FAMÍLIA QUEER – Entrevista com Del LaGrace Volcano

“Quando me perguntam se Mika é menino ou menina, algo que acontece o tempo todo, respondo que ainda não sei. E retruco: você quer saber qual genitália ele tem? Em geral, isso é suficiente para que fiquem em silêncio.”

 

Chapéu de cowboy, colete sem mangas que reforça o ar de oeste americano e uma saia espanhola, larga e bordada que confunde qualquer presunção de pertencimento. Del LaGrace Volcano nasceu na Califórnia, mas isso não explica o chapéu, é apenas um ponto de partida. A vida em si, como ela mesma explica, é uma linha que está sempre sendo traçada. E como toda linha, é composta de pontos. Fotógrafx, intersexual, queer, “mapai” ou “pamãe” mas nunca papai ou mamãe; três casamentos – dois por razões políticas – e uma obra que deu a volta ao mundo com a velocidade com que se guardam bons segredos. Estes circulam porque sempre são ditos muito perto do ouvido, são escutados como essas cócegas que eriçam a pele porque anunciam um prazer deste mundo, físico, carnal.

Foi sobre sua obra, seu trabalho que celebra e erotiza corpos que normalmente não circulam no mercado do prazer, que se tentou fazer esta entrevista. Mas é Del quem muda de assunto. É que acabou de ser formada a primeira organização de intersexuais na Europa [2012] – da qual ela é uma das participantes; houve acordos no Segundo Fórum Mundial Intersexual (que aconteceu durante a conferência mundial da ILGA, organização que reúne, por sua vez, o maior número de organizações no mundo que lutam pelos direitos de lésbicas, gays e trans) para que tivesse um equilíbrio de vozes entre os/as ativistas na reunião e ainda impediram um médico de entrar como uma perfeita demonstração de resistência constante ao que é propugnado às pessoas intersexuais: a medicalização. Assim, o espírito militante o leva a falar de si mesmo. E o amor por sua família queer, uma família que cresce contra todas as normas, por puro desejo de construir um mundo com mais feminismo “e menos idiotas”.

É verdade que Volcano é o sobrenome que você pegou de seu primeiro marido?

É verdade. As pessoas acham que inventei isso, mas não. Pena que ele não pegou meu sobrenome. Antes do último casamento, eu me casei duas vezes por razões políticas que não tinham a ver com a imigração: a primeira vez foi porque minha relação com uma mulher não era válida aos olhos do Estado (no Reino Unido), então me casei com um homem gay que mais tarde morreu com AIDS. O segundo casamento foi, em princípio, para mudar meu nome de “Mrs. Beasly” para Volcano. Agora me casei pela terceira vez, por amor, mas nenhum deles pegou o sobrenome do outro.

Três casamentos me obrigam a te perguntar o que significa essa instituição para você.

Creio que seja possível subverter a instituição do casamento. Para mim, casar-me na Suécia, onde todos podem se casar, foi muito diferente. Não é minha primeira escolha dentro das campanhas necessárias do movimento LGBT, mas de uma perspectiva americana: depois do que significou a Proposição 8[i], creio que tenho também que lutar por isso. Nunca pensei que me casaria por amor, porque na verdade sempre fui contra essa instituição. Mas de uma maneira romântica e apaixonada, pedi a meu parceiro que se casasse comigo. Era a primeira vez que podia dizê-lo com a consciência do compromisso. E aqui estou, feliz com a minha escolha.

Você acredita que o amor pode ter uma dimensão política também?

Claro. Tenho praticado e defendido o poliamor, nunca fui monogâmico, tive muitas parceiras. O que para mim é radical é ter uma parceira. E sou monogâmico com possibilidades agora. Se realmente quisesse fazer sexo com outra pessoa, também o faria, talvez falasse sobre isso com minha parceira. Mas ficamos juntos sete anos e até agora ninguém esteve interessado no assunto. Além disso, temos um menino de um ano e meio, o que nos deixa muito pouca energia extra para fazê-lo. Se temos sorte de fazer sexo entre nós, agora é para festejar. Mas sim, posso dizer que sou poliemocional, tenho profundas relações físicas com outras pessoas que não são sexuais, mas são emocionais e também apaixonadas.

