“Não temos que limpar Woody Allen para que seus filmes sejam bons”

“Sempre me impressionou a semelhança entre a parte promocional de meu trabalho e o ato de prostituir-se.” Virginie Despentes escreveu isso há 12 anos em seu poderoso manifesto feminista Teoria King Kong. Há 27 anos ela era prostituta. Trabalhou em uma loja de discos, foi punk, dormiu na rua, foi estuprada aos 17 anos quando pedia carona, é dj, bebeu muito, deixou de beber e se tornou lésbica. Ela publicou uma dezena de romances, recebeu muitos prêmios e dirigiu três filmes. Sua trilogia Vernon Subutex, um diorama social sobre um velho roqueiro convertido em guru de uma subcultura baseada nas raves, vendeu mais de 500.000 cópias. A terceira parte foi publicada agora em espanhol junto à reedição de Teoria King Kong. Despentes (nascida em Nancy, França, 1969) está em evidência. Ela não se importa que lhe perguntem mais sobre #MeToo (“uma das coisas mais importantes de que fui testemunha”) do que sobre seu romance. Embora seja francesa, ela diz “merda” o tempo todo em inglês enquanto fala um castelhano perfeito. É generosa, otimista, risonha. E hoje, a maioria de seus “clientes” somos mulheres.

Virgine Despentes Motorhead

A mídia está enviando mais mulheres jornalistas para te entrevistar?

Sim, será mais lésbicas no momento…? Com Subutex, têm enviado os homens para conferências de imprensa. Bem, para os temas que envolvem o Teoria King Kong, prefiro mulheres. Estou farta de falar com homens sobre feminismo, porque a maioria nunca prepara nada. É muito cansativo explicar tudo desde o princípio. Apenas muito recentemente tenho encontrado homens interessados.

 

Seu ensaio fala muito da emancipação masculina, a faceta da virilidade, o feminismo como uma aventura coletiva…

E ainda assim eles continuam me perguntando se odeio os homens… Se odiasse, o Teoria King Kong teria sido muito mais brutal.

Seu famoso primeiro parágrafo começa: “Escrevo para as feias, as velhas, as caminhoneiras, as frígidas, as mal comidas…” E a lista continua ao longo de páginas e inclui basicamente qualquer uma. Inclusive até os puteiros.

Totalmente! Eu o escrevi saindo da heterossexualidade, convivia com homens o tempo todo. Passei 10 anos sem tocar em um pau, imersa na cultura lésbica… Agora me interessa menos o tema, mas continuo pensando que é urgente que questionem sua sexualidade.

Há mais senhores que preferem ficar zangados com #MeToo.

Os cavalheiros defendem um mundo que acabou. #MeToo é uma ruptura, não há mais volta. Mas o discurso masculino das jovens é ainda mais ofensivo.

O que você acha da carta de [Catherine] Deneuve e das outras 99?

Shit, é difícil, eu gosto de algumas das 99… É um tema de classe alta, de idade e raça. Defendem o direito de seus homens, seus filhos, seus irmãos, de fazer o que eles quiserem. Entendo sua crítica ao puritanismo, mas não vejo a relação com #MeToo. As feministas não são responsáveis pelo fato de o Facebook não poder publicar um seio ou de que Fóllame [seu primeiro romance, logo adaptado para o cinema] apareça em e-books como F*****.

O que fazer com o trabalho de artistas agora denunciados?

O meu é o rock. O cantor do Motorhead não é um exemplo de feminismo, mas eu adoro. Gosto de Bukowski, mas não pretendo limpar sua bunda: ele bateu em sua esposa em um programa de televisão… Woody Allen tem um problema com as mulheres. Podemos ver seus filmes ou não, mas não precisamos limpá-lo para tornar seus filmes bons. Tampouco temos que pensar que o abuso não é grave, como tentam nos fazer ver…

O que você acha do termo “terrorismo machista”?

Adequado. O estupro é uma forma de terrorismo. Cada estuprador é um terrorista que trabalha para seus companheiros. Por uma ideologia. Nem todos estupram, mas todos desfrutam da força que provoca medo na mulher.

Você é uma defensora do pornô também entre adolescentes?

Você não encontrará um livro para adolescentes sobre pornografia. O problema é a sexofobia, o gueto. Vamos explicar, construir um discurso, financiar filmes melhores, positivos… Vamos fazer um pornô legal. Se com 12 anos eles assistem a filmes pornôs, deveria haver um portal pornô para adolescentes.

