Por que discutir sobre gênero?

Entrevista concedida a Romain Vallet pelos pesquisadores Sara Garbagnoli e Massimo Prearo a respeito de sua obra A cruzada antigênero: do Vaticano às Manifestações para Todos, publicada em outubro de 2017 pela editora Textuel.

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Há cinco anos, hordas rosas e azuis invadiram as ruas, as mídias e nossas vidas para contestar com violência qualquer forma de igualdade jurídica entre casais homossexuais e heterossexuais. Oficialmente, nascia a Manifestação para Todos em 17 de novembro de 2012. Quais são as raízes ideológicas desse movimento que se diz “antigênero”? Sobre qual discurso e quais teorias ele se apoia? É isso que Sara Garbagnoli e Massimo Prearo tentam responder.

O livro de vocês se concentra na emergência, por iniciativa do Vaticano, de um movimento antigênero em dois países, França e Itália, a partir de 2012. Como explicar que um país como a Espanha, frequentemente apresentado como muito católico, não tenha conhecido fenômeno semelhante quando foi aprovado o casamento de casais homossexuais em 2005?

Massimo Prearo: Pesquisadores como David Paternotte[i] mostraram com seus trabalhos que na Espanha o pensamento familista católico paradoxalmente conseguiu integrar a ideia de “casamento para todos” como um reforço da instituição matrimonial, e não como uma perversão dessa instituição. É necessário também reposicionar essa inovação legislativa no contexto espanhol, o de uma democracia recente e jovem. O efeito de modernização (fortemente associado à ideia de pertencimento europeu) trazido pelo novo governo socialista em 2004-2005 foi muito importante.

Sara Garbagnoli: Ao contrário, na França, a covardia e a relutância do governo forneceram ao discurso “antigênero” um terreno fértil. Mas não é porque não recebeu tamanha ressonância na Espanha que não tenha existido nesse país. Desde 2007, Madri acolheu o “Dia da Família”[ii], uma celebração que defende uma versão tradicional de família. Em 2011, aconteceu na Universidade de Navarra o primeiro congresso consagrado ao que os atores desse movimento chamam “a ideologia de gênero”[iii]. E o famoso ônibus transfóbico[iv] que circulou na Itália, Alemanha, França e Estados Unidos proclamando “não ao ensino de gênero na escola” foi fretado por uma associação espanhola, Hazte Oír[v]. Portanto, mesmo que o debate público espanhol não tenha sido manchado por essa retórica antigênero, esses ativistas se fizeram presentes. E não me surpreenderia que, a respeito de outro assunto, eles conseguissem se mobilizar fortemente.

Como explicar o sucesso desse discurso “antigênero”?

SG: Uma das principais forças dessa retórica é sua capacidade de travestimento. Hoje, não se pode mais dizer tão facilmente quanto antigamente, no espaço público, que as mulheres devem ser submissas e que as pessoas trans ou homossexuais são doentes. Esse discurso teve, portanto, que sofrer uma mutação, um eufemismo. Por isso, ele passou a se apresentar como um discurso que se pretende científico, antropológico e mesmo feminista, no sentido de um “novo feminismo” que exaltaria a diferença e a complementaridade entre homens e mulheres. No campo político e midiático, esse discurso foi tomado como tal. Ele foi muito pouco questionado. É por isso que o debate público passou por essa virada surrealista, em torno de questões que não têm nenhum significado teórico: “‘a teoria do gênero’ existe? Ela é perigosa?”. A insistência na figura “a criança”, que se pretende defender, facilitou também a difusão dessa retórica.

Vocês mostram igualmente que esse discurso transnacional sabe muito bem se adaptar aos diferentes contextos nacionais.

SG: Sim, podemos dizer nesse sentido que é um discurso profundamente oportunista. Na Itália, o feminismo majoritário é o diferencialista: ele tende a valorizar a feminilidade como uma essência distinta da dos homens. É assim que pudemos assistir a uma aproximação entre as feministas diferencialistas e a Igreja Católica contra um inimigo comum: o “gênero”, acusado de embaralhar essas diferenças entre homens e mulheres.

MP: Na França, foi mais a retórica “antiComunidade Europeia” que ajudou a apoiar esse discurso “antigênero”. Como toda vez em que um grupo minoritário se mobiliza, denunciamos um lobby – um comunitarismo antirrepublicano vê-se ameaçado por esse ideal de universalismo, que muitas vezes é apenas a universalização da particularidade dos dominantes.

A obra de vocês se refere várias vezes à feminista materialista Colette Guillaumin[vi], que colocou em evidência o paralelismo entre sexismo e racismo. Com as recentes observações do ministro da Educação Nacional[vii], que atacou os conceitos de “não mistura”, de “branquitude” ou de “racismo de Estado”, não testemunhamos hoje uma demonização das ferramentas do pensamento antirracista semelhante ao que você descreve sobre “gênero”?

SG: De fato, pode se fazer esse paralelo na medida em que a cruzada “antigênero” que descrevemos é também, no sentido próprio do termo, reacionária: ela nasce em reação aos movimentos feministas e homossexuais. A hierarquia da Igreja católica compreendeu perfeitamente que “a cólera dos oprimidos” tem efeitos teóricos, como dizia Guillaumin. É por isso que ela tenta restabelecer o primado de uma visão essencialista e naturalista das relações entre homens e mulheres que aqueles movimentos têm prejudicado.

MP: Em ambos os casos, trata-se de uma reação de longa data aos movimentos em curso. Essas noções de gênero, de racialização, de branquitude ou de racismo de Estado estão estabelecidas há muito tempo no campo acadêmico. Elas são utilizadas pelos pesquisadores, elas foram colocadas à prova pela crítica interna àquele campo: a controvérsia científica já aconteceu. É, portanto, uma reação a posteriori a uma evolução que começa a produzir seus efeitos.

