O avesso do avesso do avesso…

São Paulo, 14 de março de 2018, quarta-feira. Professores da rede municipal protestaram contra projeto do prefeito João Doria (PSDB) de reforma da previdência. Dentro da Câmara Municipal, a professora da Educação Infantil (crianças de 2 a 6 anos) Luciana Xavier, de 41 anos, teve o nariz quebrado com um golpe de cassetete vibrado por um membro da Guarda Municipal.

Rio de Janeiro, 14 de março de 2018, quarta-feira. Pouco após as 21 horas, a vereadora Marielle Francisco da Silva (PSOL), a Marielle Franco, foi executada com quatro tiros. Treze tiros foram disparados contra o carro em que ela se encontrava com uma assessora. O motorista Anderson Gomes foi atingido por três tiros e também morreu. Marielle, de 39 anos, era negra, socióloga e ativista pelos direitos humanos.

Brasília, 15 de março de 2018, quinta-feira. Juízes protestaram (a intenção anunciada era uma greve) no Distrito Federal, Minas Gerais, Piauí, Pará, alagoas, Sergipe, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul em defesa da permanência do auxílio-moradia (em torno de R$4.700,00) da classe. Não nos esqueçamos: eles podem também pleitear a agregação aos seus salários do auxílio-livro, auxílio-saúde e auxílio-paletó.

Rio de Janeiro e Distrito Federal, 16 de março de 2018, sexta-feira. Circularam as opiniões, emitidas em redes sociais, da desembargadora Marília Castro Neves e do deputado federal (da bancada da bala) Alberto Fraga (DEM-RJ), atribuindo a Marielle Franco ‘engajamento com bandidos’, tendo sido morta por ter descumprido compromissos de seus apoiadores! Horas depois, Neves tentou se justificar dizendo que não se manifestou como magistrada, mas ‘apenas’ como ‘cidadã’!!!

Pensamos que os quatro fatos reunidos e tão próximos no tempo são suficientes, apesar de não comporem totalmente nosso panorama sociopolítico atual, para se perceber o grau de desagregação, disparidade e distanciamento dos segmentos que compõem a conjuntura brasileira. Há vozes que incomodam e são silenciadas, parcial ou definitivamente, por autoridades algumas vezes visíveis e identificáveis, na maior parte das vezes por autoridades não visíveis e não identificáveis. Há outras vozes que também incomodam e permanecem falando, mentindo e silenciando os outros pela aparência de autoridade.

Está em curso um momento de exceção que não se sabe quanto tempo irá durar. Aliás, exceção e intervenção se tornaram par indissociável em circunstâncias nas quais as diferenças sociais, étnicas e econômicas se mostraram mais explícitas em nosso tecido social.

Com um mês de intervenção federal, com tarefa atribuída ao Exército de pacificar o Rio de Janeiro, já se vê que não há um mínimo resultado a se considerar, muito menos plano factível para trazer algum resultado. O discurso ciclotímico de que é necessário tempo para que os resultados apareçam e se consolidem apenas oculta uma ação espetacular de um governo mumificado que não deu certo e que se mantém pelo apoio de forças financeiras (ultra)liberais e de grupos políticos de centro-(extrema-)direita.

Não há soluções mágicas no fim do túnel. Por enquanto, a sensação é de certo esgotamento e desesperança. Mas uma oportunidade de certa renovação se aproxima com o processo pré-eleitoral que se inicia a partir de 7 de abril, quando as trocas partidárias se encerram e o tabuleiro eleitoral começa a ser montado. É a partir daí que precisaremos agir com mais efetividade, suspendendo a sensação de esgotamento e se propondo a enfrentar o que nos cerca com um desejo potente de mudança e de compromisso com a vida pública. É pela organização social, pelo voto e pela construção coletiva que nos resta agir e enfrentar.

“Nós seremos resistência porque você foi luta.” (Luyara Santos, filha de Marielle Franco)

Equipe de articulação do Resista! – Observatório de Resistências Plurais

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