Como você chegou à decisão de ter um filho dentro do que você chama uma família queer?

Comecei a pensar em ter um filho desde que tinha mais ou menos 36 anos. Mas não queria criá-lo sozinho, ninguém das minhas relações me parecia suficientemente estável para ser bom pai. Então, agora discutimos isso, ele assumiu que eu nunca iria engravidar e ele, naquele momento, bem… estava disposto.

Volcano 2

Ele é um homem trans?

Não, ele é gender queer. Foi ele que me engravidou. Gender queer no sentido de que usa o pronome feminino e masculino alternativamente, não tem problemas com seu corpo físico de mulher – ele o tem com o modo como a sociedade trata e sexualiza o corpo das mulheres –, mas sua expressão de gênero é masculino. Não sapatão, mas masculino. Ele é muito mais masculino do que eu, mas também muito mais jovem – ele tem 37 e eu, 55 –, então não sabemos o que acontecerá a seguir. Sei que agora ele nunca se vestiria como eu, sou muito mais feminino que ele.

Você se reconhece também como gender queer?

Eu me reconheço como intersexual e gender queer, me parece que é mais apropriado para mim do que trans. Digo isso porque muita gente acredita que sou trans, o que está ok. Mas esse não sou eu, não é o que quero tornar visível de mim. Sempre fui mal percebido, primeiro como uma mulher e agora sou mal percebido como um homem. Mas nunca transicionei para ser um homem, nem tampouco nunca quis ser exatamente um homem. Quero ser percebido como intersexual, mas que isso não pareça uma incapacidade, porque não o é.

Não imagino outra maneira de perceber uma identidade intersexual senão perguntando sobre isso.

É que não tem sido uma identidade muito visível. As pessoas com corpos intersexuais normalmente são operadas para que seus corpos entrem na norma. Inclusive, quando não somos operados, de todo modo temos que ser por força mulheres ou homens. Há muito poucas pessoas com “culhões” para fazer-se visível como intersexual. Ainda hoje, da maneira como estou vestido, as pessoas me percebem mais como um homem gay, talvez como uma travesti. Inclusive quando mostro meus peitos, todavia tenho uns peitos pequenos, e minha barba; ninguém está programado para ver mais além de mulheres e homens. Por isso, tenho o compromisso de fazer-me visível como intersexual, ainda que às vezes resulte exaustivo.

Em seu trabalho como fotógrafo vê-se a celebração dos corpos: corpos diversos, desfrutáveis, ‘comíveis’, disponíveis. Você demorou para celebrar seu próprio corpo?

Sim, demorei muito tempo. Deve ter apenas 17 dos meus 55 anos que deixei de tentar ser apenas mulher. E lutei muito duro para consegui-lo. Eu depilava a barba: não a fazia para que não me crescessem pelos ou nascessem mais grossos. Eu tinha uma identidade lésbica muito forte, inclusive minhas práticas sexuais eram mais bissexuais que outra coisa e ainda assim tinha uma identidade lésbica. Era importante para mim ser aceita como mulher e por isso tinha que ocultar minhas cicatrizes, depilar-me. Todavia durmo mal, porque não treinei acordar antes de qualquer pessoa com quem estivesse dormindo para que minhas cicatrizes não fossem vistas, por deixar os pelos da barba… mas em 1995 deixei de depilar-me, deixei a barba crescer e deixei de tomar hormônios. Comecei a pensar que podia tornar-me visível como intersexual e que isso seria mais fácil. Na verdade, nada mudou muito porque para muitos sigo sendo um erro: um homem feminino ou um homem gay. O que eu sei: acredito que minha voz não é supermasculina, acredito que é bem suave, embora eu também possa agravar isso, e é também por isso que continuo sendo percebido na rua mais como um homem do que como outra coisa. Mas para mim é um compromisso, algo que me imponho, tornar visível quem sou e resistir ao olhar e a percepção sobre mim. Porque de verdade sou muito queer.

