O I está começando a sair do armário

Articulamos um diálogo entre cinco mulheres intersexuais sobre seu modo de viver o gênero e a sexualidade, a relação com seus corpos, com o feminismo e com o movimento LGBTQIA. Elas apelam à responsabilidade coletiva para seguir criando novos imaginários que tornem visíveis outros corpos e outras formas de ser possíveis.

 

Protagonistas: Trece tem 29 anos, vive em Bilbao e é assistente social. Cristina, um ano mais velha, é de Tarragona e trabalha como atriz. Lola tem 26 anos e é jornalista em Bilbao. Lilith, estudante de 21 anos, valenciana. Violeta, de 38 anos, é química em Madri.

Vou começar por onde elas me sugeriram, pela definição do I. Desse I que sempre esteve, mas que está se sentindo cada vez mais livre para sair do armário. Então, vou seguir as instruções de Violeta, uma das entrevistadas, e apresentarei a definição contida no blog mexicano Brújula Intersexual. As intersexualidades (no plural) são usadas como termo para nomear uma variedade de situações do corpo nas quais uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual – genitais, gônadas, níveis hormonais ou cromossomos – que não parece se encaixar nas definições típicas de corpos masculinos ou femininos. É precisamente sob esse conceito que as protagonistas desta reportagem se reconhecem: Trece, Cristina, Lola, Lilith e Violeta. Hoje, elas querem colocar palavras em seu silêncio para serem livres e diversas em um espaço que as torna possíveis. Elas ousaram tomar a palavra como pessoas intersexuais e converter-se em sujeitos geradores de seus próprios discursos. Essas cinco valentas abrem a caixa de Pandora e nos falam sobre sua identidade, suas práticas sexuais, suas necessidades, seus questionamentos e sua relação com as categorias impostas. A pedido das cinco entrevistadas, vou me referir a elas no feminino, pois se identificam como mulheres e como feministas “em processo de desconstrução constante”. Mesmo assim, também vimos no artigo “Sou Lola e sou intersexual”[i] que existem múltiplas identidades dentro do coletivo intersexual.

Após compartilhar inquietudes e discussões interessantíssimas em um grupo de WhatsApp, começamos refletindo juntas sobre os encontros e desencontros que ocorreram ao longo de sua trajetória de vida com as categorias estabelecidas. Violeta – que pratica meditação para encontrar-se e canta boleros, sozinha, no elevador – nos disse como o patriarcado e a influência da religião católica em nossa sociedade a têm feito se sentir “uma mulher de terceira divisão”. Por sua vez, Cristina – reservada por direito, ativista por culhões (aqueles que foram removidos dela) – fala sobre como viveu a puberdade: “Quando não menstruei, e ao descobrir que era XY, que tinha uma vagina cega e testículos feminizantes internos, produziu-se um curto-circuito em meu cérebro: Quem sou? Que farsa é esta? O que os outros vão pensar? Não me sentia digna de ser mulher nem de apresentar-me como tal. Esse sentimento é compartilhado por suas companheiras que, como no caso de Cristina, foram socializadas desde o nascimento como mulheres e para as quais o silêncio foi sua principal arma de resistência. Lola – criadora intermitente de artigos – nos diz: “Imagine que você é diagnosticada com uma síndrome que você sempre teve e que muito poucas pessoas têm, te removem uma gônada por medo que ela gere um tumor e te dizem que você não tem útero, nem ovários, não menstruará, nem é fértil. Quatorze anos. Gerencie isso.” E Trece continua – feminista, comunista e feliz: “No começo, minha percepção de corpo era incompleta, não se encaixava, as cicatrizes pós-operatórias não ajudavam, não me considerava uma mulher real e isso se normalizou em minha família como um tabu, mediante o silêncio.” De sua parte, Lilith – feminazi, peixes e adora dançar (sobretudo tango) – também destaca esses silêncios e afirma que, ainda que em termos binários se identifique como mulher, “temos que continuar trabalhando em nós o queer para deixar para trás o dualismo sexual excludente e os papéis de gênero.”

