“Judith Butler não é bem-vinda no Brasil! Em que século estamos?

“Seus livros querem nos fazer acreditar que a identidade é variável e fruto da cultura”, clamava a petição on-line que na semana passada chegou a recolher 400.000 assinaturas para repudiar a visita da filósofa estadunidense, referência fundamental para os estudos feministas contemporâneos e a teoria queer.

Estive em São Paulo, presenciei os acontecimentos e ainda conversei com o antropólogo Horacio Sívori para tentar compreender como operam os movimentos que estão por trás dessa onda neoconservadora, que embora tenha ares medievais, se vale dos meios digitais para correr o mundo.

Desde São Paulo

“Queimem a bruxa! Queimem a bruxa!”, gritavam manifestantes de extrema-direita enquanto incendiavam uma boneca com o rosto da filósofa Judith Butler do lado de fora do SESC Pompeia, um dos principais centros culturais de São Paulo, lugar que abrigou o Colóquio Internacional Os fins da democracia, na terça-feira (7).

Portavam crucifixos, Bíblias, cartazes pedindo o fim da “ideologia de gênero”, uma bandeira de Israel e camisetas pedindo uma intervenção militar no Brasil. Desde o impeachment de Dilma Rousseff, há pouco mais de um ano, o país experimenta uma interminável convulsão política marcada por forte polarização da população e pelo descrédito generalizado em relação às instituições democráticas. O país ainda converteu-se em um terreno fértil para a proliferação de um discurso populista de direita que se apresenta como liberal apesar de ter um caráter extremamente conservador nos costumes, impulsionado pela emergência de líderes evangélicos na política institucional.

A forte polarização estava materializada na entrada do SESC Pompeia. Além de representantes da extrema-direita, havia um grupo de tamanho similar que foi dar as boas-vindas à filósofa. Juntos, os dois grupos somavam uma centena de pessoas. Porém, a forte repercussão midiática e o barulho nas redes fez parecer que nada no Brasil era mais importante do que o acontecimento daquela manhã. Curiosamente, estavam colocados em lugares invertidos. Enquanto os progressistas estavam do lado direito da porta, os conservadores se situavam à esquerda. Os dois grupos filmavam e transmitiam ao vivo pelas redes sociais suas atuações.

“Enquanto houver famílias, conservadores que se posicionem contra a ideologia de gênero, lutaremos até o fim. Porque homem nasce homem e mulher nasce mulher. Em meu país, os comunistas não têm o que querem”, gritava, ao microfone, Douglas Garcia, do grupo Direita São Paulo, antes de entoar um “Fora Butler”, que foi acompanhado por seu grupo. Do outro lado, os progressistas responderam com um “Fora Temer”.

A manifestação foi o ato final de uma disputa política iniciada há cerca de dez dias com uma petição que reuniu cerca de 350 mil assinaturas exigindo o cancelamento do evento no SESC Pompeia. “Poucos simpósios realizados neste país sofreram tantas ameaças e pressão pelo cancelamento como o nosso”, comentou Vladimir Safatle, co-organizador do evento junto a Butler. Em seu discurso de abertura, o professor da Universidade de São Paulo acusou os grupos conservadores de contar com o apoio de estruturas internacionais para promover o boicote ao evento. “O site em que circulou a petição pelo cancelamento do evento com Judith Butler tem sua sede na Espanha e foi financiado por fontes não identificadas.”

Com a petição, Butler, que antes era conhecida somente por um círculo restrito de acadêmicos, feministas e pessoas LGBTQIA, ganhou fama súbita no Brasil e concedeu nos últimos dias entrevistas em todos os lugares. Por outro lado, sites veiculados aos grupos conservadores inundaram as redes sociais com notícias falsas relacionadas a Butler, rotulando a teórica estadunidense como a “criadora da ideologia de gênero”. Em uma montagem feita com um vídeo antigo que circulou nas redes antes de sua chegada, um menino era supostamente forçado a passar batom por uma professora que estaria atuando dessa forma influenciada pela “ideologia de gênero” promovida por Butler.

Na segunda-feira (6), Butler participou de um evento menos animado, no qual lançou a versão em português de seu livro Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo (Editora Boitempo). Em nenhum momento falou sobre gênero. Falava sobre a questão palestino-israelense quando foi interrompida subitamente por uma mulher que gritava: “Deixe nossos filhos em paz. Meninos são meninos e meninas são meninas.” A plateia riu nervosamente enquanto a mulher era retirada por seguranças.

