Um apartamento em Urano

Segundo Ulrichs, pensador alemão do século XIX, os uranistas são almas femininas encerradas em corpos masculinos atraídas pelas almas masculinas. A condição trans é uma nova forma de uranismo.

 

Enquanto, ao longo desses últimos meses, minha vida acordada foi, para retomar a eufemística expressão catalã, “boa, se não entrarmos em detalhes”, minha vida onírica foi estimulada pela potência de um romance de Ursula K. Le Guin. Em um de meus últimos sonhos, eu discutia com a artista Dominique Gonzalez-Foerster sobre o meu problema: após anos de vida nômade, é difícil para mim decidir sobre um lugar onde viver no mundo. Enquanto conversávamos, observávamos os planetas girar suavemente em suas órbitas, como se fôssemos dois garotos gigantes e o sistema solar fosse um móbile de [Alexander] Calder. Eu lhe explicava que, no momento, a fim de evitar o conflito que a decisão me acarretava, eu alugara um apartamento em cada planeta, mas passara menos de um mês em cada um deles, e que essa situação era econômica e vitalmente insustentável. Provavelmente porque ela é a autora do projeto Exoturismo, Dominique era nesse sonho uma especialista em gestão imobiliária no cerne do universo extraterrestre. “Em seu lugar, eu teria um apartamento em Marte e ficaria em uma pousada em Saturno, me dizia ela, demonstrando um grande pragmatismo. Mas eu deixaria o apartamento de Urano. É muito longe.”

Acordado, não tenho nenhum conhecimento particular em astronomia nem nenhuma ideia da posição e distância dos diferentes planetas do sistema solar. Mas verifiquei, ao consultar a página da Wikipédia destinada a Urano: é efetivamente um dos planetas mais distantes da Terra. Apenas Netuno, Plutão e os planetas-anões Haumea, Makemake e Éris estão mais distantes. Urano é o que os físicos chamam de “gigante gasoso”. Composto de gelo, metano e amoníaco, ele é o planeta mais frio do sistema solar, com ventos que podem ultrapassar 900 km/h. Em suma, não podemos dizer que as condições de habitabilidade sejam adequadas. Portanto, Dominique tinha razão: eu deveria deixar o apartamento de Urano.

O sonho funciona como um vírus. Desde essa noite, enquanto estou acordado, a sensação de ter um apartamento em Urano aumenta, e fico cada vez mais convencido que é lá onde quero viver.

Para os gregos, como para mim no sonho, Urano era o teto sólido do mundo, o limite da abóboda celeste. Urano é considerado a casa dos deuses em numerosas invocações rituais gregas. Na mitologia, Urano é o filho que Gaia, a Terra, concebeu sozinha, sem inseminação nem acasalamento. A mitologia grega é, ao mesmo tempo, uma espécie de conto de ficção científica retro-antecipatório, numa modalidade do “faça você mesmo”, das tecnologias de reprodução e de transformação do corpo que aparecerão ao longo dos séculos XX e XXI, e uma série de TV kitsch na qual as personagens se entregam a uma quantidade inimaginável de relações fora da lei. Assim, Gaia desposou seu filho Urano, um titã frequentemente representado em meio a uma nuvem de estrelas, como uma espécie de Tom of Finland dançando com outros tipos musculosos em um clube techno no monte Olimpo. De relações incestuosas e pouco heterossexuais do Céu e da Terra nasceram a primeira geração de titãs, dentre os quais Oceano, a água; Cronos, o tempo; ou Mnemosine, a memória… Urano é tanto filho da Terra quanto pai de todo o resto. Não está claro qual era o problema com Urano, mas a verdade é que ele não era um bom pai: ou forçava seus filhos a ficarem no ventre de Gaia, ou os atirava no Tártaro após seu nascimento. Gaia então convenceu um de seus filhos a realizar uma operação contraceptiva. Pode-se ver no Palácio Vecchio, em Florença, a representação que Giorgio Vasari fez no século XVI de Cronos castrando seu pai Urano com uma foice. Afrodite, a deusa do amor, emergiu dos genitais amputados de Urano… o que poderia sugerir que o amor vem da desconexão dos órgãos genitais do corpo, do deslocamento e da externalização da força genital.

Essa forma de concepção não heterossexual, citada em O banquete, de Platão, inspirou a Karl Heinrich Ulrichs o termo “uranista”, em 1864, para designar o que ele chama de amores do “terceiro sexo”. Para explicar a atração de um homem por outros homens, Ulrichs, depois de Platão, corta a subjetividade em duas, separa a alma e o corpo, e imagina uma combinação de almas e corpos que o autoriza a reivindicar a dignidade daqueles que se ama contra a lei. A segmentação da alma e do corpo reproduz na ordem da experiência a epistemologia binária da diferença sexual: há apenas duas opções. Os uranistas não são, diz Ulrichs, doentes ou criminosos, mas almas femininas encerradas em corpos masculinos atraídos por almas masculinas. Ulrichs não faz essa declaração enquanto cientista, mas em primeira pessoa. Ele não diz “há uranistas”, mas “eu sou uranista”, e afirma isso, após ter sido condenado à prisão e visto seus livros serem proibidos, diante de um congresso de juristas em Munique. Assim, Ulrichs foi, sem dúvida alguma, o primeiro cidadão europeu a declarar publicamente que queria um apartamento em Urano.

Percebo então que minha condição trans é uma nova forma de uranismo. Não tenho mais necessidade, como Ulrichs, de afirmar que sou uma alma masculina encerrada em um corpo de mulher. Não tenho alma e não tenho corpo. Eu tenho um apartamento em Urano, que é longe o suficiente da maioria dos terráqueos, mas não tão longe que você não possa vir me ver. Até nos sonhos.

 

Paul Preciado assina quinzenalmente uma crônica no jornal francês Libération. Esta foi publicada em 1º de junho de 2018. Disponível em http://liberation.fr/debats/2018/06/01/un-appartement-a-uranus_1656032.

 

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

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