“A identidade sempre é um processo, não um produto final.”

A ideia central das teses de Avtar Brah – os corpos carregam consigo uma série de fronteiras – é uma sugestiva e reveladora ferramenta para responder a perguntas como quem somos e para onde vamos.

Aposentada recentemente como professora de Sociologia no Birbeck College da Universidade de Londres, Avtar Brah tem focado suas investigações sociológicas nos conceitos de raça, gênero, etnia e identidade. Ela estudou as discrepâncias entre diferença e diversidade, sempre a partir de uma perspectiva feminista e de variados contextos. Além do trabalho docente e da investigação acadêmica, Brah também dedicou sua vida ao ativismo e a diferentes projetos editoriais e políticos.

Em Cartografías de la diáspora (Traficantes de sueños, 2011, originalmente publicado em 1996), um de seus livros mais importantes, Brah analisa como se relaciona o poder através de suas multiplicidades e modalidades para tentar entender a constituição e a transformação do tecido social e as identidades. Para isso, serve-se de conceitos como raça, etnia, nação, geração, sexo, classe, lugar ou identidade. Ela trata de assuntos como diáspora, a identidade ligada ao lugar de origem, mas também da identidade criada a partir da origem dos ancestrais, dos processos coloniais, do racismo, da alteridade ou dos processos de integração.

Seu pensamento é um sopro de ar fresco em tempos convulsionados, em que palavras como democracia, fronteiras, identidade ou globalização quase perderam o sentido, prostituídas por aqueles que sempre querem ter razão.

Em uma inspiradora conversa no ciclo Micro-histórias da Diáspora, organizada por La Virreina Centre de la Imatge, em Barcelona, Brah fala da individualidade variável, ou dizendo de outro modo, a identidade flutuante, das fronteiras psíquicas – as de nosso corpo, as que trazemos desde que nascemos, mas também aquelas criadas a partir das vivências e experiências que vamos absorvendo e carregando –, aquelas que se tornam marcadores de identidade e que portam/deixam significados. A ideia central de seu pensamento: os corpos trazem em si as fronteiras.

 

 

Você tem uma biografia muito particular: nasceu na Índia, mas cresceu em Uganda. Como isso influenciou sua obra e seu pensamento?

A influência foi total. Me dei conta disso quando escrevia Cartografías de la diáspora. Esse foi o momento em que realmente estive consciente de que eu havia crescido em uma diáspora que havia influído toda minha personalidade e minha maneira de pensar e ver o mundo. Além de Uganda, também estive estudando na Califórnia durante quatro anos, em Wisconsin durante um ano e finalmente estabeleci-me na Inglaterra, onde vivo atualmente. Todo esse périplo influenciou meu pensamento e minhas pesquisas acadêmicas, mas também meu posicionamento político. Meu pensamento feminista se cristalizou durante os anos 1970, quando o movimento começou a ganhar força. No entanto, já durante a adolescência, eu havia me colocado algumas questões relativas a gênero e mulheres. Sempre tive consciência de classe e sempre tive presente como se relacionava classe e poder.

 

Como foi viver o movimento de direitos sociais, o movimento Black Power ou o movimento hippie nos Estados Unidos?

Foi transformador, sobretudo o Black Power. No momento em que tudo estourou, eu morava em Davis, perto de San Francisco. Os Panteras Negras eram muito ativos e também havia outros movimentos pelos direitos sociais. Também nesse momento, os chicanos entraram em greve para reivindicar condições de trabalho mais justas. Eu me aproximei de todos esses movimentos e desse contexto quando começava minha pesquisa acadêmica. Isso, ligado a minhas inquietudes iniciais, foi o motor de minhas investigações sociológicas.

 

Deve ter sido vibrante viver tudo isso.

Sim, de fato, também fui influenciada pelo movimento de oposição à guerra do Vietnã, liderado pelos estudantes. Fui a um monte de manifestações! Por outro lado, havia o movimento Flower Power, que pouco tinha a ver com os outros. Os Panteras Negras e os hippies não tinham nada a ver, mas suas ideias confluíam nas ruas de San Francisco, e eu me sentia atraída por tudo aquilo. Sempre me senti atraída pela militância e o ativismo, mas também pela política do cuidar, do amar uns aos outros.

