Quando e como o termo transexual foi criado?

Quando e como o termo transexual foi criado? Quem tem lutado no contexto norte-americano quando se trata de conquistar direitos para pessoas que saem das normas de gênero, que são travestis, transexuais ou não binárias? Como se constrói a memória das pessoas trans*? Quais líderes impulsionaram outras maneiras de entender as transgressões de gênero? Como é possível que tenhamos tantos personagens trans* nas atuais séries de sucesso na TV? Existem mais pessoas trans* e não binárias hoje do que há um século? Quais desafios sociais surgem graças às vivências de pessoas trans* e seu ativismo? Essas são apenas algumas das perguntas colocadas em Historia de lo trans, um livro magnífico publicado no final de 2017, com uma edição revista e atualizada em espanhol pela editora Continta Me Tienes (e em inglês pela editora Seal), quase dez anos depois de sua publicação original.

Com Historia de lo trans temos a oportunidade de conhecer o trabalho histórico e político de Susan Stryker, que ainda não é muito conhecida em nosso contexto, provavelmente porque até o momento não contamos com traduções de seus trabalhos. A exceção é seu primeiro artigo acadêmico, “Mis palabras a Víctor Frankenstein desde el Pueblo de Chamonix: Performando la Ira Transgénero”, traduzido em Políticas trans: una antología de textos desde los estudios trans norteamericanos (2015). Também é relevante observar que Stryker esteve recentemente em Barcelona, dando a conferência “Coged aire: Las políticas de vida trans actuales” (2016), em um ciclo de conferências organizado por Cultura Trans. Nesse sentido, ela conhece as mudanças ocorridas entre as pessoas trans* na Espanha. Mas, quem é Susan Stryker? Essa mulher trans* norte-americana é doutora em História dos Estados Unidos, pela Universidade da Califórnia, e também uma conhecida ativista, autora de vários livros entre os quais podemos destacar The Transgender Studies Reader (Routledge, 2006) e o que está escrevendo atualmente, Cross-Dressing for Empire: Gender and Performance at the Bohemian Grove. Ela dirigiu documentários, como o premiado Screaming Queens: The Riot at Compton’s Cafeteria (2005). Atualmente, Stryker é professora na Universidade de Arizona, diretora do Instituto de Estudos LGBT e coeditora da Transgender Studies Quarterly (TSQ), a primeira revista acadêmica sobre questões trans* sem enfoque médico.

Historia de lo trans começa apresentando onde se situa Susan Stryker frente a seu objeto de estudo, a história das pessoas trans*, para sublinhar que ela escreve sobre os Estados Unidos e uma geração muito determinada. Considere que sua impressionante biografia evidencia uma luta intensa para superar barreiras que penalizaram sua saída do armário como mulher, sabendo que conseguir um emprego na universidade não é algo que podemos esperar de uma mulher trans*, para quem parece se encaixar melhor em outras expectativas sociais. Após essa introdução, Stryker situa o marco da investigação que realiza e introduz a terminologia utilizada ao longo da história nos Estados Unidos para falar de pessoas que transgridem o sexo atribuído no nascimento. Palavras como transexual, travesti, transgênero, trans, trans*, hermafrodita, intersexual, entre outros, surgem em determinados momentos históricos, com diferentes cosmovisões que dão significado às rupturas com o sexo atribuído no nascimento, a expressão, corporalidade ou identidade de uma pessoa. Uma história e uma terminologia que devemos entender com a distância e a necessidade de reconhecer que não têm a mesma trajetória e enraizamento que nos lugares de língua espanhola.

Por exemplo, se nos detemos na palavra travesti, na Argentina atual é um termo autoproclamado por seus protagonistas para a luta política e social, enquanto no Estado espanhol seu uso foi mais frequente antes dos anos 1980, agora tendo sido relegado a uma atividade ligada ao cross-dresser. O mesmo ocorre com transexual e transgênero, que têm um uso radicalmente distinto em inglês e em espanhol; o termo guarda-chuva de uso amplo e que tem tentado ser inclusivo nos Estados Unidos desde os anos 1990 tem sido transgênero (transgender), enquanto em espanhol tem sido transexual (transsexual), e mais tarde trans (e também trans* com asterisco), sem fazer muitas distinções entre os/as que fazem modificações corporais e os/as que não fazem. Em inglês, transexual foi reservado para indicar aquelas pessoas que fizeram modificações corporais, face a transgender, que não necessariamente se identifica com tais modificações ou com um trânsito medicalizado para uso. O termo transgênero em espanhol tem sido menos usado, embora talvez tenha sido feito com uso mais politizado.

