“Lésbica não é um palavrão.”

Têtu foi à I Conferência Lésbica* Europeia (EL*C)

Um tsunami de mais de 500 lésbicas invadiu uma antiga fábrica de pães de um quarteirão meio-popular, meio-artístico de Viena, no início de outubro. Reflexão sobre a Conferência Lésbica* Europeia.

Elas se chamam Mariella, Silvia, Biljana, Mihaela, Maria, Luise, Olena, Alice, Leila, Michaela, Ewa, Anastasia, Aurora, Pia, Maren, Ilaria, Dovile, Maren, Katrin, Rhonda, Elisabeth, Lepa, Eva, Lonneke, Giovanna, Ulrike, Renate, Isabelle, Phyll, Faika, Camila, Attilia, Angelika, Hilary, Susan, Natasa, Natalia, Nina, Karin, Kika, Marta, Bess, Ketsia, Christine, Laura, Flora, Vesna, Danica, Gabriele, Daniela, Joyce, Alice, Joëlle, Mima, Vera, Patricia, Marie-Liis, Hazalimu, Elise, Maia, Magdalena, Joanna, Barbara, Andrea, Martha, Marion, Chris, Bella, Tara, Sarah, Annette, Diana, Mariam,
Happy Mwende, Hengameh, Linda, Karin, Irene, Tatiana, Miriam, Claudia, Katharina, Alisa, Agnes, Zhanar, Regina, Joana, Corinne, Antu, Zoya, Mercy, Flora, Yarden, Masha, Faina, Naomi, Ece, Alast, Durga, Jennifer, Raila, Julianna, Seçin, Aylime, Bess, Enrica, Derya, Irene, Kseniya, Dodo, Francis, Finn, Chris, Luan, Anna, Lin, Stefanie, Evgenia, Terry, Karima, Gabi, Ceren, Nina, Léa….

Elas vieram da Sérvia, Suíça, Alemanha, Rússia, Macedônia, França, Polônia, Canadá, Nova Zelândia, Turquia ou ainda Cazaquistão. A aceitação da Europa é ampla: o que as reúne aqui tem pouco a ver com sua nacionalidade, a não ser quando se trata de situações de cada uma em seus respectivos países: repressão, discriminações, lesbofobia, invisibilidade, igualdade de direitos, acesso à procriação medicamente assistida (PMA)[i], modos de ação ou ativismos. Em um contexto de nacionalismos crescente na Europa, muito presente nos espíritos, compreende-se que nessa Conferência Lésbica* Europeia (EL*C), realizada de 5 a 8 de outubro de 2017, haverá pouco interesse sobre qualquer “identidade nacional”: “Não somos contra as nacionalidades… Estou vindo de Lésbia-land!”, ironiza Biljana Ginova, uma das organizadoras da conferência, ativista lésbica na Macedônia, onde ela fundou a associação LezFem.

É um tsunami de lésbicas”, comenta com graça uma participante, durante a primeira plenária consagrada à história do movimento lésbico na Europa. Um tsunami de mais de 500 lésbicas reunidas na BrotFabrik, uma antiga fábrica de pães – a Favoriten – de um quarteirão meio-popular, meio-artístico da capital austríaca. Uma conferência com palavras de ordem – AGIR, TRANSFORMAR, REFLETIR, CONECTAR – que dizem sobre os temas e as divisões das sessões plenárias e das oficinas que dão o ritmo dos dois dias da conferência. E ainda outras palavras que escutamos muito nas oficinas-discussão sobre pegação lésbica, nos jantares veganos nos mercados lésbicos das ruas de Viena: invisibilidade, safe space, transmissão e inclusão. É desse ponto que partiremos para relatar sobre esses dias que colocaram novas pedras no edifício do movimento lésbico europeu.

Invisibilidade: “Lésbica não é um palavrão”

Eu pensava que fosse a única”, declara Vera Kurtic, que se apresenta como “feminista radical e lésbica. Natural da Sérvia, é autora de Džuvljarke, uma notável obra sobre a invisibilidade das lésbicas ciganas. “Foi encontrando outras lésbicas que pude (me) dizer: eu sou lésbica”. O que muda o fato de haver uma primeira-ministra abertamente lésbica – Ana Brnabic – em seu país? Para ela, não muita coisa: “Não a considero uma aliada, politicamente dizendo, mas também ela não se diz ‘lésbica’, mas ‘gay’. Então, claro, há uma voz em mim que me diz “isso é muito difícil de dizer”, mas ainda assim, isso me decepciona”. E acrescenta: “Ela não é militante por nenhum direito das minorias, não se importa com os mais precarizados, os operários das fábricas que ela quer fechar… Para mim – ela faz uma pausa, como se nos preparasse para uma pequena provocação – isso resume tudo: ela é ‘gay’, e eu sou ‘lésbica’”. Mas por que a palavra ‘lésbica’ parece ser impronunciável? A ativista cigana não tem uma resposta universal: “As mulheres têm medo de serem discriminadas, de que isso seja ‘ofensivo’ para elas, para os outros. E para as lésbicas ciganas, invisíveis entre os invisíveis, a palavra simplesmente não vem à boca. As mulheres utilizam o pronome ‘isso’. O que isso significa é que ‘isso’ não existe. ‘Isso’ não nos permite nos constituirmos enquanto sujeito social e político, ou mesmo reivindicar nossos direitos.”

