“Queer ou não, estamos todos presos a um conjunto de normas com as quais temos que lidar.”

Em sua última obra, Bruno Perreau, sociólogo e professor especialista em questões de gênero do Massachusetts Institute of Technology (MIT), analisa a origem das fantasias e dos medos de torno da teoria queer. Por que essa crítica aos papéis sociais de gênero suscita tanto medo nos reacionários de direita quanto na esquerda?

 

Contra o casamento para todos[i], como também a abertura da PMA[ii] às lésbicas ou contra a igualdade de educação entre meninas e meninos na escola, seus detratores, tomando a imagem da Manif pour tous[iii] na França, brandiram nos últimos anos a ameaça da “teoria de gênero”. Segundo eles, essa “ideologia do gênero”, nascida no outro lado do Atlântico, poria fim à diferença entre os sexos e desnaturalizava “a ordem sexual”. Ou seja, uma agitação identitária que convém ser combatida. Na verdade, essa fantasia, sustenta Bruno Perreau, autor de Qui a peur de la théorie queer? [Quem tem medo da teoria queer?, em tradução livre], é mobilizada para desacreditar um campo de estudos, o de gênero, e em particular os trabalhos mais críticos, o queer, que desconstroem com radicalidade a fábrica de papéis sociais em função do gênero. No fundo, trata-se do medo de um pensamento francês “colonizado” pelo pensamento americano perverso e “polimorfo” e de uma “propagação da homossexualidade”, desleal à nação, que Perreau convida a refutar pelo… gesto teórico.

 

De onde vem a teoria queer e como defini-la?

A teoria queer é mais uma caixa de ferramentas do que um corpus bem delimitado. Trata-se de um conjunto de trabalhos que se interessam pelos efeitos políticos do gênero. Durante um longo tempo, a palavra queer foi uma injúria para designar as “bichas”, os “viados”, os “efeminados”, os/as “desviados/as” e, mais amplamente, o que é “bizarro”, “estranho”. Nos anos 1980, a poeta californiana Gloria Anzaldúa, de origem mexiacana e lésbica, foi uma das primeiras a utilizar o termo queer para se designar. Movimentos como o Act Up vão também se reapropriar da injúria para desarmar a violência. Em 1990, três pesquisadoras universitárias – Teresa de Lauretis, Judith Butler e Eve Kosofsky Sedgwick – decifraram, a partir desse trabalho de reapropriação, o papel do gênero na construção da ordem social. Seus trabalhos serão muito rapidamente designados como “teoria queer”, pois produzem ao mesmo tempo uma teoria dos/as “desviados/as” (as minorias sexuais foram pouco estudadas até então) e uma “teoria “desviada”, no sentido de que ela desloca os modos de pensamento e tem, portanto, alguma coisa de problematizadora. Em Problemas de gênero, Judith Butler está interessada em como essas nossas identidades são representadas no teatro social e como os papéis que representamos são eles próprios cópia de outros papéis. Isso é o que ela chama de cadeia performativa. O que interessa a ela são os momentos em que há, literalmente, o jogo nessa cadeia, isto é, em que aquilo que os indivíduos encarnam não corresponde completamente ao que se espera deles.

 

Quais são as ressonâncias da teoria queer na França?

