As fogueiras das vaidades: censura e crise no Ocidente moderno

De tempos em tempos reencenadas, as fogueiras aparecem na história tão amplamente utilizadas como forma de linchamento coletivo que não se pode traçar-lhes uma origem. Girard (2008) fala de um “mecanismo expiatório” no interior de todos os grupos humanos sublimado pelo cristianismo no simbólico[i]. Para ele, toda vez que um coletivo é levado a situações-limite – o que sempre acontece pelos conflitos de interesses miméticos no seio da própria sociedade em questão[ii] –, a saída encontrada, em parte irracional, é a confecção de uma “vítima” que encarne para a turba todos os males que teme o grupo. O sacrifício das vítimas assume, desde as sociedades primitivas, diversas facetas que têm em comum a narrativa catártica da libertação pela extirpação. O mal, expurgado pela eliminação de caráter inclusive teológico – não se trata somente de um homicídio pragmático, mas de um sacrifício pelos delitos cometidos ou temidos –, seria contido pela extração do membro infecto (como uma gangrena). O cerne do processo, gerador de uma série de desdobramentos (até, inclusive, a posterior deificação da vítima), está na possibilidade de projeção dos medos coletivos em um indivíduo ou segmento social. Apesar da diversidade formal dos processos de imolação através de tempos e sociedades distintos, a mais emblemática forma de se matar as “partes malditas” de um coletivo no ocidente moderno é a queima.

Ao contrário do que sugere o senso comum, as fogueiras não tiveram seu uso mais amplo e sistemático na Idade Média. Embora os tribunais do Santo Ofício datem do século XII, pelo menos no interior das sociedades europeias até o século XV vigorou uma relativa tolerância – evidentemente não dispensada aos não europeus de outras religiões (sobretudo mouros). É na crise da Idade Média – e portanto no alvorecer da Idade Moderna – que as fogueiras encontraram seu apogeu. Mulheres, loucos, intelectuais e diversos outros tiveram seu fim nas chamas de católicos a puritanos, na Europa e nas colônias, a partir da baixa Idade Média. A esse respeito, no primeiro parágrafo da História da loucura, Foucault (2009) registra:

Ao final da Idade Média, a lepra desaparece do mundo ocidental. Às margens da comunidade, às portas das cidades, abrem-se como que grandes praias que esse mal deixou de assombrar, mas que também deixou estéreis e inabitáveis durante longo tempo. Durante séculos, essas extensões pertencerão ao desumano. Do século XIV ao XVII, vão esperar e solicitar, através de estranhas encantações, uma nova encarnação do mal, um outro esgar do medo, mágicas renovadas de purificação e exclusão. (p.3)

As solicitações de um novo mal que herde a carga simbólica do leproso, ou seja, novas vítimas, não serão senão experimentais. O furor contra a feitiçaria, a heresia, a apostasia e outros traços que configuravam os “inimigos públicos” de então se alastrou do século XIV em diante – ao ponto de até mesmo o papa Bonifácio VIII ter sido acusado de bruxaria. Duas coisas cumpre salientar: uma, que as marcas distintivas dos segregados (e perseguidos) eram sempre a diferença; duas, que a baixa Idade Média foi, sobretudo, um período de intensas crise e mudanças. Ambas essas notas convergem para uma mesma questão: a dos sistemas de valores no interior das sociedades.

Aquilo que chamamos “diferença” não se trata, simplesmente, das características inerentes e únicas às diversas individualidades que compõem um todo social, mas a características recorrentes e comuns, ainda que minoritárias, dentro do todo, que estão de alguma forma relacionadas aos sistemas de valores vigentes a partir das relações de trabalho, do modelo de propriedade (ou não) adotado, e, enfim, do sistema de sentido que organiza as relações sociais em curso. No cerne de uma sociedade patriarcal, por exemplo, calcada na sucessão biológica da riqueza como base de seu sistema de propriedade e trabalho, o feminino e a mulher são a diferença. Talvez seja excessivamente estruturalista propor, ainda, que há um significante dominante no interior das sociedades a partir e em referência ao qual se dão os significados do grupo social em questão. A diferença seria a exceção sistemática e reprodutível no interior desse sistema – algo que aparece como Bastos (2004), a partir de Guattari, nos lembra:

