Ideologia (conservadora) de gênero: modos de enterrar – 7° palmo

Na publicação anterior, apresentamos duas informações distorcidas que, segundo Helena Vieira, os proponentes de uma ‘ideologia (conservadora) de gênero’ divulgam: eles temem a dissolução do modelo tradicional de família e o fim da reprodução humana. Passamos a outras duas hoje.

O campo religioso cristão e o campo político-partidário de (extrema) direita defendem que a heterossexualidade é a única forma natural de exercício da orientação sexual. Caso a homossexualidade também seja reconhecida como natural, ela promoveria a destruição ou condenação da heterossexualidade. Esse temor é tão descabido que basta olhar para a história da humanidade para desmontá-lo. Relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo sempre existiram, com denominações que variaram conforme o período histórico. Nem por isso a heterossexualidade foi destruída, sucumbida, extinta. Pelo contrário, estatisticamente, a heterossexualidade sempre foi dominante, e nem por isso a prática de condenar as homossexualidades deixou de ser reincidente.

A segunda distorção proposital é alegar que as teorias de gênero querem confundir as crianças, dizendo que elas podem/devem experimentar ‘múltiplos gêneros’ e ‘múltiplas sexualidades’. Aqui entra em cena o discurso regido pela necessidade de proteção das crianças, seres incapazes de pensar e decidir por si mesmos, expostos à malícia e licenciosidade do adulto. Nesse cenário, o adulto identificado fora da ordem cisgênera e heteronormativa apresenta-se como potencial ameaça à integridade da criança. Ainda nesse campo, a escola, por meio da educação sexual ou de atividades não reguladas, que abordam questões ligadas à teoria de gênero, também influenciaria e desviaria a criança de uma ‘sexualidade natural’.

de gênero, também influenciaria e desviaria a criança de uma ‘sexualidade natural’.

LGBTQIAfobia

Um dos alvos mais nítidos da ‘ideologia (conservadora) de gênero’ é o segmento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queers, intersexuais e assexuais. As pessoas pertencentes a esse segmento são consideradas portadoras de uma orientação sexual e identidade de gênero antinaturais, constituindo-se ameaça à moral, à família tradicional, aos costumes, ao binarismo de gênero, à saúde.

As pessoas LGBTQIA possuem um longo histórico de estigmatização e violências. No lar, na escola, no trabalho, nos locais de lazer, nos espaços de atendimento à saúde, nas igrejas, na rua, as atitudes de discriminação e desrespeito são constantes e numerosas. Esses atos engendram formas variadas de praticar a violência (moral, física, simbólica), podendo chegar ao limite de retirar a vida de pessoas desse segmento. O levantamento dos casos de morte contra essa população, executado há mais de 30 anos pelo Grupo Gay da Bahia e há menos tempo pelo Transgender Europe, confirmou que o Brasil é um dos países que mais mata pessoas LGBTQIA no mundo. A cada 25 horas uma pessoa desse segmento é morta, variando as formas de crueldade empregada.

Há pelo menos duas maneiras, entre outras, de tentar cessar esse círculo vicioso (rejeição à teoria de gênero – desrespeito – violência – morte) gerado pela ‘ideologia (conservadora) de gênero’. Uma é confrontar esse discurso e oferecer alternativas para compreender, assimilar e refletir sobre práticas sexuais, orientação sexual e identidade de gênero. A sensibilização e a educação constituem uma via de longo prazo.

Outra maneira é denunciar aos órgãos competentes os focos de origem desse discurso e buscar a reparação judicial. Fazer encontrar os responsáveis pelas diversas formas de violência e implementar os meios previstos de punição podem se constituir uma via de médio prazo.

De diversos modos, a vulnerabilidade desse segmento é cotidianamente exposta. E não há como negar que a população T é a mais atingida pela forma distorcida com que se insiste em tratar a noção de gênero. Infelizmente, por meio dessa população temos um retrato muito claro dos efeitos de uma ‘ideologia (conservadora) de gênero’: interrupção precoce no processo de educação escolar; afastamento do convívio familiar; inacessibilidade ou baixa mobilidade no mercado de emprego; precarização do acesso a diversos direitos garantidos por lei ao cidadão; pauperização; reduzida expectativa de tempo de vida.

Assinaturas-Luiz

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