Como o “gênero” se tornou o inimigo número 1 do Vaticano e da Manifestação para Todos

Com A cruzada “antigênero”, Sara Garbagnoli e Massimo Prearo retraçaram a história das mobilizações da Manifestação para Todos e companhia, jogando luz sobre o papel crucial do Vaticano e apontando o dedo para as responsabilidades políticas e midiáticas.

“Essas mobilizações e esses discursos têm uma história. É preciso conhecê-la para poder agir melhor.” As palavras da pesquisadora Sara Garbagnoli resumem perfeitamente o sentimento que causa a leitura de La croisade “anti-genre”: Du Vatican aux manifs pour tous [A cruzada “antigênero”: do Vaticano às Manifestações para Todos], obra coescrita com Massimo Prearo, publicada pela Éditions Textuel. Para compreender melhor a mobilização “antigênero” e as manifestações contrárias ao casamento para todos, ao PMA [Procréation Médicalement Assistée – Procriação medicamente assistida] ou à luta contra os estereótipos de gênero que ela traz consigo, essa obra se propõe a reconstituir sua história, que tem raízes no Vaticano.

“Uma necessidade de textos, de discursos”

Sara Garbagnoli e Massimo Prearo são dois pesquisadores italianos que se interessam pelos movimentos feminista e LGBTQIA e pelas mobilizações sexuais há vários anos. Sara Garbagnoli é doutoranda na Universidade Paris 3 e coautora de Non si nasce donna [Não se nasce mulher], sobre o feminismo materialista (Alegre, 2013). Massimo Prearo é pesquisador associado à Universidade de Verona e autor de Le moment politique de l’homosexualité. Mouvements, identités et communautés en France [O momento político da homossexualidade: movimentos, identidades e comunidades na França] (PUL, 2014). Os dois têm um percurso relativamente similar. Face à quase inexistência de estudos de gênero na Itália, eles se formaram na França. Daí nutriram um olhar cruzado sobre os movimentos “antigênero” nos dois países fronteiriços.

Em 2013, quando a controvérsia sobre a dita “teoria de gênero” explodiu no espaço público italiano, alguns meses apenas após as manifestações francesas, eles tomaram consciência da similaridade das situações. “Estávamos diante do sucesso desse discurso, dessas mobilizações. Na Itália, assistíamos a uma espécie de replicação das questões que já se passavam na França: “A teoria de gênero existe?”, “Você é a favor ou contra?”, lembra-se Sara Garbagnoli.

Os dois pesquisadores concordaram então sobre a necessidade de escrever sobre o tema. Massimo Prearo fala de uma “necessidade de textos, de discursos, para compreender quem eram essas pessoas, o que elas estavam fazendo, sobre o que elas falavam”. Colocado a postos, o pesquisador havia notado, desde 2013, na Itália, a tendência entre os militantes LGBTQIA de não levar a sério essa mobilização. “Devido ao nosso desconhecimento do enraizamento histórico do movimento, houve uma minimização dessas mobilizações. Como se fosse o caso de alguns fanáticos, de velhos beatos ridículos que falavam de uma teoria que não existe, um pouco como os fake news”, relembra ele. Diante disso, “a contramobilização e a organização de um contradiscurso foram organizadas tardiamente e com certa lentidão”, enuncia o pesquisador. Para contribuir com a articulação de uma resposta eficaz face a essa “cruzada antigênero”, os dois pesquisadores se lançaram em um trabalho que nos esclarece sobre o entorno das mobilizações que emergiram com a enevoada “teoria de gênero”.

Uma mobilização que se diz espontânea

No final de 2012, começo de 2013, quando as ruas de Paris foram coloridas com bandeiras rosas e azuis e ressoaram slogans também despropositados como “Não há ovários nos testículos”, a mobilização contra o casamento para todos parece espontânea. A França católica despertaria impulsivamente, ferida pela “destruição do casamento” e da “civilização” que se aproxima. Por toda a França as famílias católicas se levantariam sozinhas para enfrentar essa “mudança civilizadora”.

