“Enrabado” não deveria ser uma injúria, mesmo que “por diversão”

No sábado, 9 de dezembro passado, o Centre LGBTI de Lyon recebeu os ilustradores Xavier Lacombe e Nawak para apresentar uma obra coletiva que mistura textos e desenhos satíricos para denunciar as LGBTfobias. Ninguém contesta as louváveis intenções do projeto, cujos benefícios serão revertidos à SOS Homophobie, mas o título da obra, por outro lado, faz cerrar os dentes e erguer os olhos para o céu. Intitulado Les homophobes sont-ils des enculés?[i], o livro alcançará seu objetivo anunciado?

Nas redes sociais, muitos lamentaram que esse título e o qualificativo “enrabado”, mesmo que se quisessem humorísticos, reforçam o estigma que pesa sobre a sodomia passiva. Os membros da SOS Homophobie e até o ex-presidente da associação, Yohann Roszéwitch, atualmente conselheiro encarregado da luta contra as LGBTfobias na Delegação Interministerial de Luta contra o Racismo e o Antissemitismo (DILCRA), também compartilharam essas dúvidas e sua reprovação.

“É por diversão”, responderam sinteticamente os autores do livro, que, por trás dos pedidos de “diálogo”, não parecem inclinados a rever a questão ou fazer autocrítica. Eles foram igualmente arguidos sobre sua defesa de que os textos e os desenhos reunidos no livro são, sem sombra de dúvida, denúncias de LGBTfobias. Mas isso torna esse título infeliz apenas ainda mais incoerente com o propósito declarado do projeto.

 

A sodomia é um prazer, não um insulto

O opróbrio lançado sobre este ou aquela que é penetrado/a em uma relação sexual é muito antigo e também sempre significativo. É um fator de vergonha e mal-estar cujo escopo sexista é óbvio, já que relaciona depreciação e feminização ao enrabado.

Que os gays se reapropriem dessa injúria para resimbolizar o estigma e torná-lo um elemento de orgulho (como muitos o fizeram com o termo “bicha”) é uma coisa. “Somos mais de 343 putos, fomos fodidos pelos árabes. Temos orgulho disso e recomeçaremos”, assim proclamava, em 1971, a Frente Homossexual de Ação Revolucionária[ii] (FHAR) em uma fórmula ambígua que mescla solidariedade autoproclamada com os “trabalhadores imigrados” e fetichização/erotização neocolonial desses “árabes”. Mas usá-lo como uma arma política sem alterar-lhe o significado, mesmo contra os nossos adversários, não é subversivo nem engraçado, pelo contrário.

É por isso que também gostaríamos de não ouvir, nas manifestações antigovernamentais, que este ou aquele ministro que quer “aprofundar” suas reformas vá tomar “no cu… no cu…”. A sodomia, como qualquer prática sexual, é um prazer, não um insulto, uma degradação, uma humilhação ou uma violência – ou, quando ela o é, trata-se de uma violação, e qualquer comparação com esta ou aquela reforma governamental, por mais nefasta que ela seja, torna-se então inapropriada, fora de propósito e escandalosa. E “enrabados” pode ser um título de orgulho, mas certamente não é uma injúria – nem mesmo “por diversão”.

Texto de Romain Vallet para o site da revista Hétéroclite, publicado em 3 de janeiro de 2018.

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

[i] N.T.: O termo ‘enculés’, no original, se refere àquele que dá o cu. Poderia ser traduzido como fodido, mas preferi preservar um termo português mais próximo ao sentido literal.

[ii] N.T.: Observe, no centro da imagem que ilustra a matéria, a capa do livro. Ela é ilustrada pela seguinte charge: do lado esquerdo, um homem com expressão enraivecida xinga dois supostos gays utilizando variações depreciativas equivalentes a bicha, viado, maricas, florzinha; do lado direito, dois supostos gays dizem: Cada vez mais os homofóbicos saem do armário!

[iii] N.T.: Em tradução livre: Os homofóbicos são os enrabados?

[iv] A FHAR foi criada em 1971. Conforme José Luiz Magalhães e Mariana Lara Corgozinho, no artigo “Direito à diversidade e infiltrações transformadoras”, a organização “associava a defesa da mudança radical de costumes e transformação social. (...) A defesa da Frente é a mudança da sociedade, ruptura com o capitalismo e o que este sistema econômico traz com ele: a uniformização de costumes e valores assim como com os registros binários (dispositivo moderno nós superiores versus eles inferiores).” Nesse sentido, a FHAR procurou estabelecer alianças com os movimentos de esquerda em diversas de suas vertentes. A frase em destaque diz respeito, utilizando a ironia e o humor, à derrota francesa na guerra de independência da Algéria.

			

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