Ideologia (conservadora) de gênero: modos de enterrar – 4° palmo

Uma das alas da ‘ideologia (conservadora) de gênero’ nasceu ligada a setores ultraconservadores do campo religioso cristão. Do lado do Catolicismo, uma linhagem conservadora cresceu combatendo as ideias da Teologia da Libertação a partir dos anos 1980, sob o papado de João Paulo II, e desembocou no fortalecimento do grupo carismático. No Protestantismo, o discurso ultraconservador cresceu exponencialmente sobretudo entre as denominações neopentecostais.

De fato, o discurso religioso cristão sempre foi monolítico. Na defesa da família como núcleo central da sociedade, o conceito reverberado é o de sua constituição baseada na união de um homem e uma mulher, sem possibilidade de dissolução, regulada pela fidelidade e com função procriadora. O que for considerado ameaça a esse núcleo central deve ser identificado, isolado e dissolvido. Nesse bojo, entram o pensamento contemporâneo apontado como originário das esquerdas – o marxismo, o feminismo, as teorias de gênero -, a discussão sobre os direitos reprodutivos da mulher, o questionamento do princípio irredutível da origem da alma humana no ato de concepção, o reconhecimento das identidades sexuais não heterossexuais como naturais.

A mobilização do campo religioso cristão tem sido intensamente praticada em duas direções: na formação e ampliação de uma bancada parlamentar nas casas legislativas, a fim de aumentar a influência no debate social; apresentar e aprovar projetos favoráveis a seus preceitos; reforçar a base de apoio social. Uma segunda direção é tomada no sentido de formar uma frente contrária à disseminação da teoria queer, ou seja, da percepção de que o gênero é uma construção sociocultural e não natural, podendo se constituir de formas diversas. Nesse sentido, o campo religioso se caracteriza pela negação do reconhecimento de famílias homoparentais, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da adoção de crianças por casais homoafetivos, de um status igualitário às pessoas LGBTQIA.

Enfim, a mobilização naquelas duas direções leva a uma infiltração do campo religioso em diversos espaços sociais: político, social, econômico, financeiro, ético, da saúde, cultural, familiar, racial, das minorias sexuais, escolar, entre outros. Naturalmente, esse esforço é dedicado a um único propósito: operar uma recentralização religiosa entre os seres humanos.

Laicidade

A laicidade se constitui como um sistema político que determina a eliminação da influência da religião no Estado, na cultura e na educação. A laicidade é um princípio fundamental dos Estados modernos. Isso não equivale a impedir a manifestação religiosa das pessoas, mas de impossibilitar que as ações e iniciativas de órgãos públicos, em suas distintas atuações, sejam feitas em nome ou adotando valores das diferentes religiões. A separação entre Estado e religiões deve ser respeitada não apenas para preservar a autonomia do primeiro, como também para garantir que o Estado não se torne um instrumento de exclusão de pessoas não religiosas ou daquelas que professem uma religião diferente da instalada no poder.

A interferência da religião nos atos civis de interesse público pode levar a um desequilíbrio social na balança direitos/deveres e gerar um potencial maior de vulnerabilidade para segmentos que já são historicamente estigmatizados. É nesse sentido que a associação religião e ‘ideologia (conservadora) de gênero’ se torna tóxica quando imiscuída às ações do Estado. Pressionar por reconhecer os valores morais defendidos pelas religiões como centrais em uma sociedade é acentuar o efeito de marginalização de grande parcela dessa população perseguida pelos preceitos e dogmas inerentes ao pensamento religioso.

Ao defender explicitamente uma “ideologia do gênesis”, pela qual existem apenas ‘macho’ e ‘fêmea’, os fundamentalismos religiosos e, em última instância, um Estado teocrático, expõem as pessoas LGBTQIA a diversas formas de violência: social, moral, cultural, familiar, policial, econômica, laboral, simbólica.

Assinaturas-Luiz

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