40 anos de exclusão aos LGBTQIA no Canadá

Justin Trudeau, em lágrimas, pediu desculpas ao Canadá pelas pessoas LGBTQIA discriminadas. Ele se disse “mergulhado em vergonha e tristeza” em seu discurso de desculpas governamentais aos funcionários e ex-funcionários LGBTQIA perseguidos.

Uma cerimônia histórica

“Jamais permitiremos que isso se repita”: o primeiro-ministro reconheceu que o Canadá, “país vanguardista e progressista”, não foi um porto seguro. Justin Trudeau fez um discurso emocionante na Câmara dos Comuns de Ottawa nessa terça-feira, 28 de novembro: “Nós erramos e pedimos perdão”, disse com lágrimas nos olhos a algumas pessoas LGBTQIA vítimas do Expurgo Gay[i], que viu várias/os lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros licenciados ou afastados das Forças Armadas ou do serviço público devido à “segurança nacional”.

145 milhões de dólares serão desbloqueados para indenizar 3.000 vítimas. Uma parte do dinheiro servirá para construir um memorial na capital, Ottawa, em memória das carreiras – e, por vezes, das vidas – destruídas de pessoas LGBTQIA pelo Estado.

Embora todos os partidos de oposição tivessem apoiado a declaração de Justin Trudeau, duas dezenas de deputados conservadores se recusaram a assistir à cerimônia.

Expurgo sistemático

Mary Lou e Emma são canadenses. Elas se conheceram em 1986 quando foram incorporadas às Forças Armadas em Kingston. Elas são as duas únicas mulheres de sua classe cujos superiores lhes atribuíram um quarto em comum. De amigas, as duas se tornaram namoradas. Porém, uma noite, alguém as surpreendeu, deixando-as em pânico. A homossexualidade tornou-se legal, no Canadá, em 1969, graças a Pierre Trudeau[ii], mas as Forças Armadas permanecem uma zona de não-direitos.

Elas deixaram seu posto sem permissão por duas vezes. Na volta, informaram seu desejo de dar baixa, mas foram enviadas a uma prisão militar em Edmonton. Lá, esfregaram em seus narizes os bilhetes que elas trocaram na solitária (“Tenha bons sonhos. Eu te amo um pouco mais a cada dia.”) e interrogaram-nas sobre suas práticas sexuais. Após essas humilhações, elas foram soltas. A história de Mary Lou e Emma, relatada pelo The Globe and Mail, é um exemplo do expurgo sistemático a que foram condenados/as lésbicas e gays das Forças Armadas canadenses, dos serviços de polícia e de informação, e até mesmo da função pública federal. Alguns/mas foram informados/as que sua carreira ficaria em ponto morto; outros/as, como Mary Lou e Emma, foram sendo cozinhadas em banho-maria durante várias horas por interrogadores experientes. Muitos/as ficaram confinados/as na mentira para conservar sua carreira.

“Não repetir esses erros”

A CBS estima que entre os anos 1950-1990, vários milhares de soldados e funcionários/as públicos/as foram pura e simplesmente afastados/as em razão de sua orientação sexual. Naquela ocasião, o governo se escudava em uma questão de “segurança nacional”: em tempos de Guerra Fria, os homossexuais poderiam sucumbir à chantagem de comunistas e serem utilizados para vender segredos ao Exército vermelho. Em sua paranoia, o governo canadense desenvolveu um detector: o teste da “máquina caça-níqueis” (“Fruit machine”, em inglês) submetia as pessoas a um desfile de imagens eróticas ao mesmo tempo em que filmava suas pupilas – se elas dilatassem diante da imagem de relação sexual entre pessoas do mesmo sexo, o indivíduo era classificado homossexual. Durante os anos 1960, a Polícia Montada Real do Canadá fichou 9.000 gays e lésbicas por meio desse procedimento. Apenas em 1992 foi suspensa a interdição para homossexuais servirem às Forças Armadas canadenses. Em 1996, o Canadá incluiu a orientação sexual em sua lei sobre os direitos humanos.

“É importante se desculpar dessas coisas passadas para se estar seguro de compreender, conhecer, partilhar e não repetir esses erros”, havia declarado Justin Trudeau em uma entrevista coletiva na segunda-feira, 27 de novembro. O primeiro-ministro canadense fortalece uma técnica da qual ele já está escaldado em seu território. Em 2016, ele mesmo havia acordado o perdão póstumo a Everett Klippert, condenado a prisão perpétua em 1967 porque se deitava com outros homens. Mais cedo, naquele ano, o prefeito de Montréal reconheceu a violência continuadamente homofóbica de policiais até o início dos anos 1990.

 

Reportagem de Julie Baret, publicada na revista francesa Têtu em 29 de novembro de 2017.

Tradução: Luiz Morando

[i] Entre 1950 e 1992, vários funcionários públicos federais, membros das Forças armadas e da Polícia Montada canadense foram afastados de suas funções por serem identificados como pertencentes ao segmento LGBTQIA. Essa ação do governo canadense ficou conhecida como Expurgo Gay.
[ii] Pai do atual primeiro-ministro, Pierre Trudeau também foi primeiro-ministro por dois mandatos (1968-1979 e 1980-1984). Ele ficou célebre, em 1967, quando estava ministro da Justiça e promoveu a descriminalização das relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Na ocasião, ele pronunciou a seguinte frase: “Não há espaço para o Estado nos quartos de dormir da nação.”.

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