QUEERTOPIA

 

“Não desejo que um LGBT+ mais velho retorne para o armário em uma casa de repouso.”

 

Stéphane Sauvé, ex-diretor de dois Centro de Assistência para Pessoas Idosas Dependentes (EHPAD, na sigla em francês) em Paris e na região metropolitana, decidiu lançar uma “casa da diversidade para idosos LGBT independentes”. Esta é uma alternativa às casas de repouso tradicionais, para que pessoas idosas LGBT possam envelhecer em um ambiente seguro e agradável. Têtu inaugura “Queertopia” com Sauvé, uma série de depoimentos de pessoas trabalhando, todas à sua maneira, para o bem-estar dos LGBT+. Ele nos conta sobre a origem de seu projeto Rainbold Society e as dificuldades que tem encontrado.

“Meu desejo nasceu há muito tempo. Não penso ter tido a ideia do século, pois todas as pessoas LGBT, chegadas a certa idade, se perguntam: ‘Como vou envelhecer?’ Entre homens gays na faixa dos 40 anos, como meus amigos, essa é uma questão que surge no final da tarde quando um amigo leva a mãe para o lar de idosos: ‘Como vamos viver?’”

Trabalhei durante 15 anos na Bouygues Telecom. No momento de chegada do Free, um plano de demissão voluntária foi lançado em minha empresa. Decidi sair. Eu já tinha feito muito trabalho voluntário em cuidados paliativos e no apoio a pessoas com HIV em situações de precariedade. Essas ações haviam forjado fortes convicções em mim. Fiquei espantado com a forma como a sociedade olha para as pessoas idosas. E se elas são LGBT+, sofrem, além disso, uma sentença em dobro.

Depois da Bouygues, tornei-me diretor de dois EHPAD, um em Bobigny e outro no 17° distrito de Paris. Naquela época, me dei conta de que as pessoas idosas LGBT+ podiam ser vítimas de homofobia. O olhar das famílias e de outros residentes da casa de repouso é duro. Eu me lembro que havia uma lésbica idosa. Assim que ela recebeu seus amigos, houve pequenos risos de escárnio. Um senhor também colocou o quadro de sua esposa em seu quarto. Mas de tanto ser perguntado sobre isso, ele o tirou…

Nessa época, eu trabalhava muito. À beira da fadiga, decidi me demitir em janeiro de 2017. Comecei então a colaborar com start-ups da “economia de prata” (o conjunto de atividades econômicas ligado a pessoas idosas).

 

Um habitat coletivo e participativo

Alguns meses mais tarde, estruturei meu projeto de casa da diversidade para idosos LGBT. Entrevistei, em julho de 2017, idosos de toda a França para alimentar essa ideia. Porque quero trabalhar com os idosos e não para os idosos. As ideias que tenho devem corresponder à deles. Uma vez por mês, nós nos reuníamos em oficinas com cerca de sessenta homens e mulheres LGBT+ idosos. Todos opinaram para conceber essa casa. Entre os idosos que participaram, havia alguns que fazem parte da Maison des Babayagas. É um espaço coletivo autogerido onde 21 alojamentos são reservados a mulheres com mais de 60 anos e quatro para jovens com menos de 30 anos. O projeto me inspirou muito para criar minha casa da diversidade.

Já redigimos nosso regimento para esse ambiente participativo. Haverá 20 apartamentos para alugar, com serviços de cuidados e ajuda à pessoa. Cada um terá seu apartamento, mas partilhará as partes comuns. Por exemplo, em vez de todos terem um quarto de hóspede, haverá um por andar e tentaremos otimizar seu uso. Os idosos decidiram também ter uma quitinete em cada apartamento, mas ainda instalar uma sala de jantar comunitária para que eles possam se encontrar e criar uma ligação social. Nessa casa, 80% das vagas será destinada a pessoas com mais de 60 anos e 20% com menos de 60 anos. Espero abrir a primeira em Paris, mas não antes de 2021.

 

Não voltar para o armário

Recebi muitas críticas dizendo que meu projeto não teria futuro. Ora, vejo que a homofobia está sempre presente em nossa sociedade. E não quero que um idoso LGBT+ volte para o armário aos 60 anos. Isso pode acontecer, como minha experiência no EHPAD me mostrou.

Pensaram também que quero construir um gueto. Não será o caso, pois quero poder acolher certo percentual de idosos heterossexuais. Assim, as atividades organizadas, seja pilates, um cine-debate ou curso de informática, serão abertas a todos do quarteirão. Quero simplesmente oferecer uma opção às pessoas que não têm escolhas. Muitos idosos LGBT+ ficam preocupados quando são acolhidos em um ambiente heterocentrado.

 

Falta de financiamento

Hoje, procuro realizar um estudo de viabilidade e encontrar um lugar. Comecei a conhecer várias personalidades políticas. Fui à prefeitura do 19° distrito, ao gabinete de Ian Brossat (vice-prefeito de Paris) e à Assembleia Nacional. Sem participação política, o projeto não terá vida. Se são muito atenciosos, os políticos deveriam defender a lei comum. Eles querem que trabalhemos o caráter inclusivo do lugar. Daí a ideia de atividades abertas para todos e atrair heterossexuais simpatizantes.

Por enquanto, ainda não me encontrei com agências governamentais, como a Agência Nacional de Saúde (ARS, na sigla em francês). De fato, decidi abrir uma residência de serviço sênior que não está no campo médico, pois é para pessoas autônomas. Haverá um sistema de prevenção, em vez de cuidados. Então, se eu mostrar que esse sistema funciona, desenvolverei a parte de cuidados, que será, espero, financiada pela ARS.

Estou procurando financiamento. Tenho muitos parceiros potenciais que são de fortes grupos, alguns fazem parte do CAC 40. Mas quando é preciso pagar, sinto que eles temem por sua imagem… Eles me dizem, como políticos, que o projeto é muito segregador, que é preciso ser inclusivo. Realmente sinto que tenho um teto de vidro porque é uma casa LGBT+. Eles têm medo de que o lugar se torne um gueto. Mas, não! Diferentemente dos Estados Unidos e Canadá, onde uma marca que não é LGBT-friendly perde parte do mercado, na França é o contrário…

Pedi também a diferentes organismos LGBT+, como a Delegação Interministerial de Luta contra o Racismo, o Antisemitismo e o Ódio anti-LGBT (DILCRAH, na sigla em francês), que me respondeu não financiar estudos de viabilidade. Fui pego por vinte recusas de todos os lados… Entretanto, em Berlim, o Schwulenberatung, um centro LGBT, lançou uma casa desse tipo há quatro anos e é um sucesso total. Eles têm 400 pessoas na lista de espera!

 

Reportagem de Clément Boutin publicada em Têtu de 27 de julho de 2018. Disponível em: http://tetu.com/2018/07/27/je-veux-pas-quun-senior-lgbt-retourne-placard-maison-de-retraite/?utm_source=t.co&utm_medium=referral.

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s