Durante os debates sobre a lei Taubira[iv], os movimentos reacionários acusaram a teoria queer de invadir a França e ser a causa da abertura do casamento aos casais homossexuais. Ora, os textos queer são muito amplamente inspirados em autores franceses: Deleuze, Foucault, Derrida, mas também, antes deles, em Beauvoir e Wittig. É aliás o que chamamos de french theory nos Estados Unidos. Essas fantasias estão associadas ao medo de invasão queer: conversão à causa minoritária, corrupção da juventude, cultura do prazer sem futuro, globalização das categorias sexuais, mercantilização do corpo etc. Mas é preciso estudá-las confrontando-as com a emergência real do queer na França nos espaços militantes, acadêmicos, artísticos e midiáticos. São as primeiras associações, como a das Irmãs da Perpétua Indulgência, que, no começo dos anos 1990, começam a utilizar o termo queer. Na segunda metade do decênio, vários pesquisadores/as, entre os quais Didier Eribon, Françoise Gaspard, Sam Bourcier e Eric Fassin, fizeram seminários e iniciaram um trabalho de tradução. O termo começa a ser popularizado nas mídias de massa no começo dos anos 2000 porque ele permite, paradoxalmente, falar de homossexualidade e de transidentidades sem ter que designá-los explicitamente em francês. É o caso dos escritores Erik Rémès e Guillaume Dustan, quando percorreram vários programas de TV, e de Thierry Ardisson, quando apresenta a marca Queer. Quando o canal TF1 exibe o programa americano Queer Eye for the Straight Guy, intitulou-o Queer, cinco especialistas no vento. O termo serviu para abrir novos mercados sem chocar os telespectadores já conquistados. Ele coloca o programa no armário novamente. O queer não é, portanto, sinônimo de radicalidade: tudo depende do que se faz com ele.

 

De onde vem o medo da teoria queer?

Digamos que ele se expresse de modos diferentes. Desde 2013, a direita sabe que o combate à lei Taubira estava perdido antecipadamente. Por isso, ela se compromete com outro terreno sensível: a ideia do declínio da escola. Isso permite que ela se incline para o medo da desqualificação social e se mobilize para além das famílias católicas militantes. Movimentos digitais propõem a retirada de crianças da escola porque lá os meninos são transformados em meninas e vice-versa! É também uma maneira de evitar os argumentos teológicos – abordagem pouco eficaz em um país que se imagina secularizado – mobilizando uma retórica já presente no debate público, como a ideia de risco social calcada no modelo do risco ambiental – o Vaticano forjou notavelmente a ideia de “ecologia humana”. A extrema direita teme, sobretudo, a desvirilização da sociedade. As culturas queer teriam teatralizado tanto as relações entre os sexos que a relação de sedução entre homem e mulher teria se tornado quase impossível. Não é à toa que Jean-Marie Le Pen, que pensava ter transmitido virilidade política a sua filha, atacou os gays que a cercavam. Aqueles a quem ele chama, por referência a Abel Bonnard, ministro da Educação Nacional de Pétain, os “gestapettes”[v] teriam efeminado, e portanto enfraquecido, Marine Le Pen.

 

E a esquerda?

É mais o anticomunitarismo que prevalece: não dar a impressão de estar vinculado às reivindicações das minorias. Com a lei Taubira votada a custo, Jean-Marc Ayrault[vi] explica que é preciso voltar à defesa do “verdadeiro povo” e dar prioridade às lutas econômicas nas questões sociais. Como se o casamento não fosse uma questão econômica e como se as minorias sexuais fossem, em si, privilegiadas. A teoria queer demonstra que os corpos minoritários são ao mesmo tempo um lugar de vulnerabilidade e um lugar de afirmação de si. É precisamente o que a esquerda tem dificuldade de entender, daí sua rejeição ao GPA e sua cautela com o PMA. Emmanuel Macron deslocou um pouco esse problema. Trata-se, para ele, de manter um equilíbrio de fala. Foi desse modo que ele explicou que a Manif pour tous havia sido “humilhada” nos debates sobre o casamento. É precisamente nessa lógica que os movimentos reacionários procuram acreditar: que todas as teorias são iguais. Enquanto para as minorias, a luta teoria contra teoria é a primeira das opressões.

 

Você diz que há também um medo da “propagação da homossexualidade”…

Sim, hoje, menos da sexualidade em si do que das formas de pensamento crítico que ela pode produzir. Entre os reacionários de direita como de esquerda, há ao mesmo tempo o temor de uma conspiração orquestrada por um grupo minoritário potencialmente desleal em relação ao Estado – o inimigo de dentro – e, simultaneamente, o medo da propagação de uma cultura minoritária que procurava apenas uma coisa: sua própria multiplicação. É por isso que as transidentidades são frequentemente descritas como causa e sintoma de uma sociedade individualista onde cada um(a) se definiria como lhe agrada.