Caberia perguntar-se sobre o porquê desse frenesi linguístico, questão que se complica ainda mais com as vivências não binárias e o desejo de fazê-las patentes na linguagem (com o uso de palavras que terminam em “e”, por exemplo, frente a outras propostas de linguagem inclusiva que se servem do termo pessoa, o termo unissex, o uso de @, x ou *). De um lado, isso demonstra que seus/suas protagonistas acabam por não gostar das palavras que a medicina ou a lei escolheu para eles, denominações que frequentemente são pejorativas, o que supõe um exercício de se manifestar em primeira pessoa. Mas não é apenas isso: as protagonistas desses debates e experiências são por sua vez muito críticas com a linguagem que se utiliza sobre si mesmas, pessoas que vivem sob um intenso escrutínio social. Isso põe em evidência que, embora possa parecer que o debate está no terreno da linguagem (por suas conotações, seus efeitos não desejados, suas características e se “dão jogo” ou não), é também muito relevante como usamos essas palavras para excluir algumas pessoas. Assim, esse dinamismo da linguagem reflete um constante movimento de significados emergentes que requerem novas expressões, por exemplo, associadas à visibilidade da infância trans* ou às pessoas não binárias. De fato, cada vez que parece que conseguimos mapear quais palavras existem, de quais gostamos ou resultam úteis e quais não são, o significado de que necessitará uma palavra para poder ser concebido está sendo criado. Outra realidade que se revela é que constantemente surge a necessidade de uma terminologia inclusiva (transgênero, trans, trans*…), frente ao olhar restritivo que se utiliza de marcos médicos ou legais, assim como a cooptação de um vocabulário que transforma seu significado.

Além de dar um sentido histórico à gramática trans*, Stryker nos mostra os eventos e pessoas-chave para entender a visibilidade das questões trans* nos dias de hoje, realizando um exercício de genealogia que se torna necessário. Ela nomeará, por exemplo, as leis municipais que proibiam aos homens vestir-se como mulheres (1863); aquelas que serviram no lado confederado da guerra passando-se por homens, como Harry Buford; inclui passagens de cartas recolhidas por Magnus Hirschfeld (1909); nomeia ativistas pioneiras como Louise Lawrence, Virginia Prince, Sylvia Rivera, Martha Johnson, Reed Erickson, Suzy Cooke, Leslie Feinberg ou Angela K. Douglas, entre outras. Ela ainda nos recorda que, antes das chamadas revoltas de Stonewall Inn, houve outras na cafeteria Compton’s (1966) ou que a homossexualidade pode ter sido um termo guarda-chuva que incluía o que agora entendemos como transexualidade, colocando no mapa nomes de organizações, pessoas e fatos-chave.

É necessário enfatizar que Stryker narra a história da transexualidade e trans* nos Estados Unidos, que, apesar de sua influência global, não é a mesma história que se viveu em outros lugares, como na Espanha ou na América Latina. Se tomamos como exemplo a Espanha, não é até os anos 1950, quando o termo transexual é ativado, de modo que pessoas transexuais como sujeitos políticos não surgem até um momento político de transição democrática, ligada à liberação homossexual e à luta contra a lei de periculosidade e reabilitação social, junto com outros movimentos sociais. Seria uma história do trans* distinta também pelas relações que os diferentes movimentos sociais têm estabelecido entre si, tais como os movimentos feministas, os de direitos sexuais e reprodutivos, de liberdades sexuais e de ativismo trans*, entre outros.

Para dar um exemplo concreto, a persistência e o impacto de um feminismo dedicado à exclusão de mulheres trans* (TERF) não tem a mesma trajetória na Espanha ou na América Latina como nos Estados Unidos. Parte dessa diferença tem a ver com compartilhar uma trajetória de luta que deu valor à contribuição feminista das trabalhadoras do sexo trans*, o papel proeminente de alguns feminismos lésbicos quando se trata de se relacionar com mulheres transexuais nos anos 1990 e, mais tarde, a inclusão de homens trans* nos debates feministas, bem como o contexto dinâmico de mudanças em que está inserido, torna esse movimento TERF menos relevante na Espanha.