A prova de fogo viria no dia seguinte no SESC Pompeia, aonde encontraria uma militância organizada e hostil a sua espera. Diante de um auditório cheio e silencioso, muito distinto do exterior com a batalha de gritos, Butler abriu o colóquio junto a Safatle e a argentina Natalia Brizuela, professora da Universidade de Berkeley (Califórnia).

“Gostaria muito de agradecer ao SESC Pompeia por não cancelar minha conferência”, disse sob aplausos de um auditório cheio, com 600 pessoas.

Enquanto a manifestação com ares medievais de queima às bruxas ocorria do lado de fora, Butler dissertava genericamente sobre as fragilidades da democracia nos tempos atuais. “Em diferentes partes do mundo, estamos nos perguntando que momento político é este, que século é este”, questionou. “Quando as pessoas são plurais e heterogêneas, isso significa que o pensamento deve dedicar-se a conhecer e encurtar as distâncias entre elas. É estranho que esses desejos, que podemos chamar democráticos, sejam considerados perigosos.”

Nos últimos meses, grupos de extrema-direita emergiram com força usando a bandeira da moralidade e da defesa dos valores familiares para censurar artistas e intelectuais. Criam assim cortinas de fumaça em um contexto no qual impera uma agenda neoliberal de retirada de direitos por parte de um governo que conta com a taxa de aprovação mais baixa do mundo. Apenas 3% dos brasileiros aprovam o presidente Michel Temer, que tem se livrado de ameaças de impeachment, apesar das constantes denúncias de corrupção. “A democracia é uma luta contínua para resistir às forças políticas que censuram nossas palavras, controlam nossa liberdade, condenam nossos afetos e nossas vidas e que reproduzem legados de violência e dominação”, disse Butler.

Vladimir Safatle falou em seguida a Butler. Coube-lhe fazer uma crítica mais aguda sobre o cenário que se armava fora. “Eles se voltaram contra uma atividade de debate como a nossa. Não se tratava de um protesto contra certas ideias, mas de uma suposta urgência pelo cancelamento do simpósio. Os que lutaram para nos impedir de falar não temerão dizer que falavam em nome do povo brasileiro. A lógica é afirmar que eles são o povo, com supostos valores saudáveis, seus hábitos trabalhadores, enquanto nós, especialmente intelectuais e artistas, seríamos a verdadeira elite ociosa que vive do dinheiro público, de bolsas de estudo de fundações privadas internacionais, propagando comportamentos viciosos. Enquanto isso ainda, eles se calam ante o sistema neoliberal de blindagem das elites financeiras, que drenam as riquezas do país e tomaram de assalto o poder político.”

O circo criado pelos grupos rivais do lado de fora atraiu mais a atenção da mídia do que o próprio colóquio em si. As fotos da boneca de Butler em chamas têm aparecido praticamente em todos os portais dos principais sites de notícias desde quarta-feira (8). Missão cumprida para os conservadores. Há dois anos, quando a filósofa veio pela primeira vez ao Brasil, a TFP (Tradição, Família e Propriedade), entidade que apoiou a ditadura militar brasileira, fez um protesto similar que foi praticamente ignorado pela imprensa.

Butler deixou São Paulo na sexta-feira (10). No aeroporto de Congonhas, foi objeto novamente de hostilidades. Uma mulher a perseguiu com um cartaz com as palavras “Fora Judith” e a insultou insistentemente. Outras pessoas saíram em defesa de Butler e acabaram sofrendo agressões físicas.

Sua despedida coincide com um momento de possibilidade de retirada de direitos das mulheres. Na semana passada, 18 parlamentares homens aprovaram em uma comissão especial, em Brasília, um projeto de lei que pretende alterar uma legislação existente desde 1940, postulando a ideia de que a vida existe desde a concepção. Em outras palavras, se o projeto for aprovado, o Brasil retrocederá e formará parte do seleto e nefasto grupo de países que proíbem o aborto, incluindo em casos de estupro.

Mulheres de ao menos 15 cidades brasileiras saíram às ruas esta segunda-feira (13) para tentar deter esse retrocesso.

Mariana Bastos

Soy, 17.11.2017

Tradução: Luiz Morando

Equipe de articulação do Resista!

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