Armário com fundo duplo: Uma abordagem de Epistemologia do armário, de Eve Kosofsky Sedgwick

Além de um bom título, Epistemologia do armário, de Eve Kosofsky Sedgwick, é uma expressão de alto impacto que muitas vezes se usa sem se saber exatamente a que se refere. Nesse livro publicado em 1990, a autora transita, iluminada por Foucault, pelos caminhos da visibilidade e da invisibilidade LGBTQIA, encontrando o vínculo com outras formas cotidianas que vão muito além do que entendemos por homossexualidade ou pela invisibilidade de um grupo de pessoas. O armário é um modo de pensar a realidade, de mover-se nela.

epistemologia do armário livro

Um dos grandes sucessos do livro é instalar o socialmente escondido e silenciado em condições de igualdade com todos os discursos e ações que definem o modo de ler, entender e decodificar tanto uma sociedade como uma vida pessoal. Mas, o que é uma epistemologia? O que podemos encontrar em um armário?

Segundo o dicionário, “epistemologia” é a “doutrina dos fundamentos e métodos do conhecimento científico”. A autora se propõe desvendar esses métodos, lógicas, linguagens de conhecimento que se enquadram no que entendemos por armário.

  1. A epistemologia do armário como oximoro

Ao contrário do exemplo dado pelo dicionário para explicar a palavra oximoro, a epistemologia do armário enfatiza a tensão entre opostos que são apenas evidentes e que dificultam o peso retórico dessa contradição para se reforçar: eles não se complementam ou se opõem, mas se fundamentam reciprocamente e de forma equivalente. Enquanto o dicionário atribui ao oximoro um sentido metafórico, poético, sarcástico, a autora destaca a intenção disciplinadora do par “conhecimento como verdade” / “ignorância como segredo LGBTQIA”.

“Não cabe fazer uma divisão binária entre o que é dito e o que é silenciado; devemos tentar determinar as diferentes maneiras de silenciar […]. Não há um silêncio, mas vários silêncios e são parte integrante de estratégias que subentendem e atravessam os discursos”, cita Sedgwick. Em seguida, ela observa que nas relações em torno do armário “o fato de o silêncio ser tão intencional e transformador como o discurso […] depende de a ignorância ser tão poderosa e múltipla quanto o conhecimento”.

  1. As paredes elásticas e transparentes do armário sobre as coisas ficam complicadas quando o segredo é “este” segredo.

O segredo LGBTQIA compreende características que refletem as particularidades epistemológicas da identidade que encobre. Perguntas como “eu digo para não mentir?” ou “melhor não dizer, não me interessa tudo” surgem permanentemente e em todo tipo de situações, mesmo para as lésbicas mais aguerridas, para os gays mais assumidos etc. Essa disjunção que conforma o nó central das vidas não heterossexuais é resultado da falsa dicotomia entre o público (sempre heterossexual, invisibilizado como o normal, natural, comum, conhecido) e o privado (sempre LGBTQIA, sempre oculto, sempre dissidente). Diz Sedgwick: “Até na esfera individual, é notável as poucas pessoas, incluindo as mais abertamente gays, que não estão deliberadamente no armário em relação a alguém que seja pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas”. A cada etapa, com cada novo relacionamento, nos encontramos como na primeira vez, avaliando se o outrx em questão terá considerações LGBTQIAfóbicas ou não.

As múltiplas possibilidades do que poderia acontecer ante a revelação definem as características do armário que cada um constrói. “Será que elx ficará com raiva?”, “Elxs acham que tomo certas decisões porque sou lésbica?”, “Você acha que só quero me reunir com mulheres?”, “Eles deixarão de se encontrar comigo para que não pensem que são gays?”, “Querem que eu não diga isso em todos os lugares?”, “Você acha que ela sempre gostou de mim?” são algumas dúvidas que atravessam existencialmente as vidas heterodissidentes e os corpos que as portam, cada vez que decidem sair do armário, arriscando nem mais nem menos que sua sobrevivência ideológica, política, econômica e às vezes até física.

Enquanto estrutura característica da epistemologia do armário, Sedgwick enfatiza as características do conhecimento em uma série de pontos que vale a pena citar.

  1. Identidade LGBTQIA e resistências a reconhecê-la: a sexualidade LGBTQIA sempre parece poder ser revertida. Nunca falta um avô, uma tia, algum chefe que confie que “algum dia isso vai passar” ou que “logo conhecerás alguém que…”. Eles consolidam a dúvida permanente do “quem é suficientemente gay”, da impossibilidade ontológica da certeza sobre as próprias decisões e convicções.