Susan Stryker utiliza uma linguagem simples e acessível, com a qual consegue transmitir com uma grande clareza que os estudos sobre as pessoas trans* têm uma importância que vai além do fato de ser uma minoria social, para situá-las em um contexto mais amplo de lutas nos movimentos sociais, e do feminismo em particular. De fato, ela aposta em um olhar transfeminista e interseccional, que leva em conta outros lugares situados, como a diversidade funcional, a racialização, a procedência nacional, a classe social ou as crenças religiosas, entre outras identidades sociais das pessoas trans*. Ela também destaca que a história das pessoas trans* nos Estados Unidos reflete necessariamente o futuro histórico, político e social desse país, uma espécie de montagem que permite a visibilidade e presença pública que tem a transexualidade hoje em dia, inclusive quando a crise econômica de 2008 significou um corte maior de direitos e recursos.

Outra questão de suma importância é que este é um livro sobre as pessoas trans* escrito por uma de suas protagonistas. Algo que não é muito frequente se levamos em conta que habitualmente a produção do conhecimento está nas mãos de pessoas que concebem a transexualidade como uma doença ou um problema legal, uma curiosidade antropológica ou uma novidade. Poder ter um olhar tão globalizador e compreensivo sobre os fatores históricos e sociológicos que constroem as vidas das pessoas trans* na América do Norte só é possível a partir dessa situação privilegiada de protagonista, ativista e pesquisadora. Essa questão sobre a agência das pessoas trans* na criação do conhecimento, assim como sua representação pública, seja na ficção ou na vida real, está presente ao longo de todo o livro. Em especial, quando ela se refere às artes ou meios de comunicação, onde é muito frequente, por exemplo, a produção de filmes feitos para um público que não é trans*, mas com uma temática trans*.

Historia de lo trans é um livro valioso que contribui para transformar o olhar que temos sobre o gênero, as pessoas que transgridem os papéis atribuídos de sexo no nascimento, assim como das relações entre movimentos sociais. A obra é dirigida a muitos públicos e é relevante para pesquisadores e estudantes de Ciências Sociais e Humanidades; para o ativismo e os movimentos sociais, para assistentes sociais; é significativo para historiadores e historiadoras, e em suma, para todas aquelas pessoas que queiram dar rigor histórico e sociológico ao conhecimento sobre as pessoas trans*. Este trabalho também revela a carência de um estudo de profundidade similar sobre o trans* e as pessoas trans* na Espanha, embora também seja importante assinalar que existem trabalhos relevantes de autores trans* como Miquel Missé, Juana Ramos, Pol Galofre, Norma Mejía, Amets Suess, Ian Bermúdez, Mar C. Llop ou Lucas Platero, entre outros.

Para encerrar, gostaria de destacar o momento no qual emerge esta narração da história do trans*, que ocorre em meio a uma recessão conservadora que está causando impacto em muitos estados-nação, não apenas nos Estados Unidos. Esse giro conservador questiona a linearidade da narrativa que eleva a consecução de direitos como um avanço unidirecional e em que o progresso está associado ao ocidental ou à modernidade. A partir de uma visão crítica e decolonial, os direitos e oportunidades vitais das pessoas trans* estão sempre reunidos e entrelaçados com a produção social da racialização, classe social, passabilidade e aparência cis, diversidade funcional, migração e outras experiências de importância estrutural.

 

Lucas Platero Méndez combina sua prática docente com a investigação e o ativismo pelos direitos LGTBQ. Ele é licenciado em Psicologia, Mestre em Avaliação de Políticas Públicas e Doutor em Sociologia. Atualmente, dá aulas de intervenção sociocomunitária em um instituto de educação secundária; em vários programas universitários de pós-graduação em gênero e igualdade, e no Programa de Estudos do MNCARS, Somateca. Sua trajetória pessoal e profissional está ligada à coeducação com uma perspectiva da diversidade humana e uma atenção especial à construção social das identidades, em que entram em jogo múltiplas variáveis: o sexo, a classe, o gênero, as condições funcionais, a procedência, a sexualidade etc. Ele incorpora esse enfoque tanto na pesquisa teórica como em sua aplicação cotidiana nas aulas, quando também aprofunda sobre as violências de gênero, bem como a violência e o bullying homofóbico. Entre suas publicações, destacam-se: Transexualidades. Acompañamiento, factores de salud y recursos educativos (Bellatera, 2014); Intersecciones. Cuerpos y sexualidades en la encrucijada (Melusina, 2012); Lesbianas. Discursos y Representaciones (Melusina, 2008); Herramientas para combatir el bullying homofóbico (Madrid, Talasa, 2007).

 

Resenha publicada em 7 de janeiro de 2018 no site Librerantes. Disponível em: <http://librerantes.com/cuando-y-como-se-crea-el-termino-transexual-por-lucas-platero/>.

 

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

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