‘Terapias de conversão’: é necessário colocar um basta!

Somente nos EUA, 700.000 pessoas LGBTQIA sofreram “terapias de conversão”.

De 700.000 pessoas LGBTQIA, a metade se submeteu a “terapia de conversão” na adolescência. É o que revela um recente estudo que denuncia ferozmente essa prática, ainda considerada legal na França e na quase totalidade do mundo.

698.000 pessoas já se submeteram, nos Estados Unidos, a uma “terapia de conversão” destinada a modificar sua orientação sexual ou sua identidade de gênero; entre aquelas, 350.000 ainda quando eram menores. Esse número, divulgado pelo William Institute, entidade da Escola de Direito da Universidade de Los Angeles, é ainda mais grave quando conhecemos os “métodos” habituais dessas chamadas “terapias”: grupos de convivência e hipnose, mas também indução a náusea, vômitos ou paralisia à vista de relações homossexuais, eletrochoques etc.

As maiores autoridades americanas da medicina concordam sobre sua ineficácia e sua nocividade, em particular sobre o bem-estar psíquico. A Associação Médica Americana, a Associação Psiquiátrica Americana e a Academia Americana de Pediatria se opuseram publicamente a essas práticas. Entretanto, apenas um punhado de Estados as proibiu.

Cerca de 80.000 adolescentes passarão pela “cura” antes de completar 18 anos

Para desafiar a audiência, o William Institute alarga suas previsões: 20.000 jovens LGBTQIA passarão por uma “terapia de conversão” antes de alcançar a maioridade nos Estados Unidos. Se acrescentarmos as curas prodigalizadas fora do corpo médico, por uma instituição religiosa ou espiritual, por exemplo, o número sobe para 77.000 adolescentes em todo o país. Mas, estabelecendo salvaguardas legais contra essa prática, podemos conter esse fenômeno: de acordo com o estudo, proibindo (ao menos parcialmente) essa prática, os estados da Califórnia, Connecticut, Illinois, Nevada, Nova Jersey, Novo México, Oregon, Rhode Island, Vermont e Washington impediram 6.000 jovens LGBTQIA de sofrer tal experimento. Nos dois últimos anos, três outros Estados foram questionados sobre a terapia: a cada vez, a maioria dos entrevistados julga que as terapias de conversão deveriam ser proibidas aos menores.

No resto do mundo

O fenômeno chegou igualmente à França sob influência americana, mas permanece bastante contido, como nos informa Libération no último ano: essas “curas” são realizadas na clandestinidade de alguns grupelhos, frequentemente em parceria com o fundamentalismo religioso. O governo nunca legislou contra eles, mas as associações LGBTQIA ainda não fizeram disso uma prioridade a ser combatida. Na Europa, Malta, onde o aborto ainda é considerado crime, tornou-se em 2016 o primeiro país a proibir esses “tratamentos” e a punir os autores até com um ano de prisão e 10.000 euros de multa. No Brasil, psicólogos e psiquiatras foram proibidos de propor tais “tratamentos” desde 1999, mas um juiz federal restaurou sua legalidade em setembro passado, criando uma grande reação contrária da opinião pública[i]. Dois meses mais tarde, a Human Rights Watch soou o alarme sobre a situação na China, onde homossexuais são internados contra a vontade em clínicas e hospitais para receber choques elétricos, injeções sob a pele enquanto assistem a pornografia gay etc.

O cinema para denunciar

Por ocasião do último festival americano de Sundance, grande referência do cinema independente, o tema foi colocado sobre a mesa. Lá foi exibido The Miseducation of Cameron Post, de Desiree Akhavan, adaptação de uma novela de Emily Danforth, em que uma adolescente lésbica é enviada para um “campo de conversão” a fim de suprimir sua homossexualidade. O longa-metragem já é referido como a sensação do festival. A atriz principal, a promissora Chloë Grace Moretz (Kick Ass, Sils Maria), aproveitou sua aparição para denunciar a administração Trump, “que acredita totalmente nas terapias de conversão”, lembrando que o vice-presidente Mike Pence “tentou até subsidiá-las com fundos públicos” quando ele representava o Estado de Indiana, e apontou o dedo para New Hampshire, cujo Congresso perdeu a oportunidade de proibir esses campos no começo deste mês.

Atualmente sendo filmada, outra grande produção pretende denunciar as “terapias de conversão”. Boy Erased se inspira em um romance autobiográfico, de Garrad Conley. Dirigido por Joel Edgerton, estarão no elenco o cantor abertamente gay Troye Sivan, Nicole Kidman, Russell Crowe e o diretor do Québec, Xavier Dolan.

Reportagem de Julie Baret, publicada em 26/01/2018 na revista Têtu.

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

[i] A Resolução CFP 01/1999 impede que psicólogxs ofereçam tratamento de reversão da orientação sexual aos pacientes que os procurarem com essa demanda. No último dia 29 de janeiro, o Conselho Federal de Psicologia aprovou resolução semelhante (01/2018) impedindo seus profissionais de oferecem tratamento de reversão da identidade de gênero a transexuais e travestis.

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