Referimo-nos a um estruturalismo que com seus respectivos derivados e influências, pensa a subjetividade junto ao significante linguístico, ou significante dominante. Guattari acentuará que tal significante, ainda que se apresente de forma hegemônica em diversos agrupamentos, é apenas uma das leituras da produção da subjetividade e não tem, em hipótese alguma, um caráter de fixidez. (p. 78)

A diferença, porque de alguma forma relacionada com os valores de um grupo e época e sempre específica dentro deles – ainda que inclusa na economia geral, é administrada pela segregação –, além de sistemática porque recorrente, é como que o modelo de outras possibilidades de interpretação dos mesmos objetos e estruturas. Falamos aqui, portanto, justamente daquilo que põe a nu o caráter provisório dos sistemas de pensamento dominantes. Pode-se, sem dificuldade, propor a hipótese de que a ampliação e sistematização do uso das fogueiras contra os “inimigos públicos” do Ocidente europeu deu-se a partir da baixa Idade Média em virtude do processo de mudança que irrompe no período e acirra as rivalidades no interior dos grupos. A partir do século XIV advém a Guerra dos Cem Anos, as pestes negra e bubônica, o crescimento demográfico, o renascimento urbano, o crescimento do comércio e com ele a formação da burguesia e o deslocamento do eixo de poder material – mudanças que culminariam no fim do feudalismo e, na passagem ao século XV, na formação do mercantilismo, nas grandes navegações e, para tanto, em um salto tecnológico que leva ao antropocentrismo humanista e ao mecanicismo. Inclusas nesse salto tecnológico estão a invenção da imprensa de tipos, responsável pela proliferação dos livros no mundo, e a invenção da perspectiva e fundação de uma nova arte – marcada pelo academicismo renascentista e pelos estilos prodigiosos e à sua maneira iconoclastas do final do século XV e XVI, o Maneirismo e o Barroco. Através dos estudos de pensadores como Galileu e Bruno (o segundo morto em uma fogueira) em campos como a astronomia e a geometria, a própria noção de mundo do homem às portas da Idade Moderna alterava-se drasticamente – os paradigmas científicos estavam em franca contradição com a percepção socialmente acordada da realidade objetiva. Aqui pode se argumentar, retomando Guattari, que o caráter fluido mesmo dos significantes dominantes é tal que a diferença pode ser produzida no interior do sistema pelas formas mais sofisticadas do seu aparelho cultural.

O desmantelamento de um certo mundo leva a reações brutais. Os focos de incêndio europeus durariam até o final do século XVIII e se alastrariam por todo o mundo colonial, queimando indiscriminadamente qualquer um que fosse ou parecesse uma ameaça. Mas não somente pessoas. Alguns dos grandes inimigos públicos foram livros e obras de arte – objetos representativos dos paradigmas emergentes e veículos difusores do pensamento da época, eram vetores ainda mais exemplares que seus autores da diferença ameaçadora. Foi na fértil Itália da Renascença que um monge dominicano concluiu que extirpar a fonte não bastava, ou por vezes sequer era necessário, dado o alcance reduzido dos indivíduos, mas que era fundamental erradicar as metástases, ou seja, a obra. Foram os partidários de Girolamo Savonarola a organizar, em 1497, a primeira queima pública de obras de arte e livros esmeradamente angariados. É claro que a queima de objetos culturais não foi uma invenção do dominicano italiano; pode-se mencionar a queima da biblioteca de Bagdá no século XIII ou a política de sepultamento de intelectuais da dinastia Qin no século III, mas certamente torna-lo um evento público, uma espécie de espetáculo cooperativo e coparticipativo associado a uma campanha moral, é bastante característico da prática específica instituída pelos defensores de Savonarola. Surgia um novo gênero: as fogueiras das vaidades. A partir daí, no final do século XIV a inquisição espanhola já promoveu uma enorme queima de manuscritos do Corão em Granada, os colonizadores destruíam registros escritos das civilizações que deparavam, as traduções da bíblia de Lutero foram queimadas juntamente com a demais literatura protestante em países germânicos, os nazistas[iii] queimaram livros aos montes em pleno século XX por toda Alemanha e assim por diante.