 

Você também pontua “desvios” em alguns usos da própria teoria queer

Certos leitores queer consideram, por exemplo, o direito como o inimigo número 1 pois, ao impor suas categorias, ele impediria a emergência de novas subculturas. Entretanto, queer ou não, estamos todos presos a um conjunto de normas com as quais temos que lidar. Podemos não querer uma instituição e que sua própria existência funcione para nós. Podemos também transformar as normas jurídicas pela prática: por exemplo, ser casado e não viver juntos ou não ter uma definição estrita de fidelidade. Como Maggie Nelson escreve, as vidas queer são plenas de contradições, ao mesmo tempo ordinárias e extraordinárias.

 

Por que você insiste, ao contrário de alguns(mas) colegas, sobre o necessário esforço de teorização?

Após vários anos, fomos pegos em uma armadilha pelos escritos reacionários, o que nos afasta da produção de novos modos de pensar. Tinha que ser dito que não havia “teoria de gênero”, mas pesquisas sobre gênero. Os estudos LGBT e queer foram então subsumidos por esse discurso defensivo. Além disso, eles permanecem muito pouco ministrados na França. É ainda certa desconfiança em relação ao trabalho teórico como um todo do modo como foi expresso. Por consequência, proponho uma teoria minoritária da representação. Em um sistema político majoritário, reconhecer as minorias implica olhá-las de cima, seja apoiando suas demandas de tal maneira que elas se tornem majoritárias, seja fazendo-as se beneficiar de um dispositivo específico. Por que não basear o sistema representativo na capacidade de apoiar as vozes minoritárias, isto é, constituídas por uma relação de dominação? “Falar por” seria então entendido em seu sentido literal, não “no lugar de” ou “em nome de”, mas “a favor de”. É a cultura política que Condorcet defende e que é essencial atualizar. É necessário dar vida ao mesmo trabalho crítico sobre as sentenças judiciais, o estado de emergência, a hospitalidade. Não uma crítica que desce do mundo das ideias, mas uma crítica verdadeiramente queer, quer dizer, em que os usos do corpo fazem teoria.

 

 

Entrevista de Bruno Perreau concedida a Florian Bardou e publicada no jornal Libération em 11 de maio de 2018. Disponível em: http://liberation.fr/debats/2018/05/11/bruno-perreau-queer-ou-pas-nous-sommes-tous-enserres-dans-un-ensemble-de-normes-avec-lesquelles-nous_1649436

 

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

[i] Mariage pour Tous (Casamento para Todos) é a expressão francesa utilizada para se referir ao projeto de lei aprovado em 23 de abril de 2013, no Parlamento, que regulamentou o casamento, a adoção de crianças e a partilha de bens entre casais do mesmo sexo.

[ii] No original, procréation médicalement assistée (PMA). A procriação medicamente assistida (PMA) é um conjunto de práticas clínicas e biológicas em que a medicina intervém mais ou menos diretamente na procriação.

[iii] La Manif pour Tous (Manifestação para Todos) foi um coletivo de associações conservadoras que ganhou maior visibilidade e representatividade ao se posicionar contrariamente ao Mariage pour Tous.

[iv] Christiane Taubira foi ministra da Justiça de François Hollande na França. A lei identificada com seu sobrenome, de 2013, regulamentou o casamento entre pessoas do mesmo sexo naquele país.

[v] De difícil tradução, o termo criado por Jean-Marie Le Pen, em 2015, funde as palavras Gestapo e tapette: a primeira se refere à polícia secreta criada por Hitler no regime nazista, derivando daí a noção de rede de espionagem; a segunda é uma forma pejorativa de se referir aos homossexuais como efeminados.

[vi] Político socialista francês que se tornou primeiro-ministro de François Hollande logo após sua eleição como presidente. Ocupou esse cargo entre 2012 e 2014.

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