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Sexo, gênero, sexualidade

A sexualidade tem sido para elas um tema tabu que mencionam cada vez que compartilham experiências. Agora, como nos dizem Trece e Lilith, a sexualidade é visto como algo líquido, “que vai fluindo, mudando” mas, ainda assim, a imposição da heterossexualidade normativa na hora de transar marcou seus corpos e a maneira de construir seus relacionamentos. Trece se reafirma como bissexual, mas se sente mais livre tendo relações com lésbicas: “Embora me interesse experimentar transar com homens, sei que tenho um conflito com a forma fálica e a penetração devido ao uso dos dilatadores impostos após a vaginoplastia.” Lola se sente identificada com as palavras de Trece por ter sido submetida também a um aumento da cavidade vaginal e afirma que apesar de ter desfrutado de práticas com penetração prazerosas, aposta firmemente em outras alternativas sexuais e de autoerotismo. Embora para Lilith sua dificuldade para ser penetrada a tivesse levado na adolescência a sentir-se “frígida, estreita, ‘não comível’, com relações sexuais de segunda”, isso também a ajudou a descobrir uma vida sexual mais rica e outras formas de ter orgasmos; “é importante examinar a si mesma, se conhecer, saber o que desejamos em nossos relacionamentos.”

Outra reflexão que está sobre a mesa é a influência que o sistema sexo-gênero tem tido na vida das cinco entrevistadas. Lola se pergunta: “Você nasce sendo mulher?, sendo intersexual?, sendo homem? Você já nasce sendo algo, ou vamos sendo à medida que nos socializamos em uma cultura com normas estabelecidas? O que de inato, de cultural, tem no sexo?” E ela própria responde: “Reunir a alguns genitais específicos uma identidade de gênero binária, que não é nem fixa, nem absoluta, nem invariável, exclui outras realidades e outros corpos que também estão aí.” Violeta nos lembra que não se fazer essas perguntas levará àqueles casos em que a genitália do recém-nascido que transgride a norma é corrigida cirurgicamente para poder encaixar-se nesse binarismo de corpos. “Encaixar em um corpo de mulher – diz – pode tranquilizar àqueles pais que o que mais desejam é que sua filha não sofra e seja aceita nessa sociedade, mas o paradoxo de tudo isso é que o que tem de ser corrigido é essa maneira invasiva de proceder e pensar. Parece que dilatar uma vagina é tarefa muito mais fácil que dilatar nossas mentes e questionar nossas crenças.”

Tanto dentro como fora dos feminismos, há décadas que se está questionando o quanto de cultural e de natural existe nas categorías sexo, gênero ou sexualidade. O historiador Thomas Laqueur demonstrou em Inventando o sexo que, até o século XVIII, no Ocidente, a diferença sexual era concebida como un contínuo; foi no século XIX que surgiram as primeiras teorias sobre o modelo de dois sexos. O importante então era separar o sexo biológico do gênero social a partir de características anatômicas como a genitália, os órgãos internos e as diferenças hormonais e cromossômicas. Gayle Rubin, nos anos 1980, afirmou que, como o gênero, a dimensão biológica assumida nas noções de sexo e sexualidade é uma construção cultural carregada de simbolismo, que assinala um valor diferenciado aos corpos e às práticas sexuais, estabelecendo uma relação hierárquica entre heterossexualidade, homossexualidade e outras sexualidades. Já nos anos 90, com Judith Butler e outras/os autoras/es da teoria queer, começaria a se incorporar a ideia de que tanto o sexo como o gênero e a sexualidade são fruto da percepção sociocultural das diferenças entre as pessoas.

Trece, Cristina, Lola, Lilith e Violeta recebem essas teorias como uma lufada de ar fresco e se distanciam cada vez mais de protocolos clínicos e abordagens científicas que ainda seguem estigmatizando e patologizando seus corpos. “É certo que o biológico condiciona o social – quer dizer, minha anatomia me fez e faz com que me apresente ao mundo como mulher –, mas é certo que o social também condiciona o biológico e assim será enquanto houver quem acredite que tenho um transtorno, uma anomalia ou uma desordem no desenvolvimento sexual”, considera Cristina. A atriz catalã insiste em que para que haja uma mudança tem que chegar “o dia em que nos expliquem que os compartimentos homem e mulher, como os de masculino e feminino, não são classificações estanques e fechadas, mas flexíveis, móveis e inclusive intercambiáveis”. Como defende Lilith, trata-se de criar novos imaginários que tornem possíveis essas mudanças. Segundo Violeta, isso evitaria práticas invasivas e obrigatórias, que continuam ocorrendo a toda hora, de estabelecer diagnósticos definitivos e cirurgias não necessárias ou estritamente plásticas “que deveriam ser adiadas até que a própria pessoa tenha capacidade de escolher por si mesma o que quer fazer com seu corpo”.

