Homenagem a Martin Luther King em Lyon

Uma exposição dedicada a Martin Luther King é uma oportunidade para destacar, além do famoso pastor, outras figuras menos conhecidas da luta pelos direitos civis de pessoas afro-americanas, notadamente mulheres e pessoas LGBTQIA.

O fim da Primeira Guerra Mundial, o Maio de 68, a Primavera de Praga, os Jogos Olímpicos de Genebra e México… 2018 se anuncia como um ano particularmente rico em aniversários e comemorações, oficiais ou não. Dia 4 abril fez 50 anos que Martin Luther King (1929-1968) foi assassinado no Lorraine Motel, em Memphis, no Tennessee, pelo supremacista branco James Earl Ray. Uma exposição na Biblioteca Municipal de Lyon presta homenagem a ele e lembra que o Prêmio Nobel da Paz de 1964 foi à capital dos gauleses para um encontro na Bolsa de Valores, em 29 de março de 1966.

Vários fragmentos são necessários para traçar a vida e a obra do ativista afro-americano. Um recorda a Marcha sobre Washington por emprego e liberdade, em 28 de agosto de 1963, após a qual ele fez seu famoso discurso “Eu tenho um sonho” em frente ao Lincoln Memorial. Outro analisa duas atividades pastorais na Igreja Batista, tanto que seu compromisso político é inseparável de sua fé.

Um terceiro tece ligações inesperadas entre o nativo de Atlanta e a cidade de Lyon. A exposição apresenta fotos de sua chegada à Bolsa de Valores, em 1966, a convite de 27 associações, e outras imagens tomadas dois anos depois, quatro dias após seu assassinato, por ocasião de um comício em sua memória organizado em frente ao monumento Veilleur de pierre, na praça Bellecour. É lembrado também que, desde 2009, um espaço, decorado em 2011 com um busto do pastor, lhe foi dedicado no Parc de la Tête d’Or.

Mulheres, as principais atrizes do movimento pelos direitos civis

A exposição contextualiza as lutas de Martin Luther King, com referências históricas ao período que vai “da escravidão aos Panteras Negras”. Nesta ocasião, destaca alguns ativistas menos conhecidos pela luta dos direitos civis, na qual as mulheres desempenharam um papel determinante desde o início. Há, claro, Rosa Parks (1913-2005), célebre por ter se recusado a ceder seu lugar a um homem branco em um ônibus em Montgomery (Alabama), em 1° de dezembro de 1955.

Há também Harriet Tubman (1820-1913) que, nascida escrava, lutou contra a escravidão e pelo direito de voto das mulheres (alcançado nos Estados Unidos apenas em 1920, após sua morte). Em 2016, em seguida a uma mobilização maciça de feministas, o Secretário do Tesouro de Barack Obama, Jack Lew, anunciou que Tubman seria a primeira mulher negra a figurar em uma cédula do banco americano (a de 20$). Mas a decisão foi anulada após a eleição de Donald Trump.

Entre as ativistas afro-americanas mais proeminentes está também Angela Davis. Antirracista, anti-imperialista, marxista, vegana, feminista, lésbica, Davis é uma militante sempre muito ativa politicamente, uma encarnação viva das ideias de convergência de lutas e interseccionalidade.

“Bons” e “maus” ativistas

Davis não foi a única pessoa LGBTQIA a se envolver no movimento pelos direitos civis nos anos 1960 e 70. A questão sobre a orientação sexual de Malcolm X (1925-1965), por exemplo, ainda levanta debates e controvérsias. Alguns biógrafos afirmam que, em sua juventude, o futuro ativista da Nação do Islã (à qual ele baterá à porta um ano antes de seu assassinato) teria feito sexo (por dinheiro, mais frequentemente) com homens (afirmações contestadas por sua família). Ele nunca foi identificado como bissexual, muito menos gay.

