“O feminismo que me interessa é o das putas, das feias e das lésbicas.”

Virginie Despentes[i] é uma mulher agradável. Divertida. Mas quase para sua consternação: esqueça-se que ela pretenda te agradar ou divertir. Tampouco que vá pedir perdão. Nem permissão. Não vai se impedir de dizer “pau” e “foder”. Não disfarçará que é a favor da prostituição, porque ela foi “puta alguns anos e era melhor que trabalhar em um supermercado”, ou da barriga de aluguel, “dependendo de quanto pagarem”. Ou que o estupro, que ela sofreu aos 17 anos, “não seja um fato isolado, porém é o coração do sistema pelo qual o homem exerce seu controle sobre você”. Seu discurso está salpicado de experiências pessoais, que a têm feito repensar que tipo de feminilidade é a dela. E segue direta. Sem rodeios.

Estivemos com ela em Madri, onde vive com sua namorada, uma tatuadora com quem ela divide seu tempo entre Paris e Barcelona, para apresentar a última novela de sua trilogia, Vernon Subutex, e a reedição de sua polêmica Teoria King Kong.

Virginie Despentes

Encontramo-nos na Gran Vía. Havia sido um dia inteiro de entrevistas. Em todas, ela fora perguntada pelo #metoo (“é muito interessante, é o primeiro movimento feminista internacional de verdade, como se estivéssemos perdendo a vergonha… mas vamos ver como isso termina”) e Catherine Deneuve (“esse manifesto só é compreendido se você for hetero e estiver interessado no pau do seu chefe”). Pode parecer que ela gosta de escandalizar, tocar nessas questões sociais que fazem a maioria torcer o nariz, mas ela afirma que é outra a motivação: “Provocar? Tanto faz (risos). Não me incomoda, mas não é o que busco. É como o ódio contra os homens, que sempre me perguntam se tenho e, obviamente, não: eu tornaria as coisas superdiferentes se buscasse o escândalo ou o ódio. Claro que surpreendo alguns setores, mas é que meus livros e filmes seguramente não são para eles, que não possuem os códigos da cultura pop, rock, punk, queer e feminista”.

Quão incômoda você é. Registre-se que isso é um elogio…

Obrigada (risos). Tenho ouvido coisas muito piores. Eu gosto disso.

Você já teve um mau momento em alguma ocasião?

Quando dirigi Baise-moi,[ii] o filme sobre o estupro que sofri. Não foi entendido. No entanto, a Teoria King Kong foi recebido superbem e ainda não sei o porquê. Os dez primeiros anos foram muito duros, agora é um momento de certa paz. Tenho legitimidade. Não com todo mundo, claro: não gosto nada da extrema-direita nem do catolicismo. Nem das feministas abolicionistas [da prostituição].

Como explicar a Teoria King Kong em poucas palavras?

É uma reflexão sobre como é ser uma mulher que não se encaixa bem no marco tradicional da feminilidade. Nem no feminismo de uma senhora pura e digna, para constar que eu respeito muito. O feminismo que me interessa é o das putas, das feias, das lésbicas, das garotas que não seguem sua dieta, das que não são uma boa dona de casa…

Você deixa claro no prólogo, que já é um ícone: “Escrevo para as feias, as velhas, as caminhoneiras, as frígidas, as mal comidas…”

Realmente propus isso porque em 2006, quando o publiquei, se você era feminista era porque você era tudo isso e não tinha capacidade para gostar de homens. Quer dizer, você tinha um problema. Não ser desejada por homens era o pior que poderia te acontecer. ‘Eles não estão felizes comigo, e o quico?’

Uma das perguntas que mais te fazem é por que você odeia os homens.

Mil vezes. Que fique claro: não é assim. Isso sempre me surpreende. O livro não foi escrito a partir daí. Se tivesse sido, seria muito mais violento. Apenas é uma crítica se você o compara ao ódio com que as mulheres viveram durante anos. Não estou interessada suficientemente nisso; interessa-me muito mais a feminilidade. Minha intenção era expor as ideias que me fizeram ter de mim mesma enquanto mulher. O que te ensinam, desde criança e adolescente, sobre o que é uma mulher, o que você deveria pensar, fazer…

Você diz que “a feminilidade é hipocrisia”.

É mentir sobre teu corpo para fazê-lo melhor, sobre teus sentimentos para ser o mais agradável possível, sobre teus desejos para enquadrá-lo naquilo que se espera de você, sobre tua raiva porque não deves se irritar como um homem se irritaria por ser feio… Eu não me vejo com essa feminilidade. Cada vez que me pedem para ser menos barulhenta, beber menos, foder menos, ser menos dura… penso que é hipocrisia. Que fique claro: entendo que haja garotas que aceitam isso para si, mas eu não. Estou apenas dizendo que você não tem que ser de um único modo. Se te agrada, ótimo: case-se, tenha filhos, desfrute teu bem-estar, mas não me peça o mesmo.