 

  1. O armário é de cristal: a sexualidade e a atividade sexual cotidianas funcionam como reguladores sociais e culturais da vida. Anedotas, experiências, fofocas, segredos a boca pequena correm os escritórios, as salas de aula, as cozinhas, os banheiros. A verdade sobre o sexo é impossível de ser escondida por muito tempo. Muitas vezes a saída do armário significa apenas a cristalização de uma informação que já circulava como chantagem silenciosa. “Finalmente, a situação de alguém que sabe algo de si mesmo que o outro não sabe é de entusiasmo e poder”, conclui Sedgwick.

 

  1. O armário é contagioso: família, cônjuges, amigos, geralmente pedem para que o segredo não seja revelado para a comunidade de pertencimento. A ideia da exclusão e o estigma se estendem aos outros.

 

  1. Pânico homossexual: a identidade sexual ou erótica é relacional. A revelação LGBTQIA geralmente desafia a identidade dos outros, que, presos na heterossexualidade forçada, raramente se questionam sobre sua própria sexualidade.

 

  1. Homofobia interna: “Às vezes, o fato de descobrir-se não põe fim à relação com o próprio armário, mas inclui, de forma turbulenta, o armário do outro”.

 

  1. A falta de uma genealogia: as pessoas que compõem o mapa LGBTQIA, ao contrário de outros grupos sociais discriminados, geralmente não possuem figuras nas quais se reconheçam e possam citar, que encarnem suas tradições, costumes etc., e lhes permitam construir uma âncora narrativa histórica. Cada lésbica, trans, travesti, gay, deve construir para si mesmx uma “herança utilizável; e uma política de resistência e sobrevivência”.

 

  1. “Visão minoritária versus visão universalizante” e “separatismo versus inversão”: a identidade LGBTQIA é lida pelo menos de duas perspectivas contraditórias e opressivas. Por um lado, a contradição entre dissidência sexual como a definição de um grupo de pessoas específicas (por exemplo, os conhecidos “grupos de risco”) ou como um conjunto de práticas eróticas – sempre convenientemente reduzidas aos usos e gozos das partes genitais dos corpos.

A segunda contradição vem da via do separatismo (por exemplo, a ideia de mulheres que se identificam com mulheres) versus a inversão (lésbica é a que se identifica com homens). Ambos os pares convivem nos discursos, práticas sociais e políticas públicas, bem como são centrais nas investigações e conclusões de homofobia interna. Ainda hoje, quase 25 anos após publicados, esses pares ainda seguem vigentes, teórica e politicamente – uma questão que, longe de obstruir a elaboração de discursos e práxis, ilumina sobre a forte relatividade com que os regimes de verdade são construídos.

Eve sedgwick

Ver ou não ver

Sedgwick nos alerta continuamente sobre o caráter social e macroscópico da “presumida” ocultação do armário. Visibilidade e armário são faces da mesma moeda –e talvez a mesma face –, constituindo uma carga opressiva instalada nos olhares que escolhem ver ou não ver, não na decisão mais ou menos óbvia e na tarefa mais ou menos infinita para se tornar visível. Trata-se de olhares alheios, estranhos, os quais certamente podemos tentar seduzir, orientar, iluminar, mas nunca forçar ou dirigir.

A epistemologia do armário propõe que muitos dos principais nós do pensamento e do saber da cultura ocidental do século XX estejam estruturados por uma crise crônica, hoje endêmica, de definição da homo/heterossexualidade. E propõe que a melhor forma de começar a desvendar a complexa relação Homossexualidade/heterossexualidade forçada é analisando os estudos gays e anti-homofóbicos. Muita água correu sob a ponte desde a publicação desse livro, os paradigmas cognitivos e políticos (o poder em todas as suas expressões coletivas e individuais) do século passado permanecem fortes, normativos e sólidos. Consideramos que as textualidades e as relacionalidades 2.0 dos nossos tempos e – em outro plano – os avanços no reconhecimento da cidadania trans e das tecnologias de arquitetura corporal permitem – a quem os propõem – corroer parte dessas estruturas. A mesa está servida! Temos de decidir se nos juntamos ou não ao banquete.

Texto de Sonia Gonorazky e Verónica Marzano, publicado no site Pagina 12 e reproduzido em Parole de queer no endereço <http://paroledequeer.blogspot.com.br/search/label/Eve%20Kosofsky%20Sedgwic&gt;.

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

 

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