Ao sabor das discussões e dos cartazes vistos na “caminhada das lésbicas” de sábado, tal como o slogan “lésbica não é um palavrão”, a importância de nomear e da terminologia se faz atual. Torna-se mesmo crucial dizer ‘lésbica’, essa palavra que parecer soar como insulto para muitos. Pensa-se então, apesar de nós mesmos, nessa façanha do primeiro-ministro francês, Edouard Philipe, em L’émission politique, de nunca pronunciar a palavra ‘lésbica’ enquanto era questionado sobre a abertura da PMA a casais de lésbicas e a mulheres solteiras, preferindo a expressão “casais femininos”…

Os relatos se sucedem e se assemelham, pouco importa a nacionalidade da entrevistada: nada ou muito pouco de mulheres artistas, empresárias, políticas, personalidades públicas, abertamente lésbicas, que possam ser nomeadas. Uma entre elas, uma das raras políticas fora do armário, respondeu entretanto que ela está aqui como na própria casa. Ulrike Lunacek foi candidata pelo Partido Verde austríaco nas eleições legislativas. Antes de seu discurso na cerimônia de abertura na quinta-feira à noite, ela nos concedeu alguns minutos, com um francês perfeito: Quando estudava no colégio, há 40 anos, a palavra ‘lésbica’ não existia. Eu a desconhecia. Quando saí do armário, há 25 anos, ninguém usava esse termo – antes de acrescentar, com um sorriso –, oficialmente…” Para ela, “essa conferência é essencial, pois ainda nos faltam direitos e os movimentos nacionalistas e fundamentalistas renascem em todas as partes do mundo, nos dizendo ‘não queremos que vocês se tornem visíveis, que tenham filhos, que se casem’. É ainda mais importante ter um espaço como este, de visibilidade para se organizar politicamente, mas também para celebrar nossas existências”. Encontrar-se para se organizar, segundo Ulrike Lunacek, “para que as lésbicas saibam constituir redes, como os homens, gays ou heteros.” Essa importância de “nomear”, manifestada por grande número de participantes e palestrantes está no cerne do projeto – e do nome – da conferência: “Conferência Lésbica* Europeia”. Lésbica, com um asterisco.

As organizadoras se explicaram em sua mensagem de boas-vindas: “A propósito do termo ‘lésbica’: nossa finalidade é organizar uma conferência inclusiva. Insistimos em chamar uma conferência lésbica, embora reconheçamos que, como toda categoria ou rótulo, possa ser contestado ou insuficiente para descrever a diversidade de nossas comunidades […] entretanto, utilizar a palavra ‘lésbica’ faz parte de nossa luta em matéria de visibilidade, de empoderamento e de representação. Portanto, utilizamos ‘lésbica’ com asterisco no título Conferência Lésbica* Europeia a fim de incluir qualquer uma que se identifique como lésbica, feminista, bissexual ou queer, e todas aquelas e aqueles que se sintam conectadas/os com o ativismo lésbico”. Esse rótulo convida ao debate entre as participantes, a exemplo de Ece, palestrante da oficina “Dyke it yourself”, sobre o ativismo lésbico, que se define como “gênero fluido” (não-binária, diríamos em francês), não se identifica tão facilmente com essa “categoria”, mas reconhece porém que “a palavra ‘lésbica’ é política e a linguagem é do poder, isso determina quem está incluído e quem não está. As lésbicas devem ser incluídas e potencializadas.” Razão pela qual “lésbica” está representada no nome do coletivo que Ece e outras fundaram na Turquia, embora ele não represente todo mundo.

A palavra é política, pois se as lésbicas “estão em todos os combates”, disse Alice Coffin, co-organizadora da conferência e vice-presidente da Associação (francesa) de Jornalistas LGBT (AJL), “elas ainda permanecem frequentemente invisíveis”. “Mesmo no meio dos movimentos LGBT, os homens gays têm tendência a ocupar todo o espaço e o tempo de palavra”, declara uma jovem mulher durante a oficina. Essa visibilidade serve para mostrar que lésbicas existem, de um lado, e para visibilisar suas reivindicações próprias, por outro.