Uma das partes mais duras do livro fala sobre o estupro.

A violação é o coração do sistema da heterossexualidade, do poder dos homens. Fui estuprada quando tinha 17 anos, eu e uma colega. Por três caras. Quando pedíamos carona. Quando aconteceu, me pareceu algo superextraordinário. Fiquei anos sem falar disso e, quando comecei a tirá-lo da penumbra e escrevi Baise-moi, surpreendeu-me a quantidade de mulheres que começaram a me escrever para contar seus casos. Havia algum homem também, mas eram sobretudo mulheres. Em sua casa, na rua, em todos os lugares. Meninas, adultas, classes diferentes. Entendi que era supercomum e que havia uma mentira enorme de que isso não acontece nunca. Isso acontece muito. Para muitas. Talvez 20% das mulheres. Antes não se falava quase nada, agora um pouco mais, e isso é fundamental porque é o único modo de desativar esse método de pressão: estão te dizendo que você nunca pode sentir-se segura. Cada dia é um dia perigoso e todas sabemos disso: as que vivenciamos o estupro e as que sabem que poderia passar por isso qualquer dia. Como um atentado. Pode te acontecer. E, se cada dia é um perigo, isso emudece. É uma das diferenças enormes entre os gêneros. Eles saem à noite, fazem coisas… e pode acontecer com eles, mas eles não internalizaram isso. Há caçadores e há presas. Mesmo aqueles que nunca o fariam, estão desfrutando da rua na posição de caçadores. É a chave do sistema para explicar porque estamos sempre com a sensação de perigo. E isso muda sua vida: não é o mesmo que a casa, a rua e a vida sejam tuas para pedir permissão para ter um bom dia.

Outro tema polêmico é sua defesa da prostituição.

Existe uma luta bastante passional entre as feministas abolicionistas e aquelas pró-prostituição como eu. Me chamam a atenção a violência e a paixão que o tema desperta: me faz suspeitar que tem algo mais por trás, que ainda não sei o que é. Toca em uma tecla concreta do inconsciente. Eu me pergunto por que é um tema que interessa tanto: quando se fala das condições laborais deploráveis da mulher do supermercado, não dão tanta atenção. O que há de errado com o sexo? Se decidimos vender nossos corpos, não te peço para fazer o mesmo. Não entendo por que há tanta raiva. Trabalhei desde os 16 anos em vários pequenos empregos que me ocupavam muito tempo e me davam muito pouco dinheiro. Até que comecei a me prostituir ocasionalmente durante quatro anos. E foi um alívio. De repente, tinha muito tempo. Se necessitava de mais dinheiro para conseguir mudar-me para Paris, podia consegui-lo… Também experimentei casas de massagem e cabines eróticas, onde fiquei surpresa por encontrar mulheres cheias de força, muito interessantes, não drogaditas e vítimas. É um trabalho que te traz muito dinheiro. O equivalente ao michê do rapaz. Quando se é pobre, o mais importante é quanto dinheiro entra. Se você ganhar em dois dias o que ganharia em um mês… Sei que é meu corpo e blá-blá-blá, mas também é meu tempo. O dinheiro da juventude muda a sua vida. Te abre portas. Claro que nunca pensei que seja um trabalho que qualquer um possa fazer. Eu tinha uma sexualidade superparticular, fodi tudo. Então estava cobrando por algo que costumava fazer de qualquer maneira. E tenho que dizer que encontrei muita ternura na maioria de meus clientes.

Você também fala sobre homens que têm dificuldade.

Estão submetidos também a muita pressão. Observe [Emanuel] Macron, por exemplo, com a onda de críticas supernegativas sobre sua mulher porque é mais velha que ele. Aí pensei: ‘que merda, quão supervigiado você fica em função das mulheres que escolhe’. Era como na escola, como se dez crianças se colocassem em frente a ele para rirem dele. Que diabo ter que escolher uma mulher jovem e linda para mostrar aos outros que você fez bem. Não me havia dado conta até que ponto eles vigiam entre si. Mesmo aqueles que gostam de pessoas gordas não vão com pessoas gordas. Ou a coisa sobre o choro: reprimem-se o tempo todo. Ou se querem dançar de maneira sensual em um local: se não for gay, não pode.

Aos 35 anos você se apaixonou pela primeira vez por uma mulher. Como foi essa transição?

