Sair do armário: Um processo

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A expressão se tornou popular. Hoje, várias pessoas, grupos e movimentos “saem do armário” na linguagem corrente, independentemente de orientação sexual ou de identidade de gênero. Há quem mesmo diga que a direita religiosa, fundamentalista, ortodoxa e militarista no Brasil “saiu do armário” nos últimos anos. Nesse caso, ou é ironia ou um contrassenso, pois essa direita não é outra coisa que não o próprio armário. Se a popularização da expressão pode ser vista como algo positivo (como a abertura do “mundinho” LGBTQIA e seu diálogo com outras realidades culturais), ela traz consigo uma simplificação, talvez até mesmo um esvaziamento das dimensões que nela estão implicadas. Afinal, menos que um simples falar para as pessoas, o que está em jogo é todo um processo, vivido por cada pessoa, de aprendizado sobre si, sobre os modos de se inserir e apresentar nas relações familiares, de trabalho, afetivas, sexuais etc. Em certo sentido e para muita gente (se não para todxs nós), sair do armário é um processo que pode durar a vida toda!

A visão mais simples do “sair do armário” o reduz a um gesto eminentemente declaratório. Seria basicamente dizer para as pessoas (família, amigos, colegas etc.) que se é gay, lésbica, trans, bi, por exemplo. Basta então declarar-se aos outros para que se saia do armário. Seria ótimo se fosse só isso. Até que alguém chegue ao ponto, se sinta forte o suficiente, para declarar-se gay, lésbica, bi ou trans, há todo um processo de reconhecimento de si, de negociação com expectativas, valores e imagens sociais, com ideais e padrões de normalidade, feito no ritmo das experiências, das relações, possibilidades e condições sociais de cada umx. E tá: vivi isso, saí do armário para, sei lá, meus melhores amigos… E o que acontece no dia seguinte? Se a resposta dos amigos tiver sido positiva, ótimo; se não, mais dor. E…? Os mesmos processos de reconhecimento de si, de negociação com valores e imagens sociais, com ideais e padrões de normalidade etc., etc… continuam e nem sempre de modo menos angustiante.

Um sinônimo para “sair do armário” é “assumir”, que no geral é usado de dois modos: transitivo ou reflexivo. Elx “assume” algo ou “se assume”. Nos dois casos, há um “algo” no assumir(-se), que pode ser o desejo ou as práticas afetivo-sexuais, por exemplo, mas que ao fim e ao cabo levam sempre a uma ideia de identidade. Eu “me” assumir significa reconhecer quem eu sou e qual é o meu lugar no mundo. Uma moça se assume “lésbica” quando, na visão mais simples, ela declara sua identidade para o mundo. Tá. Mas não existem diferentes modos de amar, de viver seu corpo, de construções de desejo e de práticas e relações afetivo-sexuais? E “reconhecer-se” em meio a esse emaranhado, para que eu possa me assumir, não depende só de mim. A gente aprende a amar e os modos como lidamos com nossos afetos; a gente certamente aprende a transar ou pelo menos passamos a vida tentando () e nem tudo que é legal num momento vai ser “sempre assim”. Tudo isso não é só algo íntimo e solitário. Envolve as pessoas, as oportunidades, as experiências que se oferecem concretamente a cada umx. E envolve sonhos e projetos, que são fundamentais para que a vida tenha sentido.

Tudo isso deixa mais complicada e individualizada a própria ideia de identidade. Afinal, a pergunta que não quer calar é “o que é ser” gay, lésbica, bi, trans, para ficarmos nos exemplos já citados. São identidades sociais, claro, cada uma com suas histórias, mas elas estão inscritas no corpo e na experiência de cada umx. Talvez existam tantas maneiras de ser gay (ou hetero) quanto o número de pessoas que se identificam como tal. Dizer-se trans, nesse raciocínio, é um passo importante, mas não faz calar a pergunta “que homem”, “que mulher”, “que pessoa não-binária” eu sou. Aliás, perguntamos “quem sou eu?” a vida toda, não? E as respostas que ofertamos têm algo de provisório, de circunstancial, pois as revemos sempre que necessário, pois revisamos nossos sonhos e expectativas, pois vivemos novas experiências, porque, enfim, a vida, a fila, o bonde andam! E convenhamos, dizer-se gay, lésbica, bi e trans, se é algo muito importante, não está desconectado das outras identidades que temos (ou que desejamos) e, nesse sentido, em vários momentos diz muito pouco sobre nós. Sou bicha… e? Ativo, passivo, flex, romântico, afeminado, barbie, pão-com-ovo, phyna, disponível, monogâmico, chato, legal, besta, bom caráter, má, e/ou…?