De qualquer forma, sua presença em uma exposição principalmente consagrada a Martin Luther King constitui uma boa ocasião de ir além da dicotomia estéril e maniqueísta pela qual se opõe frequentemente os dois homens (que se encontraram apenas uma vez, em 26 de março de 1964). Se suas diferenças políticas são incontestáveis (Malcolm X repetidamente fez críticas públicas virulentas a Luther King), não deixa de ser impressionante o quanto cada um dos militantes, em seus últimos meses de vida, evoluiu em uma direção que o aproximou um do outro.

A ênfase nas oposições (reais, de fato) entre os dois homens, e não no que poderia aproximá-los, frequentemente aparece como um meio pernicioso de estabelecer uma hierarquia de juízos e distinguir o “bom” (King) do “mau” (X, julgado “muito radical”) ativista dos direitos civis. “É a vitória de Martin Luther King sobre Malcolm X”, entusiasmaram-se alguns editorialistas após a eleição de Barack Obama em 2008…

James Baldwin, amigo de Malcolm X e Martin Luther King

Se a orientação sexual de Malcolm X ainda está sujeita a debate, não há nenhuma dúvida, em contrapartida, sobre a de James Baldwin (1924-1987), já que o escritor nunca escondeu ser gay. De volta aos holofotes no ano passado, quando se celebrou 30 anos de sua morte, em um formidável documentário do diretor haitiano Raoul Peck (Eu não sou seu negro) e, mais recentemente, pela peça que a diretora Élise Vigier adaptou de seu romance Just Above My Head, Baldwin foi amigo tanto de Martin Luther King quanto de Malcolm X. Ele foi, acima de tudo, um escritor e intelectual comprometido com a emancipação dos afro-americanos, mas também dos homossexuais.

Bayard Rustin, uma engrenagem discreta mas essencial da luta

Negro e gay, ativista pelos direitos de afro-americanos e de homossexuais – é também o caso de Bayard Rustin (1912-1987), embora sua trajetória política seja muito diferente da de Baldwin (após ter aderido ao Partido Comunista em sua juventude, Rustin se tornará, com a idade, um feroz anticomunista e um neoconservador). É ele quem, desde o boicote aos ônibus em Montgomery (desencadeado pela ação de Rosa Parks), em 1955-1956, apresentou a King, de quem permaneceu próximo até sua morte, os princípios da não-violência, que ele próprio iniciara em seguida a uma viagem à Índia, em 1948.

Após sua prisão, em 1953, por ter mantido relações sexuais com outro homem, sua homossexualidade se tornou conhecida de todos e ele se viu sujeito à homofobia não apenas dos supremacistas brancos, mas também de uma parcela de seus camaradas de luta, que temiam que sua orientação sexual desacreditasse o movimento a favor dos direitos civis junto à opinião pública. Por esse motivo, ele permaneceu à sombra dos grandes líderes. Não obstante, foi uma engrenagem essencial nesse combate nos anos 1950 e 60 e um dos principais organizadores da Marcha de Washington. Nos anos 80, ele engajou-se na luta pelos direitos LGBT.

As escolhas do curador

A exposição da Biblioteca Municipal de Lyon permite assim iluminar não apenas Martin Luther King, mas também as mulheres e pessoas LGBTQIA que, como ele, lutaram pela emancipação dos afro-americanos. Nada admira que o curador da exposição seja Michel Chomarat, ex-secretário de Gérard Collomb na época em que ele era prefeito de Lyon, cujo interesse por tudo o que se relaciona à homossexualidade é bem conhecido: é inclusive a ele que devemos as exposições (também na biblioteca pública) Follement gay [Loucamente gay]Genet ni père ni mère [Genet, nem pai nem mãe] e Pasolini, una vita violenta [Pasolini, uma vida violenta] Just Above My Head

 

Reportagem de Romain Vallet, publicada em 7 de fevereiro de 2018 na revista Hétéroclite. Disponível em http://www.heteroclite.org/2018/02/martin-luther-king-exposition-lyon-bm-49219

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

 

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