Ideologia (conservadora) de gênero: modos de enterrar – 3° palmo

Um dos vértices mais canhestros da ‘ideologia (conservadora) de gênero’ é o projeto Escola sem Partido (ESP). Em seu site oficial, tal projeto se autodeclara uma “iniciativa conjunta de estudantes e pais preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior”. Seus proponentes e defensores fundam-se na noção de que há um [suposto] processo sistemático e organizado de doutrinação político-partidária e ideológica nas escolas e universidades brasileiras que corrói e destrói a formação moral e os costumes dos estudantes.

Dessa perspectiva, Helena Vieira interpreta que, aos olhos do ESP, os objetivos dessa [suposta] doutrinação seriam: arregimentar crianças, adolescentes e jovens para a “esquerda política”; perverter a suposta “neutralidade da ciência”; opor-se à “naturalidade da família tradicional”, implantando a ideologia de gênero nas escolas. Por isso, aqueles que defendem o ESP dizem lutar: pela descontaminação e desmonopolização política e ideológica das escolas; pelo respeito à integridade moral e intelectual dos estudantes; pelo respeito ao direito dos pais de dar aos seus filhos a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.

A proposta do ESP gira, assim, em torno da palavra e da crença de [suposta] ‘doutrinação’. Por exemplo, é promovido o Dia Nacional de Luta contra a Doutrinação na Escola; é divulgada uma cartilha intitulada “Flagrando o doutrinador”; são orientadas algumas dicas para planejar a denúncia ao doutrinador; é eleito o slogan “Diga não à doutrinação”; é alardeado um cartaz com os deveres do professor. Além disso, tenta-se fazer aprovar nas casas legislativas municipais e estaduais um projeto de lei “contra o abuso da liberdade de ensinar”. Em suma, o ESP persegue e censura uma [suposta] doutrinação fazendo enfática doutrinação!

O site do ESP também elege seus alvos e [supostas] origens da [suposta] doutrinação: “No Brasil, quem promove a doutrinação político-ideológica em sala de aula, de forma sistemática e organizada, com apoio teórico (Gramsci, Althusser, Freire, Saviani, etc.), político (governos e partidos de esquerda, PT à frente), burocrático (MEC e secretarias de educação), editorial (indústria do livro didático) e sindical é a esquerda.”

O expoente nacional do ESP e seu fundador, em 2003, é o advogado paulista Miguel Nagib. A medida mais recente do ESP foi defender o livre uso de expressões politicamente incorretas na redação do ENEM. Nesse sentido, eles divulgaram um “Modelo de petição inicial contra o cabresto politicamente correto do ENEM”.

Educação crítica

O Escola sem Partido parece deixar claro que, contra a [suposta] doutrinação, se deve agir com censura, perseguição e mordaça. As vias escolhidas para atuar na escola são a autoritária e a intervencionista, em frontal ataque a um projeto de ensino reflexivo, crítico e humanista, previsto tanto na Constituição Federal quanto nos documentos oficiais do Ministério da Educação que regulam o sistema de ensino no país.

O ESP serve à ‘ideologia (conservadora) de gênero’ na medida em que:

– deixa transparecer o desejo de normatizar e disciplinar corpos e mentes, promovendo um discurso monotônico e de negação das diferenças;

– permite inferir que o conhecimento científico é neutro e o acesso a ele é feito de forma que não passa pelo diálogo, pelo debate, pela capacidade de argumentar e contra-argumentar, pela possibilidade de mudar de opinião e de perspectiva sobre o saber;

– impõe o silêncio sobre questões morais e de costumes que fogem ao padrão sociocultural imposto como central e regulador das relações entre os sujeitos;

– nega à instituição escolar o lugar da troca de conhecimento, experiência e percepção, bem como de trânsito de informações.

Por fim, em texto de sua autoria, também divulgado no site do ESP, Miguel Nagib defende a necessidade de expurgar a perniciosidade existente na chamada transversalidade, pois ela abre espaço para o ensino sobre “orientação sexual, questões de gênero, ‘direitos reprodutivos’ (p. ex., aborto), modelos familiares, ética, etc.”

Desnecessário estender o assunto!

Assinaturas-Luiz

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