As palavras definitivamente importam nesses processos. Para muitas pessoas que viveram sua “saída de armário” na década de 70 foi importante se verem (e serem vistos e verem xs outrxs) como entendidxs. Para muitxs, ser “gay” ou “lésbica” nos anos 80 foi uma conquista, uma vez que se afastava da imagem da bicha em busca de um bofe, de uma sapatão em busca de uma sandalinha. Hoje, muitxs já preferem “bicha” ou “viado” a gay; sapa ou sapatona a “lésbica” (contra a normalização ou heterificação dos modos de ser… homo?). Conquistar o direito a ser trans passou pela construção do termo, como é historicamente importante o surgimento e a popularização de expressões como “homofobia”, “transfobia”, “lesbofobia” (mais complexos e apropriados que o até então onipresente “preconceito’) e o abandono da loucura do -ismo na substantivação da homossexualidade. Imagens também importam. E nesse aspecto, quanto mais melhor! Houve um tempo em que ser gay era ter como referência este ou aquele cantor da MPB (cuja presença e importância são fun-da-men-tais), ou um caminho para a travestilidade, ou que ser lésbica era basicamente ser “paraíba-masculina-mulher-macho-sim-sinhô”. No processo de reconhecimento dos desejos, práticas afetivo-sexuais, das relações que nos movem, quanto mais imagens melhor, não é mesmo, até para que tenhamos todxs caminhos, referências, parâmetros para assumirmos positivamente ou para nos opormos.

Uma outra questão delicada na discussão sobre o “sair do armário” diz respeito à consciência política. E isso não tem a ver com ser de direita ou de esquerda, mas de saber que a “sapatona” agredida no ponto de ônibus é, sob os olhos de uma heteronormatividade, igualzinha a você. Que você barbie é tão bicha quanto a travesti que leva pedrada ao sair na rua, apesar da sua salvadora e enganadora passabilidade. Diante dos fuzis de um pensamento ortodoxo e fundamentalista, somos todxs sub-humanos, mesmo que eu não seja sapatona, urso, trans ou bi (que gay sou eu???). Muitxs se enganam – ou se conformam – com a aceitação conquistada na família, entre os amigos, no trabalho, nas “bolhas” que conseguimos construir. Há muitxs até que não gostam de ser (ou de estar com umx) gay, lésbica, trans, bi, em nome de uma normalidade associada ao “padrão binário e heterossexual”. Para essxs, é importante lembrar que os fuzis, como várias experiências históricas indicam, quando levantados, não distinguem quais seriam mais ou menos normais.

Ninguém nega a importância pessoal e política de “sair do armário”, de declarar-se para si e para os demais. Mas é preciso ter em mente que nem todxs podem ou puderam optar em “estar no armário”, tendo sido expostos muitas vezes cruel ou brutalmente por desconhecidos ou por algozes até então amados. Da mesma forma, é de se perguntar: há uma efetiva ruptura quando se sai do armário, como se o mundo pudesse ser dividido entre AA (antes no armário) e DA (depois do armário)? Sair ao armário é atravessar o Mar Vermelho rumo à terra prometida? Uma resposta cuidadosa afirmaria que… talvez, depende. Depende de cada umx, para onde se olha, para o que acontece depois. É importante atravessar o Mar Vermelho, mas a terra prometida é um ideal e a gente leva o pó, a memória do que fomos e os sonhos de quem seremos. E não saímos do armário diariamente, todos os dias, ao lidarmos com as pessoas e acontecimentos, ao projetarmos futuros, ao construirmos expectativas?

Assinaturas-Resista-Bruno

 

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