“Lesbianizar as mídias”

Se há visibilidade midiática, por exemplo, como as lésbicas são representadas? Spoiler: mal, como aprendemos na oficina “Lesbianize a mídia”, por meio de lugares comuns, como esses coletados pela AJL em seu kit “Para acabar com a invisibilidade das lésbicas”, para um tratamento midiático mais justo das questões LGBT. Para citar apenas alguns exemplos, a perífrase utilizada ad nauseam “mulher que prefere mulheres” ou a habitual negação do sexo lésbico, pois, como cada uma/um sabe, o sexo sem pênis não é verdadeiramente sexo.

Lugares comuns impregnados de ignorância e lesbofobia, e pouco de diversidade. Tara Chanady, doutoranda na Universidade de Montréal, apresenta em sua exposição as diferentes representações das lésbicas na ficção americana: da icônica The L word, primeira série a fazer de um grupo de lésbicas, de seus amores e seus dissabores, as personagens principais, até Orange is the new black, cuja trama se situa em uma prisão para mulheres, ou ainda a mais recente Transparent, passando por Buffy, a caça-vampiros, série mítica para qualquer um/uma nascido/a nos anos 90, em que uma das protagonistas, Willow, melhor amiga de nossa caçadora preferida, sai do armário e começa um idílio com Tara sobre um fundo de bruxaria… Mas aí também falta diversidade às representações, em geral sustentadas por mulheres muito heteronormativas, o que exclui as lésbicas consideradas “sapatão”. E o cutelo cai, essa evidência indescritível para algumas de nós, mas que nos queimava os lábios há 10 anos: “Shane [personagem de The L word] não é ‘sapatão’”. A sentença corta o ar e o espanto precede a hilaridade geral: Shane é sexy sim, Shane é “masculina” (ainda que), bem, digamos que Shane não é “girly”, mas se ela é representada como a menos ‘heteronormativa’ no espectro dos corpos lésbicos, então The L word marca um ponto. Foi preciso esperar, por exemplo, o personagem Big boo, interpretado por Lea Delaria em Orange is the new black, cujo antebraço ostenta um magnífico “sapatão” tatuado.

A demonstração de Tara Chanady é límpida: as condições de produção da visibilidade lésbica nas mídias mainstream permanecem confinadas – com raras exceções – a estereótipos muito conformados ao gênero, sem nenhuma ou pouca transgressão de gênero: as lésbicas são em sua maioria femininas. Tomboy e sapatão são raras.

Aliás, nenhuma dessas lésbicas é ativista ou evoca uma identidade lésbica política, o que é surpreendente em vista do envolvimento de lésbicas nos movimentos LGBT e feministas desde… sempre. À exceção – sempre há uma – da personagem de Ali Pfefferman, interpretada pela atriz Gaby Hoffmann em Transparent, que, enquanto descobre sua sexualidade, a politiza também: ela se torna feminista, muda sua aparência, se desloca para um “campo lésbico”, se interroga sobre a maneira pela qual essa orientação sexual com a qual se familiariza é uma “perspectiva” que redefine totalmente sua relação com o mundo, com os outros, seu corpo, sua história.

Se, apesar dessas exceções, as representações se esforçam por criar verdadeiras identificações para as lésbicas em toda sua diversidade, a conclusão de Tara Chanady é, contudo, nuançada. Ao explorar fóruns de telespectadoras, ela lê que um número de jovens mulheres saudara e saúda ainda a presença de lésbicas, mesmo estereotipadas ou pouco representativas, nas mídias… Elas são potencialmente modelos, elas dizem, em substância para adolescentes, por vezes isoladas, distantes das grandes cidades. “É possível, isso existe. Você existe.”

Resta o formidável testemunho de Mima Simic, ativista LGBT+ e escritora da Croácia – onde o casamento para casais do mesmo sexo foi rejeitado em um referendo –, que simplesmente se impôs nas mídias, sobretudo naquelas onde não se esperava. Em uma entrevista para um jornal da direita conservadora, em uma manchete da revista (muito) feminina croata Gloria com sua companheira na ocasião de seu (falso) casamento em Las Vegas ou participando do programa Quem quer ser um milionário? e explicando, ao vivo, na noite de Páscoa e com um pico de audiência, que ela não tinha podido dizer, no formulário de participação, que era casada com uma mulher. Suas aparições fizeram dela uma celebridade local e sobretudo uma personalidade inspiradora. Sua companheira e ela tornaram-se mesmo “personalidades do ano” da revista Gloria. Alguém poderia retrucar que isso parece bem superficial, mas para Mima Simic a visibilidade adquirida com essa audiência é pouco ou nada para o movimento, mas é algo político. Essa conquista de mídias populares ou “não aliadas” é sua definição do ativismo, “muita sedução e humor”. Uma maneira também de produzir, enquanto lésbica, suas próprias representações, sua visibilidade e as condições de produção disso.