Os jovens têm agora uma infinidade de identidades sexuais que lembram um pouco esse mundo primitivo, sem divisões do Teoria King Kong. Intersexuais, não binários, fluidos…

Isso me encanta. Daí pode surgir uma crítica à masculinidade e também novas experiências, porque eu não tenho nenhuma fé na família tradicional.

Um novo debate sobre o corpo feminino: sub-rogação.

Não tenho uma opinião formada, mas isso toca em algo que me interessa: a gratuidade do corpo feminino. Se é um trabalho, você tem que pagar por isso. O que me surpreende é o desejo fanático que vejo por ter filhos. Inclusive entre as lésbicas. Shit, esse era nosso luxo, nosso privilégio. O que está acontecendo com você? É tudo propaganda. Meu único conselho aos jovens: não tenham filhos, já somos muitos.

Você tem contato com pessoas muito jovens?

Eu espio na Internet, vejo o que escutam, as séries a que assistem… Mas o que sentem? Como serão as meninas de 17 anos agora? Certamente, muito diferentes do que nós éramos. Haverá situações muito melhores e muito piores. Agora têm internet, muito mais informação sobre tudo e há tantas figuras públicas interessantes para seguir… Na minha época tinha apenas a Deneuve, de quem gosto, mas sempre fazia papéis idiotas, muito pouco interessantes. Eu não podia identificar-me com essa senhora. Hoje, elas têm Beyoncé, Lady Gaga, a cantora de Gossip [Beth Ditto], escritoras feministas negras estadunidenses… Mas ao mesmo tempo existe uma violência que eu não conhecia sobre a “puta”. Nos anos 80, ela não era bem vista, mas era possível… Eu me diverti, você podia lidar com isso. Agora, hoje, para uma garota como eu era na época… Shit, para uma garota hetero agora deve ser muito mais duro.

Como você escreve?

Fumando, com a música no máximo e em períodos de meia hora nos quais não entro na Internet. É superdifícil.

Olha o ódio on-line?

Faz 10 anos que não me procuro no Google. Não vejo minhas redes sociais. É muito violento, mas acredito que haverá uma solução para isso, não é possível que continue assim, as pessoas têm que poder falar sem serem ameaçadas.

Você continua olhando o horóscopo todas as manhãs?

Desde os 12 anos. Funciona? Não muito. Mas é uma maneira muito mais sutil, metafísica e complexa de distribuir as pessoas apenas do que em categorias homens/mulheres, ricos/pobres.

Serão celebrados os 50 anos de maio de 68. O que você espera da comemoração?

Não espero nada. Parece-me muito difícil para alguém como (Emmanuel] Macron defendê-lo. Não vejo como se pode celebrar estando no poder. Além disso, queremos realmente celebrá-lo? Hoje, parece mais uma derrota. A França na qual cresci era um país superinspirado; mas agora existe uma sensação de derrota. O feminismo foi a única esperança daquele movimento que não fracassou totalmente. Tudo o que foi pensado em 68 deu errado, exceto o feminismo.

Isso também pode acontecer com o #MeToo?

Acredito que daqui a 50 anos diremos: o feminismo foi realmente a aventura do século XX e XXI. Nós mudamos o mundo.

Três ideias muito simples percorrem sua obra. Primeira: a guerra é masculina.

Nós, garotas, podemos fazer uma guerra melhor, temos o hábito de não ouvir nossos desejos e nos sacrificar… Quando você é o corpo que faz dos humanos a ideia de matá-los aos milhões, não parece tão urgente assim.

Segunda: é a economia, idiota.

Já o disse Pasolini: o capitalismo é o primeiro autoritarismo efetivo e mundial. Nascemos com dúvida, somos servos. Temos que sair desse lugar, mas não temos ideia de como isso deve ser feito.

Esta talvez seja a terceira ideia: o importante é dançar.

[Risos] É sobre isso que meu romance é… Da tentativa de criar um espaço livre para onde escapar, ainda que seja por duas horas. É melhor que nada. Sim, vamos dançar!

 

Entrevista cedida a Patricia Gosálvez e publicada em El País, em 15 de fevereiro de 2018. Disponível em: https://elpais.com/cultura/2018/02/13/actualidad/1518551000_465275.html

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

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