Ideologia (conservadora) de gênero: modos de enterrar – 6° palmo

Helena Vieira defende que a ‘ideologia (conservadora) de gênero’ comete quatro distorções no modo de ver a relação entre homens e mulheres na sociedade moderna e na maneira de compreender o gênero como ameaça ao status quo da cisgeneridade-heteronormatividade. Dois aspectos serão vistos na publicação de hoje; outros dois ficarão para amanhã.

Os proponentes da ‘ideologia (conservadora) de gênero’ acreditam na existência de uma agenda internacional que defende a destruição do modelo tradicional de família. Os grupos religiosos cristãos e o campo político de (extrema) direita têm como ponto inquestionável a organização familiar constituída por homem e mulher com filhos como núcleo central da sociedade humana. Baseados nessa crença, eles rejeitam o reconhecimento legal de qualquer outro modo de constituição familiar, sobretudo aquela formada pela união de pessoas do mesmo sexo. Essa negação se estende à possibilidade de adoção de crianças por casais do mesmo sexo.

O segundo aspecto ataca a teoria feminista. Aqueles proponentes acreditam que o feminismo e o transfeminismo têm por objetivo a supremacia feminina ou ainda o fim da reprodução humana. Supomos que essa distorção tem origem, entre outras possibilidades, na publicação do texto “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”, da estadunidense Adrienne Rich, em 1980 (cf. o texto neste endereço: <file:///C:/Users/Dell/Downloads/2309-6424-1-PB.pdf>). Rich representa a heterossexualidade como uma instituição política responsável por retirar o poder das mulheres e apagar a existência da lésbica no pensamento feminista.

Na primeira parte do texto, Rich apresenta os elementos que os homens utilizam para retirar o poder feminino: negam a própria sexualidade feminina; forçam as mulheres às práticas sexuais masculinas; comandam ou exploram o trabalho de mulheres; confinam e privam-nas fisicamente de movimento; usam-nas como objetivo de transação masculina; restringem sua criatividade; retiram-nas de realizações culturais da sociedade. Na segunda parte, Rich defende a existência lésbica como um modo de reação direto e indireto ao direito do homem ter acesso à mulher.

Acreditamos que esse texto foi um dos elementos que acendeu o alerta histérico dos conservadores, fazendo-os interpretar que estava por vir um governo de amazonas no futuro!

Direitos sexuais e reprodutivos

Um dos grandes embates que o movimento feminista tem enfrentado e aprofundado contra o discurso machista, misógino e patrimonialista que tende a ser hegemônico em nossa sociedade é sobre a autonomia do corpo da mulher. Face a uma ‘ideologia (conservadora) de gênero’ que defende a submissão feminina a uma ordenação sociossexual de caráter masculino, passar a construir uma via de independência e de decisão particular sobre o que fazer de seu corpo é um grande gesto de subversão.

Derivado das jornadas de junho de 2013, o lema “Meu corpo, minhas regras” expôs o confronto com aquela ideologia de forma cabal. Esse lema atualiza uma longa trajetória de luta contra a violência institucionalizada contra o corpo da mulher, desde uma forma de educação baseada na crença do binarismo de gênero, passando pelos papéis social e sexual reservados a ela, pela exclusiva função maternal exercida no lar, chegando à negação do aborto como decisão exclusiva da mulher.

Aquele lema impõe ao cenário atual a autonomia que a mulher enxerga em seu corpo. Ao contrário do corpo autômato desejado pela ‘ideologia (conservadora) de gênero’, o feminismo atual deseja constituir um corpo autônomo, com normas próprias e individuais, originárias de seu interior e não remanescentes do exterior. Nesse sentido, lutar contra toda forma de assédio, violência, constrangimento significa fortalecer um posicionamento antimachista, antimisógino e antipatrimonialista.

Muito certamente, praticar a sororidade – em sua dimensão ética, política e prática – será uma das vias de resistência àquele posicionamento e uma das formas de reconhecimento e preservação dos direitos sexuais e reprodutivos femininos.

Assinaturas-Luiz

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