Até então eu trepava com todos os rapazes que podia, como qualquer uma, suponho (risos). Até que me apaixonei por uma mulher. E então passei 10 anos com Beatriz Preciado, agora Paul Preciado[iii], uma relação superimportante para mim e que mudou minha vida, e agora estou com outra mulher. Tenho sido uma lésbica superfeliz desde o início. Não sei como teria escrito Teoria King Kong [por sinal, minha namorada desenhou a capa] sendo heterossexual. Creio que não teria sido igual porque quando era hetero era incômodo para mim ser escritora. Muito sucesso, barulho, dinheiro… Se você entra em um local e alguém conversa com você, é como se você tirasse a masculinidade dela. Se um ano o dinheiro que entra é teu, você o ataca. É como se o simples ato de fazer coisas lhe tirasse um pouco de masculinidade. Mesmo que fossem caras superlegais e sofisticados, no fundo, era isso. Com uma mulher você tem também muitos problemas de casal, mas esses não.

Você disse que “achou difícil ser feminista e heterossexual” e não gostou muito…

É que só me sinto assim (risos). É mais fácil ser lésbica porque quando você chega em casa não enfrenta esses detalhes da vida cotidiana. A maioria das mulheres que me impactaram como feministas foi lésbica e quando me dei conta, me surpreendi. Então entendi que na prática é mais fácil fazer coincidir o discurso e o dia a dia. Quando era hetero, estava convencida de que era a mesma coisa: apaixono-me por um rapaz e você por uma garota, não importa. E então, quando me aconteceu, me dei conta de todas as coisas que saíram de meu cérebro sem estar consciente de que estavam lá. Era eu que o havia assimilado, não era a sociedade que cada manhã me dizia coisas. De repente, me sentia melhor. Tudo é mais fácil agora: ser escritora, ser feminista e ser mulher.

Qual sua opinião sobre o manifesto divulgado por Catherine Deneuve?

Tem que heterossexual para escrever algo assim. No final, você está interessado no pau do seu chefe. Se você sai de lá, não tem que manejá-lo indiretamente e, como digo, é mais fácil ver isso com clareza.

capa Teoria King Kong

E o #metoo?

Parece-me um momento muito interessante. Chave. É a primeira vez que vejo um movimento feminista tão internacional. Como se se houvesse perdido a vergonha um pouco. Elas seguem com o que têm que dizer: você não entende o que está acontecendo, tudo bem, você está mal de entendimento… mas pela primeira vez passamos completamente por eles. Eles não querem ouvir, mas não importa, seguimos falando sobre o assunto. As mulheres jovens estão superdecididas por um ‘basta’, ainda que não se considerem a si mesmas feministas, e isto é novo. Porém, não se sabe quais consequências ruins podem acontecer.

O que você quer dizer?

Pode ser que voltemos a uma segregação, os homens de um lado e as mulheres de outro. Separamos os espaços públicos e o assédio acabou. E isso não é bom. Eu realmente gosto da companhia dos caras, não quero isso. A igreja católica fez isso e não aconteceu nada. É legal aproveitar todos juntos.

O que você acha sobre Beyoncé puxando o feminismo?

Beyoncé de repente chega como um sol feminista na indústria cultural, e verifica-se que ela não precisa vender porque já vendeu alguns. Ela criou mais entusiasmo do que rejeição. E também é negra, o que é importante. Então sim: Beyoncé sim, mas Channel não. As redes estão ajudando muito. Até as mulheres jovens que pensam que não são feministas, quando você fala com elas, você pensa: ‘Merda, você é, e muito, tia’.

Entrevista concedida a Esther L. Calderón, disponível em: <https://www.divinity.es/blogs/blackisnice/virginie-despentes-feminismo-teoria-king-kong-putas-feas-lesbianas_6_2516415004.html>.

 

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

[i] Virginie Despentes nasceu em Lyon (França), em 1969. Estreou na literatura aos 24 anos com o romance Baise-moi [Me fode]. Antes disso, foi balconista, baby sitter, prostituta e resenhista de filmes pornô. Atualmente, é ativista no movimento feminista e pesquisadora dos estudos queers. Tem diversas obras publicadas, dentre as quais a única traduzida no Brasil é Teoria King Kong (2006), pela n-1 edições (São Paulo, 2016).

[ii] Fóllame é o título espanhol para a adaptação para o cinema do primeiro romance de Virginie Despentes – Baise moi [Me fode]. O filme (2000, 77’), um drama policial, tem roteiro e direção de Despentes e Coralie Trinh Thi.

[iii] Paulo Preciado também é um pesquisador da teoria queer. Autor do livro Manifesto contrassexual (2004, assinado ainda quando Beatriz Preciado), também publicado no Brasil pela n-1 edições (São Paulo, 2014).

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