Todas as cinco foram submetidas a uma gonadectomia que se costuma recomendar de forma generalizada e que hoje em dia começa a ser questionada, dentro e fora dos hospitais. “Existe todo um aparato normativo que legitima essas práticas e que nos diz quais corpos, quais genitais, quais identidades ou quais orientações sexuais são válidas e quais não são”, afirma Lola. Trece e Lilith afirmam continuar sentindo-se como bichos raros quando vão à ginecologista nos centros de saúde pública: “Cada vez sou atendida por uma pessoa diferente à qual devo explicar tudo do zero, e isso é bastante incômodo. Solicitei que me fosse indicada uma profissional definitiva, mas me negaram isso”, conta Lilith. Da sua parte, Trece relata uma experiência negativa recente em uma consulta com seu médico de família – ele revelou informações pessoais sobre seu diagnóstico a outra paciente próxima a ela. Da mesma forma, elas nos relatam que há pessoas intersexuais às quais têm sido negadas solicitações de acesso aos prontuários clínicos, enquanto algumas nem sequer sabem qual o seu cariótipo. Essas situações demonstram que ainda existe muito despreparo em todos os âmbitos para que pessoas como elas deixem de sentir esse estigma, que as marginaliza e provoca sofrimento. Para isso, elas advogam encontrar juntas as ferramentas necessárias para desconstruir e transformar esse aparato normativo que tornem visíveis novas subjetividades e aceita a diversidade humana. Muito esperançosas, já começam a ver no panorama social “alguma luz no fim do túnel” que está permitindo levar a cabo essas práticas de resistência. Como diz Violeta, “esse encontro de nós cinco, com profunda vontade de contar nossas experiências e com um olhar comum, é um feito que até recentemente eu não haveria imaginado”.

Quando pergunto a elas pelo futuro, sobre como visibilizar a intersexualidade, Cristina considera imprescindível trabalhar com um enfoque interdisciplinar dentro dos hospitais, “mas também fora: tem que começar a orientar-se muito mais para uma intervenção e sensibilização socioeducativa e cultural”. Violeta afirma que a melhor militância vem da educação nas escolas e na infância, “os livros de biologia e a abordagem da sexualidade deveriam incorporar todas as realidades existentes e normalizá-las”. Apesar de já existirem grupos de apoio, tanto Lilith como Trece estão convencidas de que visibilizar a intersexualidade é primordial para sentirem-se aceitas e reivindicam criar associações sem “visões patologizadoras”, assim como tecer uma rede de apoio entre pessoas intersexuais para compartilhar experiências e operar mudanças em todos os níveis: legislativo, sanitário ou educacional. Para isso, apostam na presença do I na luta pelos direitos LGTBQIA e que também faça parte da agenda feminista. Para Trece, é “crucial” que comece a haver uma maior representação do I no ativismo político, mas as resistências, os medos, estão aí e ainda são tema de debate dentro do coletivo, como nos lembra Violeta. Ainda assim, Lola e Lilith falam da necessidade de continuar estabelecendo alianças “entre todas as pessoas dissidentes, que são muitas, e o inimigo é o mesmo, para que se escutem nossas demandas e levem isso em conta”. Como diz Cristina, “com o tempo me dei conta de que o que marca minha luta é a normalização da mesma diversidade pela qual também estão lutando esses coletivos feministas e LGTBQIA há anos”.

Ao final, devemos ter em mente que o I, esse desconhecido, sempre existiu: mesmo que tenha demorado um pouco para mostrar a cabeça e que ainda tenha – tenhamos – que sair do armário. Como La Pastora fez durante o franquismo, ou Herculine Barbin já no século XIX. Será, portanto, responsabilidade de todxs transgredir a ordem estabelecida, subverter o discurso oficial e tornar visíveis outros corpos e outras formas possíveis de viver, de estar ou de ser.

 

Texto de Mer Gómez, publicado em Pikara online magazine, em 16 de abril de 2018. Disponível em: <http://www.pikaramagazine.com/2018/04/dialogo-intersexualidad/>.

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

[i] Soy Lola y soy intersexual, disponível em http://www.pikaramagazine.com/2017/03/soy-lola-y-soy-intersexual/.

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