Carta aberta ao pastor-deputado estadual João Leite

No dia 21 de novembro foi formalizada a Frente Nacional contra a Censura em Belo Horizonte. Sua intenção central é estabelecer ações contra a repressão e censura às manifestações e expressões artísticas no território nacional.

No dia 22 de novembro, na tribuna da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o pastor-deputado estadual João Leite (PSDB) externou, entre outras opiniões, a de que a referida Frente é constituída por “pedófilos de todo o Brasil”. Em seguida, renovou seus ataques à exposição ArteMinas, que se manteve de 1° de setembro a 19 de novembro nas quatro galerias do Palácio das Artes, centrando-se sobretudo na exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina”, do artista Pedro Moraleida, que ele julgou promover a pedofilia, a zoofilia, o vilipêndio a símbolos religiosos e a ofensa à moral cristã e aos bons costumes.

No dia 23 de novembro, o mesmo pastor-deputado estadual subiu à tribuna para se desculpar com os “participantes da Frente que possam ter se sentido ofendidos”, mas afirmou que aquela exposição era “obscura e faz menção a povos primitivos”.

Face a esses recentes eventos e à série anterior de acontecimentos desencadeados pelo mesmo pastor-deputado estadual desde o final de setembro em reação àquela exposição, o Resista! – Observatório de Resistências Plurais vem a público fazer algumas contestações:

  1. Parlamentares que compõem, assumidamente ou não, bancadas religiosas nas casas legislativas perderam (caso ainda a tivessem) totalmente a capacidade de discernir púlpito e tribuna;
  2. ficou suficientemente comprovado não existir cenas de pedofilia ou zoofilia nas peças reunidas na exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina”. Quanto aos supostos vilipêndio a símbolos religiosos e ofensa à moral cristã e aos bons costumes, depende da perspectiva adotada. Graduado em História e com presumida visão filosófica, o pastor-deputado tem condição suficiente para duvidar dessa acusação. No entanto, ele prefere lançar mão da couraça religiosa e da má-fé para repetir alguns ditos esvaziados de sentido;
  3. por não discernir púlpito de tribuna (talvez por receber votos como se fossem dízimos), o pastor-deputado evoca a defesa moral dos cidadãos pautada unicamente pela sua religião pentecostal, sem dar a necessária relevância às falhas morais e venais encarnadas nela por seus representantes: comércio de produtos supostamente milagrosos aos fiéis, como alardeado em diversas mídias; luta aberta contra a laicidade do espaço público, preconizado na Constituição; assédio moral de pastores a fiéis; pedofilia praticada por pastores, como também denunciado em diversas mídias;
  4. siderado pela associação, nada obscura, entre o pânico moral, raciocínios difusos e sofismáticos e a repetição redundante e intransigente de normas ultraconservadoras, o pastor-deputado comete falha imprópria aos cristãos: aponta na seara do outro aquilo que não consegue sofrear na própria seara.

 

Não há problema em professar uma religião. O problema – e a História já apontou isso diversas vezes – é impor a régua moral das normas religiosas para pautar a vida humana em uma era em que a religião não é mais determinante. Uma desejada recentralização religiosa não apenas nos conduzirá a dez séculos atrás, como também elidirá conquistas de direitos civis, sociais e humanos já tornados centrais nas sociedades ocidentais.

Tratar cidadãos como fiéis é manter propositalmente a confusão entre púlpito e tribuna. Rejeitamos definitivamente esse tratamento.

Assinaturas-Luiz

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