 

Uma confluência de ideias e identidades, um conceito que você trabalhou de maneira extensa. Em Cartografías de la diáspora, e também em outros escritos e conferências, você fala das identidades flutuantes e dos contextos. Como podemos chegar a saber quem somos se nossa identidade está em contínuo movimento?

A maneira como os outros nos veem tem grande efeito sobre como nos vemos a nós mesmos. De um lado, existe a dimensão psíquica da identidade, que é basicamente subjetiva e inconsciente: as relações sociais, nossas emoções, a maneira como nos comportamos etc. A identidade psíquica sempre é um processo, não um produto final. Não é algo voluntário, não se decide ser de uma maneira ou de outra. Você pode dizer: eu sou assim ou assado, mas isso não deixa de ser uma proclamação de uma autopercepção, é a identidade política que você adota face aos outros. Tudo isso é subjetivo.

Por outro lado, existe a dimensão física da identidade, que é objetiva. Os corpos carregam consigo uma série de fronteiras, dependendo da raça, etnia, classe social, gênero etc. Unindo essas duas dimensões do conceito, pode se dizer que a identidade é sempre uma construção política.

 

Como os espaços hostis afetam a identidade? Quero dizer, o racismo, a xenofobia, o machismo, a rejeição…

Nesse contexto se produz um choque, um problema, porque a pessoa então duvida de sua identidade. Como sempre digo, nossos corpos carregam fronteiras. Tudo o que nos acontece durante a vida, nossas experiências, nosso contexto, fica inscrito em nosso corpo. O corpo é físico e simbólico: se você é negro, e se a negritude tem toda uma história por detrás, se ela tem um simbolismo, você não pode se desprender disso. O corpo é um ente político também. No momento em que te param em uma batida policial apenas por causa da cor de sua pele, teu corpo se converte em um ente político. Também o corpo da mulher carrega isso consigo: o fato de ser mulher condiciona todas as nossas ações.

 

Vamos falar sobre o movimento feminista. Durante o 8 de março deste ano, na Espanha, houve grandes manifestações de mulheres. Houve um coletivo de mulheres, Afroféminas, que se desligou da reivindicação por se sentir excluído. Como o feminismo ocidental se relaciona, ou não, com os outros feminismos?

Creio que o feminismo deveria estar unido e ser universal, mas entendo perfeitamente que haja coletivos feministas que não se sintam incluídos no discurso do feminismo ocidental. Creio que seja uma questão de solidariedade. E a solidariedade apenas é conseguida tratando o outro, a outra, como iguais e incluindo-as em teu discurso. É nesse sentido que ninguém se sente o outro ou a outra, para fazer desaparecer a alteridade.

O feminismo ocidental está atravessado pelo privilégio de ser branca, caucasiana, e isso afeta, é claro, as relações de poder. Quando há relações de poder de entremeio, é normal que haja uma parte que não se sinta contemplada, provocando então uma situação de desigualdade. É uma questão complexa, mas ela está aí e temos que tratá-la e redirecioná-la, fomentando uma política de solidariedade. Todos os privilégios supõem um problema, e nesse caso, o privilégio branco não é uma exceção.

 

Esse privilégio não deixa de ser um dos componentes sociais mais importantes e, enfim, ele estrutura nossa sociedade.

Exatamente.

 

Qual a sua percepção sobre a ascensão da extrema-direita na Europa?

Essa é uma pergunta difícil, porque não há uma única resposta. Temos novos regimes liberais capitalistas que operam de maneira sutil para nos dividir. As classes populares sofrem com pobreza, desemprego e diferentes problemas sociais. É uma classe precarizada, e não apenas as classes trabalhadoras, mas também o que se considera classe média. Há muita gente nas cidades vivendo abaixo do nível da pobreza! Nessas condições, é fácil culpar alguém; nesse caso, você culpa o outro, que é diferente. Para entender a ascensão da extrema-direita temos que dar uma olhada no contexto econômico e social que nos divide. Temos que acabar com a pobreza, criar postos de trabalho e uma sociedade que cuide. Em suma, você tem que investir em pessoas.

 

Como entender a vitória de Trump? Parecia impossível, mas ao final ele se tornou presidente. É incrível que os Estados Unidos tenham um presidente como Trump, não?

Os Estados Unidos são um país de imigrantes, mas parece que ali os brancos esqueceram sua história. Eles já não se veem a si mesmos como migrantes. Melania Trump, sem precisar ir mais longe, é uma imigrante. Se ela pode viver nos Estados Unidos, por que os outros não podem? Uma vez mais, temos que olhar o contexto econômico e social.

