Lucy Salani, mulher trans sobrevivente ao Holocausto, é recusada por casas de repouso

mulher trans sobrevivente

A administração italiana se recusa a fornecer a Lucy Salani, de 94 anos, uma vaga em uma casa para pessoas idosas porque ela é transexual.

É difícil imaginar, olhando seu velho retrato de vinte anos atrás, que essa mulher de aparência pacífica foi testemunha de tantos horrores. Lucy Salani nasceu no Piemonte, no norte da Itália, em 1924, mas cresceu em Bolonha, mais ao sul do país. Incompreendida e rejeitada por uma família que a percebia como um “menino diferente”, ela foi enviada para o Exército a fim de servir nas fileiras fascistas. O adolescente desertou das tropas de Benito Mussolini, mas foi capturado pelas autoridades e deportado para a Alemanha. Após uma fuga miraculosa, ela foi novamente capturada. Desta vez, foi enviada para Dachau, o primeiro campo de concentração construído em apenas poucas semanas após Adolf Hitler ter sido eleito chanceler, em 1933. Fichada como um homem homossexual, muito provavelmente ela usou aí o triângulo rosa, imposto pelo poder nazista aos deportados por homossexualidade, os quais representavam até 2,5% dos detidos em Dachau.

No dia 29 de abril de 1945, soldados americanos entraram com horror no campo de Dachau: dos 200.000 opositores políticos, judeus, homossexuais e ciganos enviados para lá, estima-se que 70.000 pessoas foram mortas. Todos conviveram com o frio, a fome, a doença e mesmo a tortura – diferentemente de Auschwitz, Dachau não era um campo de extermínio. Lucy saiu de lá viva, com pouco mais de 20 anos.

A única sobrevivente trans do Holocausto

A jornalista italiana Gabriella Romano registrou em um documentário a trajetória da jovem mulher. Pouco tempo após a libertação, Lucy passou pela cirurgia de redesignação sexual na Inglaterra. Desde então, seu corpo corresponde a sua identidade de gênero vivida, mas sem alteração nos documentos. Aos olhos do Estado italiano, Lucy ainda tem seu nome de nascimento. Durante alguns anos, ela viveu entre Bolonha, Roma e Turim. Tapeceira e decoradora de interiores, ela gosta também de organizar festas. Frequentemente de passagem por Paris, ela visita suas amigas trans e assiste a espetáculos de travestis nos cabarets. Na Itália, até os anos 1970, ela sofreu condenações por atuar como travesti. Durante os anos 1980, ela retornou a Bolonha para cuidar de seus pais idosos…

Hoje, aos 94 anos, Lucy perdeu sua família, mas ainda reside em Bolonha, onde vive sozinha e solitária. De acordo com o Movimento Italiano de Identidade Transgênera (MIT), ela foi “a única pessoa trans, na Itália, que sobreviveu às perseguições nazistas, fascistas e aos campos de concentração.” Alguns voluntários da associação a visitam para ajudá-la em seu cotidiano, pois mesmo sendo “muito enérgica e não tendo maiores problemas de saúde”, explica o presidente do MIT ao Corrier Di Bologna, “ela precisa de cuidados constantes.” Mas a mídia local revela que a Seguridade social italiana se recusa a lhe conceder uma vaga em uma casa de repouso.

lucy salani

Raciocínio binário

“Lucy não pode ser colocada com os homens e compartilhar os banheiros porque ela mudou de sexo. O mesmo ocorre no que concerne às mulheres porque, de acordo com seu registro civil, ela ainda é homem”, reage irritado o médico que a acompanha, mencionado pelo Le Matin. Em nome do MIT, uma advogada denuncia um problema mais amplo: “não há nenhuma estrutura especializada para as pessoas trans na Itália”, diz Cathy La Torre, também vice-presidente da associação. “Tudo é referido com base no registro civil, (…) a situação de Lucy está bloqueada.” Mas, segundo ela, “ao menos uma centena de pessoas trans são acompanhadas pelos serviços sociais, e dentro de poucos anos, o número de pessoas trans na situação de Lucy corre o risco de aumentar.” Contra essa discriminação evidente, a advogada citada pelo Corriere Di Bologna insiste: “Está na hora de os políticos eleitos pela área de assistência social começarem a se ajustar ao fato de que não há apenas homens e mulheres: o dualismo de gênero não é mais uma certeza.”

Aliás, o MIT deseja abrir uma casa inclusiva em Bolonha: a associação já recolheu fundo suficiente, “mas ninguém quer nos alugar um espaço.”

Reportagem de Julie Baret, publicada na revista francesa Têtu em 18 de janeiro de 2018.

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

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