A VIDA NORMAL OU A NORMALIZAÇÃO DA VIDA?

Há muito venho lendo e assistindo a vídeos nas mídias sociais sobre a vida da pessoa que vive com HIV ou com aids. Os relatos são diversos e perpassam as experiências com a sorologia positiva para o vírus. Tal diversidade respeita justamente a contextualidade apontada por Richard Parker e Herbert Daniel (1991) em textos tão atuais que serão lançados novamente pela Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA). A mesma contextualidade deve ser pensada quando lemos e falamos sobre as soropositividades, pois as suas vivências são também diversas e diferentes.

No entanto, uma das expressões mais recorrentes quando se fala de HIV ou de aids é justamente a de que a pessoa que vive com HIV leva uma vida normal. E é sobre esta pequena palavra que pretendo discorrer neste texto, pois seu tamanho não compreende a extensão do problema que ela pode criar e cria. O ideal de normalidade é tão perigoso que precisamos colocá-lo em suspeição quando falamos sobre uma epidemia que teve seu auge na década de 1980 e hoje retorna com números tão alarmantes. A ideia de que uma pessoa que vive com HIV leva uma vida normal começa a ganhar força após o início dos tratamentos antirretrovirais – também conhecidos como TARV –, que conseguiram bloquear a replicação do vírus e chegaram a tornar a carga viral indetectável e, atualmente, intransmissível. São os tratamentos que conhecemos hoje; junto com eles, a normalidade ganhou espaço.

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Southern gothic – Maggie Taylor. (Disponível para uso público)

Obviamente, a vida de uma pessoa que vive com HIV hoje é bastante diferente da vida nas décadas de 1980 e 1990, e é muito importante que pensemos nas contextualidades dessas vidas. Ainda hoje temos pessoas morrendo de complicações advindas da aids; pessoas que não conseguem acesso a métodos de prevenção; ausência de discussões sobre os recortes sociais que interferem diretamente no aumento do número de infecções, tais como classe, raça, sexualidades, gêneros, territorialidades e tantos outros tão importantes quanto; recentemente, como fruto do sucateamento do SUS, tivemos a falta de medicamentos e de exames para detecção do vírus em muitos locais do país por, pelo menos, três meses. E estou apontando apenas os fatores mais agravantes do processo escondido sob o manto de normalidade.

“Ah, mas a pessoa que toma o medicamento corretamente vive sim uma vida normal!” Vamos pensar um pouco… A partir do momento em que recebemos o diagnóstico reagente para HIV, uma lista de tarefas nos é atribuída. Entre elas, temos a necessidade de tomar o(s) medicamento(s) todos os dias e lidar com os efeitos colaterais. Estes podem ocorrer em maior ou menor grau e não é porque alguém não os experimenta que sua ocorrência seja passível de apagamento. Pílula na boca, camisinha na mão!? Somos obrigados/obrigadas a utilizar o preservativo em todas as relações sexuais. “Ah, mas isso é pra todo mundo…” Se fosse, os números de infecções não estariam aumentando. Além disso, não somos apenas seres do sexo. Transamos sim, mas nossas transas são tão diversificadas quanto o número de vezes que ocorrem e sabemos muito bem que não existe apenas uma forma de transar.

As normas de como viver nas soropositividades são diretivas e não possuem processos educativos para tal. Penso que nosso maior foco de ação está aí, no exercício da solidariedade já proposto e que compreende, dentre outras estratégias, contextualizar as soropositividades. São as normas – e a normalidade – que embaçam as inúmeras manifestações dos corpos nas soropositividades. Para além da camisinha e da pílula, temos a necessidade de repensar nossa alimentação; a prática de exercícios físicos se torna uma regra; precisamos lidar com as alterações constantes de humor; com o calor infernal que nos faz derreter em gotas de suor secadas pelo famoso “está tudo bem”; com o preconceito que ainda persiste e nos atinge diretamente; nossos relacionamentos afetivos e sexuais ainda são guiados pelo momento constrangedor do “preciso te falar uma coisa”; o fantasma da década de 1980 anda de um lado e a normalidade nos vigia de outro.

Head in clouds - Maggie Taylor
Head in clouds – Maggie Taylor. (Disponível para uso público)

Tornarmo-nos normais é escondermos a anormalidade imposta pelo estigma da aids que ainda nos consome para continuarmos a realizar nossa agência sob as normas que regem nossa sociedade. Engulamos a pílula, encapemos o pau (sabemos que os métodos de cuidado para as pessoas com vagina ainda são pouco discutidos, mas não menos importantes), entreguemos nossa sorologia de mão beijada e ainda encontremos forças para lidar com a vida que não para de exigir mais e mais de nós. E vivamos normais, normalizemo-nos já! Afinal de contas, falar sobre os efeitos colaterais de medicamentos, resistir ao estigma e ao preconceito que nos cortam diariamente, denunciar o sucateamento do SUS e relacionar-se com o cuidado que limita tornaram-se “mimimi”.

Não pretendo demonizar o medicamento, pelo contrário, o objetivo é pensarmos sobre a ideia de normalidade que acompanha a pílula garganta abaixo. Se a norma existe, ela está aí única e exclusivamente para ser transgredida e tornar-se apenas um limite que nos quer sob a máscara da pessoa soropositiva controlada por medicamentos e guiada por preconceitos escondidos sob o escudo da ignorância seletiva. As anormalidades soropositivas denunciam os preconceitos que ainda existem, a ineficácia de uma abordagem exclusivamente medicamentosa, a falácia de um corpo que engole um medicamento que algumas pessoas ainda teimam em chamar de pílula da vida. A vida normal está recheada de normas que nos tornam robôs do título de epidemia sob controle… de quem?

Assinaturas-vinicius

Mestre em Educação: Linguagens, Diversidade Cultural e Inovações Pedagógicas (UFLA, 2017); Multiplicador do Observatório Nacional pela Saúde Integral LGBT (NESP/UnB, 2016); Membro do Protagonismo LGBT de Minas Gerais (CELLOS-MG, 2016); Especializado em Gênero e Diversidade na Escola (UFLA, 2015); Graduado em Educação Física (UFSJ, 2010).

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