De Lauretis básico

Teresa de Lauretis é uma das teóricas mais ousadas do pensamento feminista contemporâneo. Lésbica, italiana (embora viva na Califórnia) e poliglota, também ativista e professora, sua obra é vasta e audaciosa (que ela não seja citada suficientemente é um mero gesto egoísta de seus contemporânexs): ela participou do campo dos estudos cinematográficos, semióticos, filosóficos, psicanalíticos e literários, e irrompeu com uma reflexão crítica com categorias que abalaram os estudos de gênero.

O gênero como tecnologia (1987)

Quase todxs que circulam por esse ambiente escutamos falar alguma vez de Judith Butler, de seus aportes acerca de que o gênero não é natural, mas uma construção performática, uma ficção reguladora que atua sobre os corpos e que se institui a partir da repetição gestual e discursiva. No entanto, foi De Lauretis quem, em um artigo renovador do pensamento feminista, insistiu que pensar o gênero como diferença sexual (a mulher como “outro” do homem) mantinha a teoria feminista atada a dicotomias patriarcais universalizantes. Foi ela quem, ressituando um conceito foucaultiano fundante – o de “tecnologias do eu” –, propôs o termo “tecnologias de gênero” para evidenciar que, como a sexualidade, o gênero tampouco é propriedade natural dos corpos, mas o conjunto de efeitos produzidos por complexas tecnologias políticas como o cinema, a literatura, a família, as teorias, as políticas de Estado, as instituições etc. Assim, o “gênero” é para essa autora o produto e o processo de representação e autorrepresentação desses modelos hierarquizados de masculinidade e feminilidade difundidos por formas culturais hegemônicas de cada época, que todxs repetimos ou, inclusive, das quais nos desviamos (afirmando ou negando, sempre se reconhece a norma, que sair do sistema é impossível). Em outras palavras: o gênero seria – para ela – um sistema de significados predicados e inscritos sobre a (falaz) dicotomia conceitual de dois sexos biológicos. Mas De Lauretis afortunadamente não para aí: seu golpe de mestre foi igualar “gênero” e “ideologia” (Althusser). Tente substituir os termos: a substituição funciona sempre.

Sujeito feminista (1987)

De Lauretis refletiu muito sobre as condições e possibilidades de/do ser feminista (creio que Elizabeth Grosz é quem melhor retoma suas reflexões). Foi há duas décadas, é verdade, mas voltar a lê-la em profundidade nos faria muito bem. A partir de sua discussão com outras teóricas, ela chegou à conclusão de que o “sujeito feminista” é aquele que recusa, não pode ser senão um sujeito em um processo de definição constante: não tem a priori possível que assinale “o feminista” (o olhar sempre tem que estar situado, localizado. A universalidade é impossível.). Mas, além disso, o sujeito feminista é muito consciente de estar sempre dentro e fora da ideologia de gênero: “sempre será en-gendrado ali”. Isto é, “em outro lugar”. É um paradoxo. Assim, para o sujeito feminista, habitar a contradição, tensionar a negatividade crítica da teoria e a positividade afirmativa de suas políticas, não é apenas uma condição histórica da existência, mas também a condição teórica de sua possibilidade. Ainda há outro detalhe: para De Lauretis, “é através do feminismo que a identidade lésbica pode ser assumida, fazer-se discurso e articular-se em conceito político”.

Dizer lésbica (1987/1994)

Em “Assuntos excêntricos”, De Lauretis argumenta – e para isso seguia Monique Wittig –, que o termo “lésbica” não se refere, simplesmente, a uma mulher lésbica. Em vez disso, é o termo conceitual e teórico de uma forma de consciência feminista que só pode existir no “aqui e agora”, uma posição “excêntrica” alcançada por meio de práticas de deslocamento político e pessoal através dos limites das identidades sociossexuais, e entre corpos e discursos. Mas – como é seu costume –, De Lauretis não para aí. Em 1994, retoma Freud para refletir em torno do lesbianismo de outro ângulo. Ela seguirá sustentando que o “lesbianismo” é uma estruturação particular de um desejo que potencializa o sujeito sexuado mulher e representa a possibilidade de acesso a uma sexualidade não recuperável por uma economia libidinal falocêntrica. Ou seja, não seria apenas autônoma com relação ao homem, mas implicaria uma produção diferente de referentes e significados. Mas, além disso, reconhecerá que a identidade sexual não é nem inata nem simplesmente adquirida, mas dinamicamente (re)estruturada por formas da fantasia – privadas e públicas, conscientes ou inconscientes – que estão culturalmente à disposição e são historicamente específicas. É nesse ponto que ela se concentra no que chama “teoria negativa da sexualidade freudiana” em busca de um modelo formal de “desejo perverso” que explique as representações do lesbianismo nas ficções culturais.

O sim à teoria queer (1991)

Embora, em geral, isso não seja dito, foi De Lauretis quem cunhou o conceito “teoria queer” em uma conferência que fez na Universidade de Santa Cruz, na Califórnia, em 1990. Sua intenção era reinventar os termos em que o sexual era pensado. Era uma aposta, sobretudo, política. A palavra “queer” circulava nas ruas desde os 80 e foi um gesto deliberadamente disruptivo e escandaloso juntá-lo com o “alto” conceito de “teoria”. Seus objetivos, como nota David Halperin, eram basicamente dois. Em primeiro lugar, procurava criar um sistema que permitisse deixar de pensar as sexualidades dissidentes como algo marginal em relação a uma forma estável e dominante de sexualidade (a heterossexualidade), contra a qual poderia ser definida por oposição ou homologia. Isso implicava que as “homossexualidades” não deveriam ser vistas como transgressoras ou desviadas ou ainda como um “estilo de vida opcional” que o pluralismo norte-americano defendia, mas que poderiam ser reconceitualizadas como formas socioculturais emergentes com termos próprios. Em segundo lugar, buscava pôr em evidência os pressupostos heterossexuais e de gênero que sustentam toda a teoria e o ensino nos círculos acadêmicos.

Essa proposta, evidentemente, permitiu reabrir a discussão relativa a gênero e sexualidade que teve um boom nas décadas anteriores, inaugurou mais oportunidades para os estudos transgêneros e aqueles relativos às sexualidades SM e BDSM, e possibilitou a visibilidade de expressões não normativas de gênero e sexualidade.

O não à teoria queer (1994)

No entanto, apenas três anos depois de ter proposto o novo termo, De Lauretis se retratou e retornou, insistentemente, ao termo “lésbica”. Em sua opinião, a teoria queer se havia convertido, rapidamente, em uma “criatura conceitualmente vazia, funcional para as políticas editoriais”. Curiosamente, diz ela, a teoria que propunha abraçar o “anormal”, que sustentava fundamentos radicais (anti-identitários e antiassimilacionistas), havia sido absorvida pela academia e pelo mercado como nunca o haviam sido os Estudos Gays/Lésbicos (supostamente liberais e servis ao status quo). Mas, além disso, suspeitamente, queer se patrocinava a si mesmo como uma espécie de conceito mais avançado, não apenas superando os estudos gays/lésbicos, como também o feminismo. Gesto que, claramente, De Lauretis não poderia aceitar. E, todavia, o debate segue até hoje, sobre a mesa.

 

Texto de Laura Arnés, publicado no site Página 12, em 25 de abril de 2014. Disponível no endereço: https://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/soy/1-3406-2014-04-28.html.

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

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