Quando se fala do caráter emblemático das fogueiras na cultura ocidental, podemos nos remeter, por exemplo, a Blanchot, que dizia da literatura ser “a parte do fogo” (porque inquietante, porque necessariamente propõe uma aproximação da diferença ao tentar outros usos da linguagem), ou a Chartier (1998) que diz que “A cultura escrita é inseparável dos gestos violentos que a reprimem” (p. 23). A fogueira associou-se justamente àquilo que pretendem repelir, como uma profilaxia, o remédio específico de um malefício determinado. Inúmeras leituras metafóricas podem se fazer sobre os porquês do fogo, associar o calor à assepsia e esterilização etc. O que vem ao caso é que a fogueira e a cultura a partir da Idade Moderna são duas faces da mesma moeda na história cultural do Ocidente, como dois princípios antagônicos e competitivos.

Façamos um salto para terça-feira 7 de novembro de 2017 quando, na rua Clélia, em São Paulo, em frente ao Sesc Pompeia, um grupo de manifestantes contrários à palestra da filósofa Judith Butler incendiou, aos gritos de “queimem a bruxa” no megafone, um boneco de tamanho real com o rosto da filósofa reproduzido através de uma fotografia. Contra o simulacro em combustão, crucifixos enormes de madeira em riste. Os cartazes portavam, em sua maioria, frases de efeito contrárias ao que chamam “ideologia de gênero”[iv] e pretendiam falar em nome da moral e do povo brasileiro – diziam, por exemplo, que a filósofa não é bem-vinda no Brasil, como se fossem eles e somente eles o recorte representativo do todo demográfico do país. Na filósofa projetavam ameaças à família (tanto instituição quanto valor), às crianças e à ordem sexual supostamente clara e natural hegemônica (a heteronormatividade); acusavam-na de perversão, aberração e pedofilia – com base em quê essa última, perguntem ao diabo. A estratégia é claramente fascista: apego à noção de identidade popular nacional inclusive repisando a oposição a um inimigo estrangeiro – falar em nome do “povo brasileiro” (sem um quórum de sequer 50 pessoas) que “recusa a ameaça estrangeira” da filósofa inimiga; “Judith go home” (sic) etc. –; pleitear um monopólio do ponto vista moral, ou seja, que somente aquele grupo fala de um lugar ético, bom e verdadeiro, enquanto todo o resto é maléfico, perverso e assim sucessivamente; opor-se deliberadamente à produção artística e intelectual de forma não argumentativa, ou seja, confrontar registros de ideias, mídias, com atos de violência material (aqui as fogueiras de que falávamos); uso da intimidação no lugar do debate, ao invés de publicarem críticas ao evento, vão à porta com performances agressivas – como a queima da boneca explícita e realisticamente caracterizada como a filósofa, com os traços sexuais biológicos ressaltados por peças íntimas femininas de cores fortes à mostra, ou as agressões verbais dirigidas à filósofa dias depois, no aeroporto de Congonhas enquanto embarcava de volta para casa. De todos esses evidentes pontos depreende-se ainda o caráter xenófobo e misógino em que estão calcadas essas manifestações e pode-se, portanto, falar propriamente em fascismo.

O evento de rejeição à professora de Berkeley, que no seminário da USP para o qual fora convidada não falaria sobre gênero ou sua teoria Queer, mas, ironicamente, debateria a atual crise da democracia, não foi, porém, isolado. Foi mais um episódio de uma cadeia de eventos iniciada, talvez, pela exposição Cartografias da diferença, no Santander Cultural em Porto Alegre (RS).

