UM ENCONTRO COM MONIQUE WITTIG

Instruções wittiguianas: pensar primeiro em um dicionário no qual cada definição nos convide a fazer explodir certezas; em que cenários fantásticos são desenhados – ilhas improváveis e, por isso, maravilhosamente monstruosas. Um pequeno Larousse de e para amazonas, suas éguas, suas amantes em fuga… Dicionário-mapa, bússola, nave espacial. Imagine agora um corpo, muitos corpos onde se possam inscrever definições abertas, mitologias poderosas, uma anatomia-cavalo de Troia, uma hibridação constante que se resista a ser classificada e que interpele das entranhas as identidades imutáveis: “ser mulher”/“ser homem”.

Pensar então em Monique Wittig, em seus ensaios, em suas ficções nômades, e descobrir uma língua lésbica e afiada que constrói mundos para que as desclassificadas da Terra habitem. Esse foi o eixo que se propuseram seis teóricas do (pós-)feminismo para recuperar tudo o que há de revulsivo e politicamente vital em Wittig. As lésbicas (não) somos mulheres: em torno de Monique Wittig (Beatriz Suárez Briones, Ed. Icaria, 2013. Tradução livre) é uma homenagem e também o reconhecimento por parte das seis autoras (Beatriz Suárez Briones, Elvira Burgos Díaz, Isabel Balza Múgica, María Jesús Fariña Busto, Aránzazu Hernández Piñero e Gracia Trujillo Barbadillo) da influência encantadora que Monique teve em suas vidas e em seus ativismos.

Não se nasce mulher, se (des)faz[i]

A rota é intensa e complicada: essas amazonas em fuga nos propõem começar historicizando a figura esquiva de Monique. No início, somos apresentados pela compiladora Beatriz Suárez Briones a Simone de Beauvoir e O segundo sexo, à referência de que não se nasce uma mulher, mas se torna uma mulher. Duas décadas depois, no Maio de 68 e Stonewall de permeio, estava também em Paris a senhorita Wittig e suas camaradas do lesbianismo radical, desertoras para sempre de uma militância de esquerda, do machismo de seus companheiros trotskistas, desse olhar que as nomeava como “não de todo mulheres” em virtude de sua orientação sexual. (Diz Monique: “Mas então estávamos orgulhosas disso, porque na acusação já havia uma sombra de triunfo; o reconhecimento, pelo opressor, de que ‘mulher’ não é um conceito tão simples, porque para ser uma era necessário ser uma ‘verdadeira’”.) O coquetel que emergiria da soma desses desafios seria o feminismo lésbico dos anos 1970, uma opção política que postulava a lésbica como o único sujeito fora do controle patriarcal. Assim, a desnaturalização da heterossexualidade se punha em marcha, pelas mãos do Front Homosexuel d’Action Révolutionnaire (FHAR) na França e das estadunidenses Radicalesbians e The Furies, entre outras. Pronto, Monique se separaria do FHAR para fundar Les Gouines Rouges [As lésbicas vermelhas, em tradução livre]. Em 1978, ela compôs “O pensamento hetero”[ii], uma espécie de manifesto fundador da teoria queer.

De porquê as lésbicas não serem mulheres

Entender Wittig em sua potência política implica analisar as categorias sexuais como instrumentos de opressão que se materializam normativizando corpos. Nada existe de natural nos corpos de homem e de mulher construídos e dotados de significados nesse sistema. Assim – comenta Elvira Burgos Díaz –, não apenas não se nasce mulher: a questão que reclama Wittig, separando-se de Beauvoir, é que não se deve chegar a ser uma mulher, se é que nosso propósito é erradicar a opressão. A partir de uma abordagem materialista que ruborizaria uma boa quantidade de marxistas, Monique fala de uma classe social de mulheres e fantasia sobre uma ditadura de guerreiras amazonas – mulheres fugidas de sua classe – que faria voar em mil pedaços a sociedade dividida binariamente em gêneros. Então, talvez a figura da lésbica, diz Burgos Díaz, tenha um sentido metafórico: uma subjetividade não heteronormativizada, uma identidade política fluida e corrosiva. Porque, depois de tudo, essa lésbica – mesmo que nômade devota – nem está perdida nem vive no deserto. “Lesbianizar o mundo” converte-se assim em um compromisso para desmantelar o universal humano que nega e invisibiliza o particular, o singular, o diferente.