O racismo tem uma dimensão econômica e cultural, e também identitária. Não se pode ignorar a história racial dos Estados Unidos, um país com uma longa trajetória de racismo e discriminação, a começar pelo tratamento que recebem dos First Nation. Se alguém pode falar sobre o pertencimento a uma terra, estes são os índios americanos, a maioria confinada em reservas em condições lamentáveis.

 

Mas vindo de Obama… parece estranho que seu sucessor seja Trump.

Bem, os dois mandatos de Obama não estiveram isentos de problemas, ele também deportou um bom número de migrantes e suas tropas estiveram presentes em diferentes guerras e conflitos. Houve conflitos de classe, de gênero, raciais… Hillary Clinton foi secretária de Estado e, em seguida, uma candidata muito autoritária! A popularidade de Trump também tem a ver com as pessoas que ficaram desencantadas com a presidência de Obama.

 

É um fenômeno sociológico interessante. Classe trabalhadora e classe média votando em um bilionário.

É um tema de empatia. Trump convenceu a classe média de que vai ajudá-la a prosperar.

 

O populismo.

Sim, populismo juntamente com a cultura norte-americana da meritocracia, o Yes, we can.

 

Você acredita na meritocracia?

Não, não acredito. Creio que algumas sociedades são mais abertas que outras, e nelas as pessoas comuns podem alcançar determinados postos de poder. Em termos gerais, carregamos nossos próprios contextos e identidades, e o poder sempre é ocupado pelos mesmos. Há muitos estudos sociológicos que falam sobre como as classes trabalhadoras aceitam o domínio das classes poderosas. Não, nem todos aceitam. Mesmo que nos façam acreditar de outra forma, há várias barreiras e obstáculos. Para começar, vivemos em sociedades racistas, homofóbicas, sexistas, cheias de estereótipos… Não, não acredito na meritocracia.

 

Em Cartografías de la diáspora, você reflete longa e duramente sobre o conceito de diáspora e diz que nem sempre se tem que ser dramático, que a migração não tem porque ser um ato traumático.

Há condições de migração que não causam trauma. Se você é um refugiado/a, encontrará essa experiência traumática; mas, por outro lado, a diáspora sempre oferece um novo começo e esperança, é uma nova vida. É contraditório, eu sei. O fator esperança é importante: há cada dia, centenas de pessoas arriscam suas vidas, sabem que podem morrer no caminho para encontrar uma vida melhor. Isso é esperança.

 

Nos processos migratórios, às vezes, acontece uma coisa curiosa: a idealização do lugar de origem, um lugar de onde você fugiu, por diferentes motivos. Como se explica isso?

Sim, isso ocorre. Quando você está longe de casa, tende a idealizar seu lugar de origem, o lugar de onde, é claro, você fugiu: porque não era seguro, porque não encontrava trabalho, por qualquer outra razão. Isso também se passa com filhos e filhas de migrantes, que costumam idealizar a pátria de seus antecessores, inclusive sem tê-la conhecido. Por outro lado, também há filhos e filhas de migrantes que rejeitam a pátria original da família, que a veem como algo distante que não lhes diz respeito. Nós humanos sempre tendemos a idealizar o que não temos, um país, um passado… De qualquer maneira, quando se retorna ao lugar de origem, o migrante se dá conta de que sua casa não é isso, mas seu novo país, sua nova cidade, ali onde ele/ela construiu sua vida.

 

Finalmente, não posso deixar de perguntar sobre sua opinião a respeito da ascensão do movimento independentista catalão. Como você acredita que irá se desenvolver essa situação?

Teve muita gente votando no referendo e muita gente nas manifestações, tanto de um lado quanto de outro. Isso é o que tenho lido. Creio que é um tema muito complexo, com muita história por detrás. Vejo as pessoas entusiasmadas, mas não tenho uma opinião forte a respeito do tema… Como você, que é catalã, vê?

 

 

Entrevista a Queralt Castillo Cerezuela publicada em El Salto, em 9 de abril de 2018.

 

 

O livro Cartografías de la diáspora está disponível para download no endereço https://www.traficantes.net/sites/default/files/pdfs/Cartograf%C3%ADas%20de%20la%20di%C3%A1spora-TdS.pdf

 

 

Tradução: Luiz Morando

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