No domingo, dia dez de setembro, há dois meses, foi cancelada pela direção do banco a mencionada exposição em virtude de tumultos, sobretudo nas redes sociais, acerca do conteúdo da mostra: tratava-se de aproximadamente 270 trabalhos de 85 artistas nacionais sobre a diversidade não só de gênero, mas de credo, cultura e modos de vida em geral. Nem os padrões internacionais de curadoria, meticulosamente observados, nem a importância da coleção reunida para a história da arte brasileira e mundial – com nomes como Lygia Clark, Alfredo Volpi, Adriana Varejão, Portinari e Leonilson – foram capazes de sustentar a exposição em cartaz. Indiferente ao valor histórico e artístico e às convenções democráticas, de curadoria e educação, a turba executou, em proporções inéditas desde a ditadura, as manobras fascistas de difamação, distorção, invasão, calúnia, constrangimento, assédio e intimidação na mostra, tendo os membros responsáveis pelo embate ido enfrentar, câmeras de celular em punho, visitantes que passeavam com os filhos e funcionários, desrespeitando proibições relativas ao direito de imagem de pessoas e obras, o espaço e o trabalho alheios.

A mostra foi fechada, mas não bastasse, semanas depois a fachada do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) testemunhou um dos atos mais extravagantes da história da perseguição à arte no Brasil: a turba fascista, às portas do museu, agrediu física e verbalmente funcionários da instituição após uma série de vídeos de figuras proeminentes desse movimento, feitos dentro da galeria, outra vez intimidando funcionários e constrangendo visitantes, ir ao ar acusando de pedofilia uma performance em que, simplesmente, havia um homem nu – e nada mais. Não ficassem nus os europeus em seus parques no verão, sobretudo no sul da Alemanha; não ficássemos seminus para ir à praia e pelados de todo para dar à luz; não fosse o corpo objeto privilegiado da arte desde a antiguidade egípcia e grega. A sexualização deliberada da nudez foi o carro-chefe dessa operação de desmembramento de uma obra de arte reconhecida para um sketch burlesco da paranoia coletiva. Artistas foram ameaçados, curadores difamados, funcionários agredidos, visitantes assediados, instituições vilipendiadas; instaurou-se uma CPI e, recentemente, votou-se pela condução coercitiva de curadores a depoimento por – pasmem – organizar mostras de arte.

A seguir, segunda-feira, 2 de outubro, o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR-RJ), que havia se oferecido para abrigar a desmontada exposição “Cartografias da diferença”, interrompeu as negociações após um vídeo divulgado um dia antes pelo prefeito da cidade, representante de uma fé neopentecostal em franca expansão[v]. Alegando não ser capaz de garantir a segurança de sua equipe após os violentos episódios do MAM-SP, o MAR “deu um banho de água fria” naqueles que esperavam uma postura mais combativa das instituições nacionais. O mesmo fez o MASP ao abrir, dia 19 de outubro, a mostra Histórias da Sexualidade sob a impraticável – e inédita no gênero – censura de 18 anos[vi]. No caso do MASP, porém, a atitude denotou covardia institucional ímpar ao tentar sitiar o que, claramente, era uma provocação – em virtude do tema da exposição. Uma provocação é sempre tudo ou nada: ensaiá-la e subitamente regredir é pior que nada, na medida em que parece dar razão ao contra-argumento. A censura restritiva de 18 anos, ao contrário das classificações indicativas (de 16) que se pratica na curadoria internacional, além de explicitar o medo da gestão, também entra para o discurso social corrente como uma vitória da reação.

Outros eventos pipocaram pelo país: em Belo Horizonte, na quinta-feira, 5 de outubro, um grupo autoidentificado como de evangélicos liderados por um vereador, massa de menos de 50 pessoas, realizou um ato demonstrativo na frente do Palácio das Artes (Fundação Clóvis Salgado) contra a exposição de Pedro Moraleida (artista falecido no final dos anos 90 aos 22 anos de idade). Antes disso, quinta-feira, 14 de setembro, uma tela que denunciava a pedofilia (homônima) e que sequer era figurativa, foi apreendida pela polícia dentro da exposição Cadafalso no Museu de Arte Contemporânea (Marco) em Campo Grande (MS). Sendo justamente a ideia da exposição denunciar mazelas da violência da realidade corrente, a tela teve a leitura de “apologia da pedofilia” forçada pela insistência de seus detratores até o confisco. A obra de Alessandra Cunha foi posteriormente confiada ao secretário de cultura da cidade sob função de depositário, não podendo, portanto, salvo em caso de decisão judicial, trazê-la a público nem restituí-la à artista[vii]. Por último, dia 27 de outubro, a peça O evangelho segundo Jesus, rainha do Céu foi impedida de se apresentar no 10º Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (FIAC) por uma decisão judicial de última hora[viii].