SG: O mesmo ocorre em relação à escrita inclusiva[viii], denunciada pelo mesmo ministro. Seus oponentes jogam com o mesmo registro apocalíptico que os atores do movimento “antigênero”: a Academia Francesa vê na escrita inclusiva um ‘perigo mortal”! Face a essas ameaças de fim do mundo, respondemos: Sim, é verdade, desejamos o fim desse mundo, baseado no heteropatriarcado.

Quais estratégias e técnicas desenvolvidas pelo Vaticano vocês apreenderam em seu estudo e nas quais os movimentos feministas e LGBTQIA poderiam se inspirar para combater quem as criou?

SG: Penso que é necessário sair dessa dinâmica de movimento, contramovimento, contra-contramovimento… Porque, no final, fica difícil não ratificar os termos do debate imposto pelos reacionários. Por isso nos recusamos, no livro, a responder o que consideramos pseudoquestões (como “a favor ou contra ‘o gênero’?”), que produzem uma funesta simetria (e, portanto, legitimação) entre duas partes em que uma é portadora de uma visão de mundo que inferioriza, essencializa e discrimina uma parte da população. Na minha opinião, devemos, naturalmente, estudar esse movimento “antigênero”, sua gênese, as razões para seu sucesso e suas apostas – o que fazemos em nosso livro e em nossa pesquisa. Mas não é preciso parar de fazer o que fizemos antes do aparecimento deles.

MP: É importante lembrar que os movimentos feministas, homossexuais ou trans não esperaram o Vaticano para se constituir e que, contrariamente ao que lemos por vezes, eles não são apenas uma reação a um sistema de opressão. Esses movimentos carregam consigo uma tradição de afirmação, autonomia e orgulho que não se reduz a uma reação e que é necessário, do meu ponto de vista, continuar a cultivar e especialmente praticar.

(Hétéroclite, n. 128, dezembro 2017, p. 6-8.)

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

[i] N.T.: David Paternotte é professor na Universidade Livre de Bruxelas, onde leciona Sociologia e codirige o Atelier Genre(s) et Sexualité(s) e a revista Sextant. Seu último livro, organizado com Sophie van der Dussen e Valérie Piette, é intitulado Habemus gender!: déconstruction d’une riposte religieuse (2015) [em tradução livre: Habemus gender!: desconstrução de uma polêmica religiosa]. Confiram o sumário da obra neste link: <http://www.editions-universite-bruxelles.be/fiche/renderTableDesMatieres/2761>.

[ii] N.T.: O Dia Internacional da Família é celebrado em 15 de maio. Consta que a data foi instituída pela Assembleia Geral da ONU, em reunião de 20 de setembro de 1993. No contexto das discussões sobre gênero e casamento entre pessoas do mesmo sexo, a data foi ‘revitalizada’ pelo campo religioso cristão e de direita na Europa ocidental.

[iii] N.T.: O ‘I Congreso Internacional de Ideología de Género’ ocorreu na Universidade de Navarra de 9 a 11 de fevereiro de 2011. Mais informações no link: <http://www.unav.edu/congreso/ideologiadegenero/introduccion>.

[iv] N.T.: Nomeado “Ônibus da liberdade” (mas popularmente conhecido como ‘ônibus transfóbico’), criado pela Haste Oír e patrocinado pela Fundação CitizenGo, o veículo divulga mensagens contra “a ideologia de gênero”. Em sua passagem por Santiago, no Chile, em julho de 2017, por exemplo, a mensagem na lateral do veículo era a seguinte: “#ConMisHijosNonSeMetan  Nicolas tiene derecho a un papá y una mamá – Estado + Familia”. Esse ônibus já esteve também nos Estados Unidos, México e Colômbia. Ainda há agenda prevista para Uruguai, Argentina, Peru e Costa Rica. O veículo também já marcou presença na Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), em junho de 2017.

[v] N.T.: Criada em fevereiro de 2001, por Ignacio Arsuaga, a Hazte Oír se propõe defender “a vida humana, a liberdade de educação, a família e a religião”. A organização pertence ao grupo CitizenGo e foi declarada de utilidade pública pelo Ministério do Interior espanhol em 2013..

[vi] N.T.: Colette Guillaumin (1934-2017) foi uma feminista e socióloga francesa. Ela foi uma das primeiras a avançar no estudo do racismo e na noção de raça como conceito sem nenhum valor científico, que não remete a nenhuma realidade natural e como classificação arbitrária.

[vii] N.T.: Jean-Michel Blanquer ameaçou, em 21 de novembro de 2017, apresentar queixa por difamação ao Ministério Público contra a SUD Education 93 pelo uso, por parte dessa instituição, do termo ‘racismo de Estado’. Blanquer ainda considerou ‘branquitude’ e ‘racializado’ palavras terríveis. Deve-se lembrar que Blanquer é ministro de um governo de centro-direita eleito recentemente na França. Por sua vez, a SUD (Solidaires, Unitaires e Democratiques) Education é uma federação sindical francesa que reúne os trabalhadores da educação (do maternal à universidade), que tem como uma de suas linhas de ação a luta contra o ‘racismo de Estado’.

[viii] N.T.: Trata-se das maneiras de abolir a marcação de gênero na linguagem. Na variante da língua portuguesa adotada no Brasil, inicialmente adotou-se o símbolo arroba nas desinências marcadoras de gênero (p. ex, tod@s). Depois passou-se ao uso concomitante dos dois marcadores, sempre precedendo o feminino (p.ex., todas/os). Ao mesmo tempo, substituiu-se o arroba pelo x (p. ex., todxs). Atualmente, há a tendência de se adotar o -e como marcador de gênero neutro e generalizante do discurso (p. ex., todes).

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