Meu direito de ser um monstro

Já desapegadxs de todo essencialismo mulher-homem, Isabel Balza Múgica faz uma revisão do multiforme bestiário queer, do ciborgue de Donna Haraway ao nômade de Rosi Braidotti e à lésbica sensualmente monstruosa de Wittig em El cuerpo lesbiano. Recuperar Wittig é também aliar-se às identidades híbridas, as vozes que se constroem pelas margens, pelos lugares abjetos, recauchutando o que o sistema nos deixa. Identidades e vozes que são antes de tudo um corpo, um corpo distinto, orgulhoso, exultante. Há em Wittig uma genealogia bestiária, um álbum de família no qual não faltam amazonas, mulheres barbadas, vampiras e medusas. A reivindicação urgente de Monique pelo monstruoso responde a uma necessidade de nomear-se afirmativamente: mulheres “abjetas, masculinizadas, agressivas, sedutoras, lésbicas (…) que não respondem ao ideal de mulher submissa e heterossexual que necessita da sociedade patriarcal”. A própria linguagem de Wittig é estrategicamente monstruosa, subversiva, híbrida; ela rompe as fronteiras de gênero, joga com a gramática, descompõe até o limite do imaginável as sílabas das palavras.

Escrever o desejo

Metáfora ou não, Monique fala de e para o desejo lésbico. Uma vez que escrever esse desejo tem sempre algo de inédito, os recursos aos quais ela apela fazem saltar pelos ares todos e cada um dos esquemas heterocentrados. Arianzázu Hernández Piñero reflete assim sobre a linguagem dissecante de Wittig e o amor como corpo esfolado, revirado, gotejante de fluidos visguentos, hediondos. Um corpo desejante que em sua necessidade de desconstrução é desmembrado e remontado, todo um território erótico que excede, transborda a pura genitalidade.

Wittig e o depois: interseccionalidades de classe, raça, etnia, (trans)gênero

Na última parada do percurso, Gracia Trujillo Barbadillo reflete sobre a vigência do pensamento wittiguiano e as ferramentas com que nos brinda para pensar as lutas a que nos convocam. Para ela, a potência do lema “as lésbicas não somos mulheres” reside no fato daquilo que o eixo de análise encoraja: a questão não é defender um feminismo da igualdade ou da diferença, mas até que ponto a heterossexualidade obrigatória é um regime político e como o gênero está configurado no marco da heteronormatividade: “A heterossexualidade se tem constituído historicamente como a única sexualidade natural, respeitável, legítima, visível (…). Outras opções sexuais (não heterossexuais) e outros corpos (não heteronormativos) não importam, e quando essas vidas intentam ser habitáveis/visíveis, o preço a pagar é alto”. Definitivamente, é um desafio que nos tira do eixo, e não há feminista que não se sinta interpelada a revisar qual é o tema do feminismo a que uns atribui. Essa é a aposta wittiguiana de Trujillo Barbadillo, que pede uma revisão da institucionalização dos feminismos e das reivindicações de gênero na medida em que perdem de vista essas outras mulheres: as não-brancas, as pobres, as gordas. É também reconhecer as linguagens que Wittig nos convida a habitar, esse espaço de possibilidade aberto a outras, a outros, não heterossexuais, nem heteronormativos. Obrigadx, Monique.

 

Resenha de Gabriela Mitidieri para o livro Las lesbianas (no) somos mujeres: em torno de Monique Wittig, de Beatriz Suárez Briones (ed.), Elvira Burgos Díaz, Isabel Balza Múgica, María Jesús Fariña Busto, Aránzazu Hernández Piñero e Gracia Trujillo Barbadillo.

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

[i] Aqui há um jogo de palavras feito pela sonoridade e pelo sentido que na língua portuguesa fica atenuado: nacer (nascer) e hacer (fazer) – além da alusão clara à famosa frase de Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

[ii] Uma tradução desse ensaio pode ser encontrada no endereço <http://www.cidadequeer.lanchonete.org/wp-content/uploads/2016/06/Wittig-Monique-O-pensamento-Hetero_pdf.pdf>.

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