Em comum uns com os outros esses atos têm, simbolicamente, o fogo que queima a bruxa Judith em frente ao Sesc – referência que os costura todos naquilo que já chamamos “um gênero” (performático). Assim como há reality shows ou partidas esportivas, há formas mais brutais de espetáculo: linchamentos, exorcismos – todas as cenas de escatologia públicas que participam da nossa cultura – e as imolações catárticas de vítimas específicas, marcadas como depósito dos medos sociais, da fobia da mudança, do signo das rivalidades intrínsecas ao grupo naquele momento, pela diferença. As fogueiras das vaidades são um desses gêneros de expiação e entretenimento macabro e, talvez, o mais comum – por simular inocência ao recair sobre objetos e não corpos. E enquanto gênero que são, parecem instaurar um conjunto de experiências próprio, um millieu inscrito no seu circuito de possibilidades esquizoides. Por isso as fogueiras das vaidades continuam acontecendo independente dos registros históricos de sua repetição, independente de seu caráter fascista e infundado. Censurou-se, por exemplo, a Cena Interior IV, de Adriana Varejão, acusando-a de expor “zoofilia” sem atenção, por exemplo, ao sentido que esse detalhe da composição adquiria no todo do tema da obra – mas também sem atenção à existência de obras como o tríptico O jardim das delícias terrenas, de Bosch, de 1504, em que, em meio à massa retratada, há cenas de sexo grupal com animais e objetos por todos os orifícios dos corpos de ambos os sexos – tanto no paraíso quanto no inferno. A obra visava discutir a questão da efemeridade da vida e do prazer através da representação etérea da luxúria, associada a vidros e envolta em ramalhetes de flores que utiliza nas suas práticas. A tradição artística em que essas obras se inserem propõe que elementos de sentido (metáforas, como em Bosch) ou de percepção (como a perspectiva e a composição em Varejão) produzam efeitos de leitura dentro da cultura em que são produzidos e recebidos, colocando seus próprios contextos de entendimento a partir de seus temas. Ou seja, não são literais nem podem ser interpretados com base simplesmente nos conjuntos de signos que apresentam, sem atenção aos referenciais que ordenam a gramática interna própria da obra. Não são, enfim, o que parecem simplesmente – e são, portanto, presa fácil do achincalhamento coletivo de um público carente de formação teórica. O tríptico de madeira do mestre holandês de mais de 500 anos está exposto, livre de qualquer restrição etária, no Museu do Prado, em Madrid, com toda a sua nudez e sexo já de cinco séculos. E não é o único.

bosch retábulo central JDT

O que as fogueiras das vaidades obviamente traçam desde seu surgimento como tal no começo da Idade Moderna até os dias de hoje é a relação evidente entre crise e censura. Talvez a forma moderna de se extirpar o “inimigo” – a diferença – seja através do combate à sua proliferação discursiva – é dizer, as mídias. O que nunca é mais urgente como quando esses valores veem-se acossados pelos tempos, pelas mudanças sociais intrínsecas e estruturais dos sistemas econômicos, trabalhistas etc. A censura, a destruição de livros e obras de arte ou seu aprisionamento, a expulsão de filósofos, a perseguição a peças de teatro, são todos atos da mesma combinação de medo e projeção, de apego às estruturas antiquadas do mundo e de ódio à diferença e à transformação – sem saber que todos participamos delas, queiramos ou não. Talvez por isso as fogueiras tenham sido chamadas de “das vaidades” na Renascença: porque, de alguma forma, nos víamos nelas, naquilo que queimávamos. Os contornos antropomórficos de esculturas e nas superfícies das pinturas no fogo ou na reclusão são, inevitavelmente, uma tentação de nos vermos naquilo que criamos – e portanto vermo-nos de uma maneira nova, participando da diferença. A queima de um fantoche diante de um seminário universitário é emblemática da identificação oculta entre quem ateia o fogo e aquilo que entra em combustão. Judith Butler foi acusada por ideias que nunca propôs, por uma turba que nunca a leu, justamente por aquela lógica interna de ódio e medo das fogueiras das vaidades; o fantoche incendiado, portanto, era exatamente isso: um boneco ventríloquo através do qual a turba confessava suas fantasias mais infelizes, delírios paranoicos persecutórios nos quais não podem senão sentir prazer. Confessam, ali, que precisam lutar por valores arraigados que não estão sendo verdadeiramente atacados – apenas postos em convívio com a diferença que abre seu sistema pretensamente fechado – porque enxergam a decadência desses mesmos valores – onde mais senão nos seus próprios atos? Seriam os agitadores desses grupos verdadeiramente ilibados bastiões da moral? Seriam felizes aqueles em acirrada defesa de um modelo único, mononuclear e patriarcal de família, mas que escondem seus homossexuais e abortos no inconfessável?

