As mídias audiovisuais e as ciladas religiosas

Com vídeos-cilada, um grupelho procura confundir jovens homossexuais. Os fundamentalistas religiosos experimentam um novo campo de batalha contra a homossexualidade: o dos vídeos virais pensados com um ‘molho arco-íris’.

O slogan “Love is love” (renovado após o atentado de Orlando, que matou 49 pessoas em uma boate gay), as cores do arco-íris (da bandeira imaginada por Gilbert Baker para se tornar o estandarte da comunidade LGBTQIA no mundo), uma “poderosa história de outing anunciada no título… No vídeo abaixo, postado no mês passado, os pretendidos códigos gays são utilizados de mãos cheias. Tudo está lá para indicar aos internautas que navegam em sua timeline que esse clipe constitui um espaço indulgente. Clicando nele, chega-se a uma música pop-eletro, sequenciada por imagens de festas e de fotos pessoais, embalando a fala de uma jovem com cabelos curtos que narra gentilmente como ela descobriu sua homossexualidade, como ela se apaixonou por uma garota, como ela se comprometeu com outra…

 

Discretamente, uma inflexão ocorre. Eis que Emily lê a Bíblia e toma consciência, num passe de mágica, que ela pode deixar de ser lésbica convertendo-se a uma religião. De braços dados com um rapaz, ela nos explica com fervor que não passou de homo para heterossexual, mas “de perdida para salva”. O roteiro é basicamente este, mas é a realização que nos deixa atônito. A produtora Anchored North, que assina o vídeo, se apresenta como a “nova geração de evangelizadores e conseguiu dominar a linguagem jovem das novas tecnologias. Armada com uma logomarca que figuraria melhor em camisetas, sua equipe “pequena mas temível” é representada por missionários 2.0 para “partilhar o Evangelho por meio das mídias e estabelecer contato com as “igrejas locais.

Sob as aparências, a homofobia

O próprio cofundador da Anchored North admite ao Guardian ter se inspirado no modelo de vídeos do BuzzFeed, curtos e emotivos, para tocar em cheio o coração dos jovens do milênio. Este último coloca, sem hesitar, a homossexualidade, o alcoolismo e o estupro num mesmo balaio, o do “verdadeiro problema” (sic). Na frente de sua câmera, alguém que tomamos por sua aliada nos diz que não “nascemos com boa tendência à atração, por isso Jesus está vindo. Que você experimente o desejo do pecado prova simplesmente que você tem necessidade da graça, assim como eu”. Ao pesquisar nas redes sociais, descobrimos que ela é uma entre os “ex-gays” nos Estados Unidos, que compartilha sua história de “conversão reparadora” (sic) com a mídia cristã e que toma a liberdade de dar conselhos aos pais de crianças LGBTQIA em seu blog.

Com seus dois milhões de visualizações no Facebook, o vídeo de Emily para os evangelizadores americanos bateu o recorde da Anchored North e de suas obras precedentes: Os bebês abortados vão para o paraíso? e Perdoei quem meu estuprou

Segundo um recente estudo, 57.000 jovens americanos arriscam-se a serem submetidos a uma “terapia de conversão” prodigalizada por um representante religioso ou espiritual antes de ter 18 anos. As autoridades médicas concordam sobre a ineficácia dessas “curas” e sobretudo sobre sua nocividade. Várias testemunhas dessas “terapias” relataram as torturas sofridas e os danos psicológicos causados. Muito consolidada nos Estados Unidos, essa prática é mais discreta na França, especialmente realizada por grupelhos religiosos que não se preocupam com a estética do arco-íris.

Não tolo

Esconder suas intenções homofóbicas sob os reflexos do arco-íris nos lembra estranhamente a estratégia de comunicação da Manif pour tous[i]. Na origem do movimento, a apropriação do qualificativo “pour tous” e da cor rosa embaralha as pistas sobre as intenções do dito movimento na cabeça das pessoas: ele é a favor ou contra o casamento para todos[ii]? Na sequência, mais espaço para dúvidas, mas o movimento continua a surfar na onda gay friendly para se proteger contra qualquer acusação de homofobia. Em seu cartaz que anunciou a marcha de 16 de outubro de 2016, a Manif pour tous tomou cuidado, por exemplo, de acrescentar a silhueta de um casal gay e um slogan inspirado na tirada inclusiva “Venha como você estiver, nascida de uma publicidade da franquia francesa do McDonald em que um homem sai do armário para seu pai.

manif pour tous

No ano passado, foi por trás de uma navegação pedagógica e de cores chamativas que a Manif pour tous dissimulou seu discurso doutrinário contra a Educação Nacional através do site “École & sexe”.

O método lembra ainda os dos sites visados pela lei sobre o crime de obstrução do aborto na internet. Adotada em fevereiro de 2017, ela aborda os sites antiaborto que procuram, com a finalidade de dissuasão, enganar as mulheres que desejam se informar sobre o aborto – como o ivg.net e seu número gratuito, sempre no topo das pesquisas do Google…

Mais recentemente, esteve por trás do convite à “Marcha pela vida”, na qual desfilaram aqueles que são contra o aborto e o PMA[iii], em Paris, em 21 de janeiro. Ou, como diria Guillaume Meurice no France Inter, a versão “upgrade da Manif pour tous”.

Reportagem de Julie Baret, publicada em 30/01/2018 na revista Têtu.

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

[i] N.T.: La Manif pour Tous (Manifestação para Todos) foi um coletivo de associações conservadoras que ganhou maior visibilidade e representatividade ao se posicionar contrariamente ao Mariage pour Tous.

[ii] N.T.: Mariage pour Tous (Casamento para Todos) é a expressão francesa utilizada para se referir ao projeto de lei aprovado em 23 de abril de 2013, no Parlamento, que regulamentou o casamento, a adoção de crianças e a partilha de bens entre casais do mesmo sexo.

[iii] N.T.: no original, procréation médicalement assistée (PMA). A procriação medicamente assistida (PMA) é um conjunto de práticas clínicas e biológicas em que a medicina intervém mais ou menos diretamente na procriação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s