

Assinaturas-Luiz

 

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