Isto é o que a resistência parece

Nos últimos anos, Judith Butler tem se deslocado da órbita dos estudos de gênero para a dos estudos sobre a fragilidade da democracia e os efeitos dessa debilidade na população. Seus estudos sobre gênero datam dos anos 1990 até os primeiros anos da década de 2000. Há pelo menos dez anos que, sem se descurar das questões de gênero, ela passou a se dedicar mais detidamente aos estudos sobre filosofia politica e direitos humanos.

Este texto trata de uma conferência proferida por Judith Butler na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), em 15 de fevereiro de 2017. Ela estava motivada a discutir sobre algumas estruturas discursivas que marcaram (e ainda marcam) os pronunciamentos de Donald Trump durante sua campanha eleitoral nos Estados Unidos, em 2016. A partir disso, ela também desenvolveu um raciocínio sobre as ações de resistência em um contexto em que a democracia aparenta enfraquecimento.

A conferência proferida foi intitulada “This is what resistance looks like” (e está disponível no YouTube). O evento foi realizado por duas organizações acadêmicas: a Resistance against Violence through Education (RAVE) e o Institute on Inequality and Democracy at UCLA Luskin.

Este texto retoma algumas reflexões que Butler propôs em sua fala, a título de iluminar um pouco mais as ações do Resista! – Observatório de Resistências Plurais. Nesse sentido, vou transpor três aspectos da fala da filósofa para nossa reflexão.

 

  1. Face às administrações políticas conservadoras, autoritárias e ultraliberais, como a de Donald Trump, Judith Butler propõe que não basta apenas ser oposição (no sentido de dispor de uma estrutura política convencional, tradicional, traduzida pelos partidos de oposição – no caso estadunidense, o Partido Democrata). Ela defende que se tem que atuar com resistência, isto é, lutando pelas condições nas quais um partido de oposição ainda faz sentido, mas ampliando as ações para além do campo partidário, buscando interseções com grupos de defesa de direitos da sociedade civil. Butler afirma que há um grupo grande de pessoas descrentes com a politica na sociedade estadunidense. Ela considera que faz parte da resistência resgatar aquele grupo (que ela chama de ‘despolitizados’), reinvesti-lo na organização social, convencer seus integrantes (ou ao menos parte deles) de que mudanças só ocorrem com a participação coletiva e o usufruto coletivo desses ganhos.

 

  1. A resistência, para Judith Butler, se traduz por uma disposição constante de ‘estar chocado em ação’. Ela parte do princípio de que se o sujeito não se choca com o que acontece, ele estará sempre em dúvida se poderá agir. Nesse caso, a disposição para responder a uma ameaça, uma hostilidade, uma violência, está diretamente ligada a um estado de alerta despertado pela contínua manifestação de choque. O sujeito anestesiado, alheio aos acontecimentos, que se sente fora do alcance de medidas que retiram ou descumprem direitos garantidos, não tem mais essa predisposição ao choque, à reatividade. Butler então diz que o impulso para a resistência é sempre se sentir em choque e sempre buscar convencer os ‘despolitizados’ a se reinserirem nas lutas sociais.

 

  1. Judith Butler defende a desobediência civil como uma estratégia para a defesa da democracia. Ela recupera de Henry D. Thoreau, mas sobretudo de Hannah Arendt, esse tipo de ato nos momentos de crise em que há perda radical de confiança. Em lugar da inação, do ceticismo, da descrença total com a política, os atos de desobediência civil forçam o establishment a redesenhar o pacto de consentimento mútuo entre a classe política/seus aliados e o restante da sociedade civil. A ação que ela delineia aqui (e que está muito ligada ao item anterior) está dividida em três partes: descobrir as razões para a despolitização; redirecionar os interesses; ser persuasivo para trazer os despolitizados à arena social.

A título de curiosidade, vejam o texto do manifesto do Resistance against Violence through Education (RAVE):

“RAVE é um grupo docente dedicado a mobilizar o poder do conhecimento e desafiar através de análises críticas, a normalização da política, da linguagem e das ações da presidência de Trump. Nós nos comprometemos a assumir a responsabilidade, apoiar e defender vigorosamente todos os membros vulneráveis de nossas comunidades que foram alvo deliberado da eleição de Trump, e que agora são vítimas do ódio de Trump: pessoas em situação ilegal, vítimas de agressão sexual, pessoas negras, pessoas LGBTQIA, muçulmanos e outras minorias religiosas, imigrantes, deficientes e mulheres. Não vamos testemunhar em silêncio, mas lutaremos produzindo conhecimento e construindo alianças e coalizões em toda a Universidade da Califórnia.”

Agradeço ao prof. Marco Aurélio Prado pela indicação dessa conferência e ao Thiago Quites pela tradução simultânea.

Assinaturas-Luiz

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