Uma conferência para si: um encontro específico para lésbicas

Mas para poder partir para a conquista das mídias, ganhar a batalha da igualdade de direitos ou acabar com as discriminações, é necessário confiança em si, não se sentir sozinha e se organizar em um ambiente “seguro”. A mesma observação retorna frequentemente: “Sei que não posso ser eu aqui, podemos falar de nós, sem o olhar dos homens, de heteros que fantasiam conosco ou de gays que nos detestam”, declara ainda Naomi, participante vinda da Inglaterra. Exprimir-se livremente, divertir-se, seduzir, transar… e experimentar, como no Lesbian Cruising [Pegação lésbica], um espaço de encontro lésbico no estacionamento da conferência organizado na sexta-feira à noite por um coletivo berlinense, o KLITTERS. Com direito a um “esqueça o amanhã, história para torná-lo lésbico” subentendido em relação aos gays, como escreveu uma das participantes, anonimamente, em um dos cartazes dirigidos às mulheres – “O que é uma lésbica ‘pegável’ para você?” – afixados no local antes da reunião.

Em um registro mais explicitamente político, “organizar-se para quê?”. Quais são as necessidades específicas das lésbicas? A pergunta pode chocar, mas foi assim que ela foi formulada para os primeiros doadores que as organizadoras da Conferência encontraram, há quase um ano. Silvia Casalino, engenheira espacial de formação e vice-presidente da EL*C, conta: “O projeto nasceu em Nicósia [capital de Chipre], no encontro da ILGA, em outubro passado, e nos demos dez meses para nos organizarmos e oferecermos um painel decente a cada encontro. Mas para isso, era preciso arrecadar dinheiro.” E isso não é uma questão banal. Os números falam por si: de 424 milhões de dólares dispensados em 2013-2014 no mundo, para projetos LGBT, apenas 2% são destinados especificamente às mulheres LBQ (lésbicas, bissexuais, queers). Silvia Casalino se lembra: “O que todos os doadores nos diziam no começo era: ‘Mas, de fato, quais são as especificidades das lésbicas?’ A resposta está contida na pergunta. É o próprio cerne do sujeito: Como conhecer nossas necessidades específicas quando nem estatísticas, nem entrevistas, nem dados sobre lésbicas nunca foram recolhidos? As únicas coisas que os doadores conheciam eram os estupros corretivos na África do Sul.”

Assim, elas começaram a fazer pressão sobre uma série de entidades, a começar pelas associações nacionais LGBTQIA, para encontrar esse dinheiro, aproximar-se das lésbicas e enfim falar sobre “o que é ser lésbica, falar de nossas especificidades, de nossas necessidades, de não apenas dar visibilidade mas também visibilizar nossas vivências, que pudéssemos nos perguntar: ‘quais são os meus direitos?’, por que eu me canso de gritar?, por que quando quero falar de mim, de meus problemas, isso não interessa a ninguém?” Para Silvia Casalino, aí está um dos objetivos da conferência: “A visibilidade dessas problemáticas específicas, que são interseccionais, já que elas provêm do fato de que somos mulheres, mulheres homossexuais, portanto fora de uma norma homem-mulher hetero, de forma que por vezes somos racializadas, por vezes trans… e tudo isso se acumula” e forma uma soma de discriminações. No fim das contas, as organizadoras conseguiram reunir pouco mais de 100.000 euros, cuja metade foi utilizada para patrocinar as viagens mais precárias, o que quer dizer, aquelas que vinham de mais longe, da Ásia central, por exemplo, mas também daquelas que vivem em países ditos ricos mas que são economicamente frágeis. Quanto à outra metade, foi destinada à logística.

Mas para obter esse dinheiro, foi necessário convergir alguns pontos na agenda, como, por exemplo, absolutamente autorizar os homens. Silvia Casalino se surpreende: “Para obter um mínimo centavo, foi preciso jurar que aceitaríamos os homens. Deveríamos fazer essa pergunta a todos os grupos? Todos os grupos são convidados a jurar lealdade a todos os gêneros?” Aí também a pergunta parece retórica. Se as próprias associações LGBTQIA não fazem das questões lésbicas uma prioridade, então é preciso encontrar outra perspectiva: “As lésbicas ricas, isso existe! Cabe a nós encontrá-las”, declara uma das palestrantes da sessão plenária consagrada aos financiamentos, no sábado de manhã. Quem pode ser o Pierre Bergé[ii] das lésbicas?