Quero te dizer que é assim como você é visto, pelo menos aos olhos dos latino-americanos.

(Risos) Pode ser, mas a resistência, a verdade, é muito pesada. Às vezes, canso de levantar a bandeira queer e do fato de que todo mundo acredita que sou eu quem devo balançá-la. Agora, por exemplo, ocorre que porque me casei e tenho um filho, parece que baixei a bandeira, que me vendi. Por isso, pergunto, também ao movimento LGBT, por que tanta normatividade, porque sempre aplicamos isso aos demais. Conheço queers que quando dizem que estão pensando em ter filhos propõem adotá-los em lugar de engravidar-se, mas nunca perguntaram o mesmo a uma mulher heterossexual. Nós não temos os mesmos motivos que os casais heterossexuais para ter filhos, tenho certeza, eu não sei porque temos que entregar essa capacidade reprodutiva que temos.

De alguma maneira, ter filhos dentro de famílias queer também é uma oportunidade, para eles e para nós.

Tenho um lema: a resistência é fértil [referência aos Borg em Star Wars, “A resistência é fútil”]. O que quero dizer é que em lugar de queers que definem a si mesmos como reação à heterossexualidade e como indivíduos não reprodutivos, para aqueles de nós que queremos ser pais ou mães, nosso planeta precisa de nós e sobretudo necessita mais de bons “homens” que sejam feministas e creiam na igualdade. Poderia continuar falando sobre minhas esperanças e temores na relação com Mika… sobre o quanto gostaria de preveni-lo e ajudá-lo a ser consciente de seu privilégio como potencial “homem branco, heterossexual e educado na classe média do norte da Europa”. Gostaria que crescesse e se convertesse no tipo de pessoa com quem eu gostaria de conviver e não um idiota como tantos homens brancos que conheço, homossexuais ou heterossexuais.

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Quando você me falou de sua família pela primeira vez, você falou do desafio de ser “pamãe” ou “mapai”. De que se trata isso na vida cotidiana?

Por exemplo, Mika mamou no meu peito e foi maravilhoso poder alimentá-lo. Fiz isso usando um aparato que lhe permitia mamar leite materno de um tubo fixado em uma garrafa. Mika nasceu graças a um amigo que nos doou sêmen e que não é o pai, mas sim nosso amigo, que também é queer e tem uma filha com sua parceira mulher. O doador fará aniversário semana que vem e iremos todos à festa e quando Mika tiver mais idade saberá quem foi seu doador e estará em contato com ele.

Você conhece o caso da parceira que criou seu filho sem marcas de gênero? Foi muito divulgado naquele momento…

Sim, Kathy [a mãe] se converteu em uma amiga e nos correspondemos muito por e-mail. O que fizeram foi algo muito corajoso e progressista, mas é importante ressaltar que se os Storm – pai e mãe – fossem queers haveria muito mais indignação em torno do que fizeram do que o que já foi manifestado. No meu caso, quando me perguntam se Mika é menino ou menina, algo que acontece o tempo todo, respondo que ainda não sei. E retruco: você quer saber qual genitália ele tem? Em geral, isso é suficiente para que fiquem em silêncio.

Como vocês são percebidos como família na rua?

Bem, tipo, eu não dou a mínima.

 

Entrevista concedida a Marta Dillon e publicada em Página 12, em 21 de dezembro de 2012. Disponível em: http://paroledequeer.blogspot.com.br/2014/11/entrevista-con-del-lagrace.html

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

 

[i] A Proposição 8 foi uma iniciativa de alteração da Constituição do estado da Califórnia para banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 4 de novembro de 2008, a medida foi aprovada com 52% dos votos da população.

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