Foi nisso que os promotores dessa mobilização nos fizeram tentar acreditar. Para Massimo Prearo, essa mobilização se fez construir “sobre um terreno, invisível aos nossos olhos – pois são espaços que não habitamos –, cultivado desde os anos 2000 pelo Vaticano e seus atores”. “Era preciso que as mensagens que passam nas mídias fosse a seguinte: a “‘maioria silenciosa’ despertaria de maneira espontânea”, prossegue o pesquisador. Ora, joga-se luz sobre uma conjuntura entre duas temporalidades: o fato de que essas questões estejam na ordem do dia da agenda política e que isso seja feito em um momento em que o discurso sobre o gênero tivesse tempo de se impregnar no mundo católico. Massimo Prearo, ao pinçar as análises a posteriori, avança a seguinte observação: “Poderíamos quase dizer que a mobilização estava preparada para que, naquele momento, na França ou na Itália, o debate chegasse ao Parlamento ou às mídias, e a rua se colocaria em movimento”.

Segundo o pesquisador, “havia um conjunto de associações e de discursos prontos contra a ‘teoria de gênero’. Era um discurso que circulava nos espaços católicos desde o meio dos anos 2000. Havia já encontros, conferências que retomavam o vocabulário, o léxico e o repertório preparado pelo Vaticano, invenções discursivas como ‘teoria de gênero’.” Assim, essa invenção tornou-se objeto contra o qual era necessário se mobilizar. Massimo Prearo se lança mesmo em uma ginástica intelectual para se colocar no lugar dos promotores dessa mobilização: “Antes era o aborto, agora isso não funciona mais, cansa um pouco as mídias. A ‘teoria de gênero’ funciona melhor; ela será, portanto, nossa nova causa”.

A construção de um inimigo: o “gênero”

Com efeito, quando Sara começa a se interessar particularmente pelo gênero, a estudar quem utilizava o conceito e como, a partir de 2007, ela faz uma constatação: “Um dos atores que mais falavam de gênero era, paradoxalmente, o Vaticano.”

Para analisar esse fenômeno, é preciso remontar ao meio dos anos 1990 e a dois grandes eventos políticos organizados pelas Nações Unidas. O primeiro no Cairo, em 1994, com a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento; o segundo, em Pequim, em 1995, intitulado IV Conferência Mundial sobre a Mulher: Igualdade, Desenvolvimento e Paz. No momento dessas duas conferências, a noção de gênero é utilizada para analisar as diferenças entre os homens e as mulheres. Essas diferenças são então olhadas como formas de inferiorização e de discriminação cuja origem seria social, histórica e política. Elas não teriam, portanto, nada de natural. “Face a essa heresia, a de dizer que a ordem sexual não é natural, mas histórica e política, o Vaticano reagiu”, afirma Sara Garbagnoli.

Para se opor a toda forma de “desnaturalização” da ordem sexual colocada pelas reivindicações, as lutas e as análises feministas e LGBTQIA, “os experts do Vaticano construíram um inimigo, satanizaram as posições adversas e colocaram esse inimigo sob o rótulo de ‘teoria de gênero’”, prossegue a pesquisadora. “A palavra gênero funciona então como uma metonímia, uma expressão para dizer qualquer coisa. É um rótulo que se refere ora às teorias de gênero – elas existem, claro, basta pensar no trabalho de Christine Delpy, de Judith Butler ou de Joan W. Scott – em um campo de estudos amplo – os estudos de gênero e de sexualidade –, mas também às reivindicações políticas trazidas pelos movimentos feministas ou LGBTQIA ou às políticas de luta contra as discriminações e as desigualdades”.

Essa “teoria de gênero”, montada peça a peça e constituída como um inimigo único, permite assim confederar um front de mobilização que une diferentes atores conservadores, de católicos a grupos neofascistas. É preciso, aliás, lembrar que essa “cruzada” tem uma origem e uma ambição transnacional, e ganha formas diferentes em função de diferentes contextos nacionais.

Um exemplo mais recente é o “Ônibus da liberdade”, da plataforma Citizen Go, que circula na Itália, na Alemanha, na França e nos Estados Unidos e se encarrega de defender as crianças face ao ensino da “teoria de gênero” nas escolas, com slogans homofóbicos e transfóbicos. Na França, ao redor desse ônibus, há apoiadores vindos da direita conservadora, de Émile Duport, do coletivo antiaborto das Survivants, passando pela antiga candidata da Frente Nacional nas eleições legislativas, Thierry Devige, e por François Régis Salefran, fotógrafo da Manifestação para Todos.

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Faixa com a inscrição: O gênero não faz meu gênero.