As fogueiras das vaidades continuam. Ainda fechamos mostras e queimamos bruxas, mas quem enterra a todos nós é o tempo, indelével senhor do futuro.

Assinaturas-andre

Referências
BASTOS, R. L. Poética e psicanálise: artepensamento entre campo ficcional e campo psicanalítico, diferentes subjetividades. Rio de Janeiro: E-Papers, 2004.
CHARTIER, R. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Trad. Reginaldo de Moraes. São Paulo: Editora Unesp/ Imprensa oficial do Estado de São Paulo, 1999.
FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. Trad. José Teixeira Coelho Neto. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.
GIRARD, R. Coisas ocultas desde a fundação do mundo: a revelação destruidora do mecanismo vitimário. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
[i] Talvez apenas ritualisticamente. Cristãos ainda sacrificariam vítimas por muito tempo, apesar da suposta sublimação pelo vínculo da comunhão, ignorando a moeda de troca do martírio de sua figura central.
[ii] A esse aspecto autodestrutivo inerente à estruturação social Girard chama de “rivalidade mimética”. Parece-nos, basicamente, a descrição de uma impossibilidade fundamental da vida humana, tratada de outras formas, por exemplo, em Bataille (em O erotismo): a distância entre o indivíduo e o outro. Se a noção de “individualidade” é ou não aplicável a todas as sociedades primitivas é ainda tema de forte discussão.
[iii] Ainda hoje fala-se na Alemanha do dia 10 de maio de 1933 como um marco da perseguição a intelectuais no regime nazista. Nesse dia aconteceram simultaneamente em diversas cidades da Alemanha grandes queimas públicas de textos de diversos autores inconvenientes ao regime.
[iv] Um termo guarda-chuva em tudo impróprio usado indiscriminadamente para referir-se tanto aos estudos de gênero compreendidos, dentre outras, pela teoria queer e as lutas sociais históricas por direitos das minorias sexuais e de gênero. Desse grande amálgama indevido participam distorções e invenções de toda espécie, explicitando tanto o absoluto desconhecimento de seus propagadores acerca dos temas que repudiam, quanto o apelo à paranoia coletiva. A superficialidade e a imprecisão andam lado a lado com o conspiracionismo, tanto quanto coabitam bem desonestidade intelectual e ignorância.
[v] Inclusive financeira. Este articulista por vezes imagina os resultados, para fins de estudo, da abertura de certas fés ao capital internacional e, portanto, venda de ações de “igrejas multinacionais” nas bolsas de valores. Se pudéssemos reunir as neopentecostais em um grande bloco, como um conglomerado (uma holding divina), talvez pudéssemos avaliar sua relevância naquilo que realmente interessa ao seu funcionamento ostensivo: a cotação dessas hipotéticas ações na BOVESPA.
[vi] A censura foi derrubada após dois processos judiciais movidos por civis e uma nota de repúdio do Ministério Público Federal emitida na segunda-feira, 6 de novembro, contra a censura.
[vii] A escolha de um homem para detentor da obra e seu sigilo jurídico não é outra coisa senão misoginia.
[viii] A peça ocorreu apesar disso. A equipe conseguiu deslocá-la às pressas para outro local da cidade, o Goethe-Institut, contornando a decisão judicial que previa sua proibição no espaço original, o Barroquinha.

 

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