Acessibilidade e inclusão: “Quem não está sentado/a na sala?”

Outra questão crucial foi colocada durante a última discussão coletiva, no sábado, no final da tarde: “Quem não está sentado/a nesta sala?”, ou seja, “Quem não está representado/a?”. Happy Mwendé Kinyly é a primeira a falar sobre o tema. Lésbica e negra, ele se inquieta com a sub-representação de lésbicas* racializadas na conferência. Uma observação que se repete no magnífico discurso pronunciado por Phyll Opoku-Gyimah, diretora da UK Black Pride, na cerimônia de abertura: “Enquanto mulher negra abertamente queer, devo dizer uma coisa: que minha libertação está ligada à de vocês, e que a libertação de vocês está ligada à minha”. A emancipação das lésbicas estará ou não incluída aí.

O lugar da conferência foi assim questionado: Viena é um destino caro, forçosamente não acessível, às mulheres* migrantes, por exemplo, ou às lésbicas de certos países (duas mulheres africanas tiveram seus passaportes recolhidos). A hegemonia da língua inglesa foi também questionada: toda lésbica, pouco importa sua classe, pode ou sabe compreender e se exprimir em inglês? E quanto às lésbicas surdas? Evidentemente as questões foram levadas em consideração pelas organizadoras, que esperam que o “conjunto”, muito branco (elas o reconhecem), seja renovado e que as próximas organizadoras tenham mais tempo para refletir e se organizar. Elas esperam a realização de uma nova conferência dentro de dois anos. Por que não em um ano? “Porque senão morreremos”, brinca Silvia Casalino, extenuada pelos dois meses de pressão e esses quatro dias inacreditavelmente intensos. E o que ela própria guarda para si dessa conferência?

Fiquei impressionada com as nossas trocas. Conversando com as ativistas turcas sobre todas as suas ações formidáveis, mas também sobre as dificuldades com que são confrontadas no dia a dia, eu também percebi que ‘viemos de lá’. É triste também esse sentimento de repetição. Mas é importante ter consciência disso. Enfim, o fato de todas nós nos encontrarmos, aqui, fisicamente, conviver partilhando nossas realidades de mulheres lésbicas, é, acredito, para certas mulheres, o equivalente a passar dois anos navegando na internet para saber o que é ‘ser lésbica’”.

Conhecer, se conhecer, constituir redes, mas também saber “de onde viemos”. Impossível, aí também, não pensar na situação francesa na qual avaliamos a amplitude do atraso em matéria de guarda da memória LGBTI, mesmo que os debates sejam retomados e que Paris tenha recentemente se comprometido a abrir um centro de memória LGBTQIA em 2020. Lonneke van den Hoonaard dirige um centro de memória de lésbicas em Amsterdam, pois há quatro centros LGBT nos Países Baixos, e alerta: “Quando não documentamos nosso passado, quando não guardamos os documentos que comprovam de onde viemos, do tempo em que a homossexualidade era um tabu, principalmente o que somos hoje, do tempo em que fomos conscientemente subtraídos/as dos livros de História, se não guardamos tudo isso, não existimos. Sem saber de onde viemos, nossa identidade fica amputada. É um processo que não para nunca: é preciso conservar, coletar o material, guardá-lo longe da umidade, as flâmulas, os folhetos, as gravações, tudo. É um trabalho enorme, que demanda muito dinheiro e tempo. Mas é um trabalho essencial. Muitas vezes, mesmo que, nos Países Baixos, a situação seja muito diferente daquela que conhecemos na França, temos necessidade de patrocínio, pois não há manifestação explícita de vontade política, seja por ignorância ou falta de interesse”. Por enquanto, sem lugares adequados e sem iniciativas individuais, ela conclui, “as lésbicas morrem e nossa história desaparece”. Para bom entendedor…

 

 

Reportagem de Clémence Allezard, publicada na revista francesa Têtu em 26 de outubro de 2017.

Tradução: Luiz Morando

[i] Programa do governo francês que oferece auxílio às mulheres (independente de se saber a orientação sexual delas) que queiram ter filhos por meio de processos considerados não naturais.
[ii] Pierre Berger (1930-2017) foi um empresário francês, cofundador e sócio Yves Saint Laurent, além de companheiro desse estilista.

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