As novas roupas do sexismo e das LGBTQIAfobias

Esse dispositivo discursivo ao redor do gênero é um “passe de mágica nacional”, como se pode ler na obra dos dois autores. Elaborados por instâncias de poder do Vaticano, ele contém duas partes: uma, de tratamento eufemístico do discurso misógino e LGBTQIAfóbico tradicional; outra, de satanização do discurso contrário. Segundo Sara Garbagnoli, torna-se assim “menos reconhecível e, portanto, mais audível dos propósitos injuriosos e dos discursos raivosos que não poderiam mais ser proferidos nos mesmos termos que antes em razão, precisamente, das conquistas obtidas pelos movimentos feministas e LGBTQIA”.

O Vaticano distingue então “os ‘bons’ homossexuais – que são castos, discretos e devem ser acolhidos ‘com respeito e compreensão’ – dos ‘maus’ homossexuais – que vivem sua homossexualidade como uma identidade política”, como se pode ler em A cruzada antigênero.

Os dois pesquisadores evocam o que os sóciolinguistas chamam um “discurso sob pressão”: “Como eles não podem mais afirmar exatamente a mesma coisa, com as mesmas palavras, eles o fazem com outras referências, de outros discursos. Daí o aparecimento de expressões como “ecologia humana”, que indica nem mais nem menos que a superioridade da heterossexualidade

Um discurso rendido midiática e politicamente

Entretanto, apesar da força de tal discurso, as mobilizações “antigênero” francesas não teriam obtido o mesmo sucesso político se outros atores não lhes tivessem aberto as portas. Sara Garbagnoli explica isso com precisão: “Para que o dispositivo existente funcionasse, seriam necessárias condições políticas propícias, como certa frouxidão e relutância política”. A referência é límpida: o governo socialista à época e o Presidente da República, François Hollande, são diretamente responsabilizados.

Mas eles não são os únicos; a complacência das mídias também está na berlinda. Políticos e jornalistas, “em vez de interrogar esses rótulos, esses pseudoconceitos, renderam-se a eles”, dispara ela, antes de prosseguir: “Rendendo-se, eles os legitimaram. Chegou-se ao ponto de que toda controvérsia foi fundada e construída sobre categorias fabricadas e pensadas pelo Vaticano e seus atores.” A constatação da pesquisadora é irremediável: “As pessoas não se cansam de perguntar se a ‘teoria de gênero’ existe ou não, se somos a favor ou contra, em lugar de focar as verdadeiras questões políticas: como lutar contra as discriminações sistemáticas e sistêmicas que pesam sobre os ombros das mulheres e de pessoas LGBTQIA”.

Um discurso que se enraizou prolongadamente

Quase cinco após os debates franceses sobre o casamento, o tratamento midiático-político dessas questões lhe dá razão desesperadamente. Do lado midiático, basta dar uma olhada na conta do Twitter da Manifestação para Todos para se dar conta da confusão. Não há mais necessidade de comunicados da imprensa, basta reciclar os artigos já existentes que retomam o vocabulário. Sara Garbagnoli denuncia isso observando particularmente a última capa da Charlie Hebdo sobra o PMA: “Quase se poderia dizer que são, de agora em diante, as mídias que fazem seus comunicados de imprensa. Basta ver o uso do termo ‘PMA sem pai’ para se dar conta disso.”

Do lado político, a última campanha presidencial é outro exemplo gritante. Se Emmanuel Macron lamentou a “humilhação” da Manifestação para Todos, Jean-Luc Mélenchon [candidato presidencial do Partido Comunista francês] pediu “prudência” sobre as questões éticas e Benoît Hamon [candidato presidencial do Partido Socialista francês] qualificou a mobilização antimatrimônio de “movimento social heterogêneo”. “Isso é funesto, do ponto de vista político”, exaltam-se os dois pesquisadores, que levam o raciocínio um pouco mais longe. “Isso lhes permite não apenas se apresentar como interlocutores legítimos, mas também como ‘verdadeiras’ vítimas da ‘heterofobia’, como ‘verdadeiros representantes do ‘povo’ ultrajado pelos ‘lobbies’, como ‘verdadeiros’ resistentes contra o ‘conformismo gay’.”

Para concluir, em uma só voz e com o sentido afiado da fórmula: “Quando eles dizem que a ‘teoria de gênero’ destruirá o mundo, nós respondemos que lutamos efetivamente pelo fim do mundo deles, desse mundo sexista, homofóbico e transfóbico.”

Assinaturas-Luiz

La croisade “anti-genre”: Du Vatican aux manifs pour tous
Sara Garbagnoli, Massimo Prearo (Paris: Textuel, 2017. 128 páginas.)
Reportagem de Ambre Philouze-Rousseau, publicada na revista francesa Têtu em 3 de novembro de 2017.
Tradução: Luiz Morando

 

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