Ideologia (conservadora) de gênero: modos de enterrar – 5° palmo

Nas duas últimas décadas, a expressão ‘cultura da morte’ ganhou maior ressonância na sociedade brasileira. Ela foi estabelecida principalmente por instituições religiosas cristãs de diversas denominações. Seu sentido visa preservar, a partir de uma perspectiva religiosa, valores imutáveis a favor da vida e da dignidade humana.

Existe um site nomeado ‘Promotores da vida’. Nele são acessíveis diversos vídeos resultantes de palestras realizadas no Seminário Ações e Programas que visam a valorização a vida. O evento aconteceu em setembro de 2015, na Câmara dos Deputados. Entre os temas tratados e atacados, constam: política demográfica e planejamento familiar; direitos sexuais e reprodutivos; política de aborto; pensamento marxista; ideologia de gênero. Mas a chamada ‘cultura da morte’ também abrange a pedofilia e o ‘suicídio assistido’ [morte assistida ou morte medicamente assistida].

É visível, então, que os ‘promotores da vida’ levantam armas contra algumas iniciativas alinhadas à tradição dos direitos humanos, civis e sociais, como o uso de contraceptivos, o aborto legal, programas de redução de danos, o reconhecimento da existência de diversas identidades de gênero, o próprio gênero como construção cultural.

Por outro lado, fica também explícito que os ‘promotores da vida’ reúnem as bases opostas das duas denominações cristãs, em um ecumenismo inesperado: católicos e evangélicos.

Naquilo que toca ao gênero, os ‘promotores da vida’ organizam o seguinte discurso: 1. gênero e sexo se associam em uma relação binária e inquestionável – homem = macho = masculino e mulher = fêmea = feminino; 2. alternativas que fogem a esse binarismo são antinaturais; 3. tais alternativas prejudicam a formação familiar e desviam crianças e adolescentes do seu caminho ‘natural’ – se reconhecerem no binarismo; 4. essas alternativas ainda são estimuladas pelas políticas externas de afirmação das minorias sexuais, tendo à frente a ONU e a UNESCO (?!).

Sexismo/Misoginia

Uma decorrência clara do discurso dos ‘promotores da vida’ é a manutenção da relação desequilibrada entre homem e mulher (favorecendo o primeiro) no que se refere a seus papéis sociossexuais. Na cultura ocidental, foi reservada ao homem a ocupação/organização/administração do espaço público; à mulher, funções similares no espaço privado. Ou seja, há uma maneira de normatizar e disciplinar os indivíduos baseada na diferença anatômica. Assim, o homem estaria destinado às relações de trabalho fora do lar e à manutenção deste; a mulher estaria destinada exclusivamente à maternidade. Essa construção coloca de lado a sexualidade, a orientação sexual e as práticas sexuais.

Esse tipo de construção sociossexual ainda garante ao homem o papel de dominação, de autoridade, de atividade, de virilidade, de mando; à mulher, o lugar no polo oposto dessa relação – a submissão, a servilidade, a passividade, a feminilidade, a obediência. Tal estrutura encaminha esses sujeitos a um lugar de oposição contínua e de exercício da violência, em diversos níveis, do homem sobre a mulher, caracterizando o sexismo e a misoginia. A diferença anatômica dos corpos naturaliza regras sexistas e misóginas, instaurando uma ordem em que a desigualdade é a regra.

Dentro desse padrão sociossexual, homens e mulheres com orientação sexual e identidade de gênero distintos da heteronormatividade são lidos e considerados dentro daquelas normas simbólicas com valores invertidos. Nesse sentido, a noção de desvio passa a operar e condicionar o gay, por exemplo, como um homem equivocado, ser a quem falta a virilidade. Essa percepção ajuda também a compreender o alto índice de violência doméstica contra a mulher nos casos em que ela deseja romper a relação, recusa-se a servir como objeto sexual, deseja exercer atividade de trabalho fora de casa.

Essa estrutura também é reforçada negativamente por aspectos étnico-raciais, de vulnerabilidade social, de pauperização, de baixa ou inexistente educação formal.

Assinaturas-Luiz

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s