“Não há declaração mais feminista que reconhecer a interdependência?”

Ela tem o rosto sério. Seu nariz afilado e as sobrancelhas retas formam um T perfeito. Seu cabelo é grisalho, nem curto, nem comprido. Ela usa jaqueta e calças pretas ajustadas ao seu tamanho. Não é nem homem, nem mulher e as duas coisas ao mesmo tempo. Que importa! Judith Butler está acima dessa divisão, com modéstia suficiente para assumir que esse binarismo não desaparecerá porque ele é a ponta de lança de sua disputa na atualidade. Ela esteve na semana passada no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB) para falar sobre a ética da não violência e se somos ou não adultos, mas sempre pela ótica de gênero. O que podemos aprender com ela?

 

“Não me poupo desconfortos”, ela disse assim que assumiu o lugar de conferencista. E começou concluindo – “afinal, é o Estado que, de forma violenta, vem nos dizer quem são os violentos” –, para em seguida decompor tudo e nos conduzir a outro lugar. Marina Garcés, filósofa (de guerrilha)[i], apresentou-lhe referências claras sobre o que vem acontecendo na Catalunha nos últimos meses. Assim, com os aforismos claros e a atualidade, Butler desceu aos conceitos mais básicos, de modo a que todas que estivemos no encontro os desconstruíssemos juntos para sairmos mais fortalecidos.

Para entender a não violência, uma teórica das identidades teria que começar perguntando quem éramos, nós que estávamos ali, numa tarde de abril, no saguão do CCCB. Somos humanas e “há algo que nos une para estarmos todas ali”, porque senão não seríamos; no entanto, não poderíamos nos considerar da mesma região, cidade ou estado, mesmo que fôssemos. O que ficou claro é que não éramos autossuficientes, porque essa teoria do homem autossuficiente já é, por si só, ridícula e sexista.

Primeiro ponto-chave: homens em ilhas, que não precisam de ninguém ou nada, são um absurdo. A teoria que os apresenta assim “esquece que as pessoas não nascem adultas”. As meninas nascem e passam de uma mão a outra, literalmente, até que aprendem a comer, caminhar ou falar, algo que leva anos para ser feito. Essa reflexão tão óbvia não existe no contrato social sob o qual nos relacionamos. Nossas leis e normas sociais são baseadas nesse modelo no qual somos seres individuais e adultos que não dependem uns dos outros e nunca foram dependentes. Mas é essa dependência que nos torna iguais. Precisamos dos outros para ser quem somos, porque desde pequenos precisamos que nos alimentem e nos mantenham de pé; quando maiores, precisamos de supermercados, fabricantes de cozinhas, pavimentos e semáforos para o mesmo. Quem pode então pensar que somos autossuficientes?

Se a essa altura você seguir o tópico que a própria Butler se colocou na palestra, você estará prestes a entender essa tendência. Segundo ponto-chave: A única maneira de sobreviver é estar ciente da dependência. A única maneira de assegurar que vivemos em igualdade é aceitar a dependência e nos tornar ainda mais dependentes. Apenas se os governos souberem, de verdade, que dependem uns dos outros, poderão lutar contra a mudança climática, que é global. Se eu poluo o meu país, estou fazendo isso em todo o mundo. Esta água contaminada alcançará o mundo inteiro. O ar que contamina um país na outra parte do mundo logo será respirado aqui.

Tomar decisões globais é difícil. Mas é em direção a isso que temos que avançar. E só há um caminho: aceitar a dependência e, com isso, a vulnerabilidade. É difícil nos convencermos de que ser vulnerável é bom quando vivemos em um sistema capitalista que busca que sejamos especialistas em tudo para que não tenhamos que pedir ajuda a ninguém. Mas se o que queremos é ser igual e avançar juntos, só podemos aceitar que dependemos uns dos outros igualmente. Saber que necessitamos do outro e o outro de nós é a única maneira de avançar sem pisar nas pessoas, basicamente. Essa é a verdadeira chave de tudo.

Trata-se de reconhecer que dependemos dos outros e que os outros dependem de nós. Do contrário, estaríamos falando de colonização. O problema não é estar vulnerável, mas que alguém explore essa vulnerabilidade. Que o Estado nos abandone política e economicamente é a tradução dessa exploração. Ao mesmo tempo, o que nos une a pessoas de outras partes do mundo com as quais não compartilhamos normas nem sistema legal é o abandono. Devemos encarar: somos todas igualmente vulneráveis.

Nesse abandono, nessa possibilidade de que aquilo de que dependemos se comporta de maneira imprevisível, de uma forma que não podemos controlar e que nos fere, é onde nasce a agressão. A melhor maneira de combater essa violência não é cuidando mais de nós mesmas, mas sim dependendo mais, sendo mais vulneráveis. Da mesma maneira, o mais efetivo para lutar contra a violência é a não violência, a resistência. Ser vulneráveis, defender os cuidados, é o modo como acabaremos com essa “masculinidade indiferente” que mata para se defender. Vamos acabar com isso quando todos aprenderem que matar o outro é matar a nós mesmos, porque todos cuidamos de todos e dependemos de todos. Soa inocente, mas não é o fato de sermos sociais e nos apoiarmos uns aos outros o que nos diferencia do resto dos animais? Não há declaração mais feminista que reconhecer a interdependência?

A dependência limita a destruição e potencializa a ética, é o que Butler veio nos falar. Temos que repetir isso mais porque, no momento, carregar tudo é a coisa mais normal do mundo. Aqueles que protestam são os vulneráveis que se aliaram e constituem a resistência. E sentir-se abandonado é quando se entende que a não violência é a melhor maneira de lutar contra a violência. Resistir é também um ato violento, porque se luta quase sempre contra um poder legal e a violência deve ocorrer para se opor a isso. Para resistir, para se opor sem violência, você tem que cultivar o ódio e aprender a transformá-lo. Disseram a Butler que essa afirmação era fraca. Então, o T de seu rosto sério mudou, dando lugar a um sorriso e contestou: “é isso o que quero, ser mais fraca”. É aí que reside a força. E quanto mais cedo soubermos, melhor.

Reportagem de Esperanza Escribano publicada em El salto, 24 de abril de 2018. O original está disponível em:

https://www.elsaltodiario.com/gsnotaftershave/judith-butler-yo-quiero-ser-mas-debil

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

[i] Filosofía inacabada (2015) e Fuera de clase: textos de filosofía de guerrilla (2016) são dois livros publicados pela filósofa Marina Garcés. No primeiro, Garcés apresenta os pressupostos filosóficos do que é chamado ‘filosofia de guerrilha’. No segundo, a autora pratica esse tipo de filosofia. Grosso modo, a filosofia de guerrilha é uma forma de pensar radicalmente sobre o que somos e fazemos, através de perguntas inesperadas com consequências imprevisíveis.

O prólogo de Fuera de clase pode ser lido neste link: http://www.galaxiagutenberg.com/wp-content/uploads/2017/08/Fuera-de-clase_rus_web.pdf.

A autora tem uma página pessoal no endereço http://www.marinagarces.com/2016/10/fuera-de-clase-textos-de-filosofia-de.html.

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