Labirinto eleitoral

Passado o período das convenções partidárias para definição dos candidatos aos cargos disponíveis e às coligações nas eleições majoritárias e proporcionais de outubro que vem, assim como nos aproximando do prazo final para registro das candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 15 de agosto, o Resista! Observatório de Resistências Plurais começa um conjunto de análises e o acompanhamento do processo eleitoral a fim de contribuir para a divulgação de informações confiáveis.

Era necessário aguardar a definição das listas de candidatos para a eleição majoritária (presidente/vice-presidente e senadores – renovação de 2/3 do Senado – e governadores) e a eleição proporcional (deputados federais e estaduais) para se ter um quadro aparente e supostamente mais claro daquilo que nos é oferecido. Tendo isso estabelecido, vamos nos ocupar preferencialmente do processo eleitoral em Minas Gerais, abarcando o país no que disser respeito à campanha presidencial.

Nossa intenção é, inicialmente, reservar as quartas-feiras para publicações com esse tema no blog e diariamente no perfil do Facebook. Nossa intenção está pautada por nosso Manifesto, disponível para leitura tanto neste blog quanto no perfil do coletivo. Sendo assim, quem compartilhar dos princípios divulgados no Manifesto Resista! está convidado a contribuir com esta movimentação.

Hoje, vamos nos apoiar na rememoração que a psicanalista Suely Rolnik nos oferece. Em seu recém-lançado livro Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada (São Paulo, n-1 edições, 2018), Rolnik analisa os últimos anos de descarrilamento político no Brasil. No último capítulo da obra, “A nova modalidade de golpe: um seriado em três temporadas”, ela apresenta de maneira lúcida, sucinta e transparente o passo a passo do desmonte iniciado pelas forças conservadoras.

Partindo da metáfora do seriado dividido em temporadas, Suely Rolnik resume a recente história do país em um golpe dividido em três temporadas: a primeira foi iniciada em 2004, com denúncia que mais tarde foi denominada Mensalão, chegando ao impedimento da presidenta Dilma Rousseff. A segunda temporada se circunscreve ao desmonte da Constituição, à desqualificação do imaginário progressista, à amplificação do fantasma da crise econômica, à reforma trabalhista. A terceira temporada, em curso, desenvolve-se com a irrupção do surto conservador (perseguição, criminalização e caça ao que é diferente) e o atual processo eleitoral.

Vejam a síntese que ela faz:

O novo tipo de golpe, próprio do capitalismo neoliberal globalitário, consiste num complexo conjunto de operações micro e macropolíticas, no qual pretende-se matar muito mais coelhos numa cajadada só – todos os coelhos que atravessam as vias macropolíticas, concretas ou virtuais, visíveis ou invisíveis, por onde circula o capital transnacional a cada momento. São eles: os políticos de esquerda e o imaginário progressista a eles associado (pelas dificuldades que impõem ao desmantelamento da Constituição, às privatizações e à total entrega do País ao capital financeirizado transnacional e seus acionistas locais), os políticos de alma pré-republicana e escravocrata (por seu arcaísmo nacionalista e identitário, sua ignorância e incompetência, e seu péssimo hábito de precisar de um Estado inchado para mamar em suas tetas), parte do empresariado industrial local de mentalidade desenvolvimentista (não só por ser uma pedra no sapado dos conglomerados financeiros transnacionais, mas também por priorizar investimentos na produção, desperdiçando assim oportunidades de especulação) e, por fim, o próprio Estado em sua versão democrática e/ou nacionalista – tudo isso acompanhado micropoliticamente da neutralização da potência coletiva de ação pensante criadora que se mobilizaria diante desse quadro intolerável.

Em síntese, a nova modalidade de golpe de Estado é, na verdade, não só um golpe contra o Estado de direito e a democracia e, portanto, contra a sociedade (em suas possíveis ações na esfera macropolítica), mas, mais radicalmente ainda, é um golpe contra a própria vida – não só a vida humana, individual e coletiva, mas a vida do planeta como um todo (esfera micropolítica). E o capitalismo transnacional sai vitorioso e de mãos aparentemente limpas. Esta é, provavelmente, a apoteótica cena prevista para o final do seriado do golpe.

[…]

A nova modalidade de resistência

Passados os primeiros capítulos da segunda temporada, na qual se conseguira instaurar a ilusão de que não se tratou de golpe, seus capítulos seguintes – onde se vê a destruição das conquistas democráticas, a penalização da criação cultural, a perseguição aos modos de existir qualificados de minoritários e a desqualificação da política como um todo – não terão o mesmo êxito. Cada vez mais gente, em mais setores sociais e regiões do País, passa a se dar mais conta do sério risco que o poder globalitário do capitalismo traz não só para a continuidade da vida da espécie humana, mas do ecossistema do planeta como um todo. O sinal de alerta faz com que tenda a cair o véu de sua ilusão, tecido pelo abuso. Instaura-se nas subjetividades um estado de urgência que as faz batalhar para abrir o acesso à experiência subjetiva de nossa condição e viventes e retomar em suas mãos as rédeas da pulsão. Isso leva o desejo a deslocar-se de sua entrega ao abuso e a agir no sentido de transfigurar o presente, impedindo que a carnificina prossiga.

O fato de que, em sua nova dobra, fique mais escancarado que o capitalismo incide na esfera micropolítica dá origem a uma nova modalidade de resistência: surge a consciência de que a resistência tem que incidir igualmente nessa esfera. Isso aparece nos novos tipos de movimento social que vêm desestabilizando aqui e acolá o poder mundial do capitalismo financeirizado na determinação dos modos de existência que lhe são necessários. A propagação desse tipo de resistência, que se intensificou após o tsunami dos ditos golpes de Estado provocados pelo novo regime por toda parte, tem surgido principalmente entre as gerações mais jovens e, mais contundentemente, nas periferias dos grandes centros urbanos. Nesses contextos, destacam-se especialmente os citados movimentos das mulheres (numa nova dobra do feminismo), dos LGBTQI (numa nova dobra das lutas no campo da homossexualidade, transexualidade etc., na qual estas se juntam em torno de alguns objetivos e refinam suas estratégias, buscando não mais reduzir-se à reivindicação identitária, própria da luta na esfera macropolítica) e, também, dos afrodescendentes (numa nova dobra de suas lutas contra o racismo). A esses movimentos somam-se as lutas por moradia e o combate dos indígenas, cada vez mais amplo, preciso e articulado (também, em ambos, uma forte atuação na esfera micropolítica agrega-se à sua tradicional atuação na macropolítica). Nesse novo campo de batalha, cada um desses movimentos ganha nas forças.

(…)

Impossível prever o desfecho (sempre provisório) desse embate em que estamos envolvidos e que prosseguirá na terceira e talvez última temporada do seriado. Mas há um alento no ar que nos vem da experiência que estamos tendo de insubordinação da pulsão às sequelas de seu abuso colonial-capitalístico. Apesar dessa experiência ser relativamente recente, ela nos permite imaginar outros cenários e agirmos em sua direção. Isso nos faz acreditar que é possível despoluir o ar ambiente de sua poeira tóxica, pelo menos o suficiente para que a vida volte a fluir. O tratamento de tal poluição é micropolítico: um trabalho coletivo de descolonização do inconsciente, cujo foco são as políticas de produção de subjetividade que orientam o desejo e as consequentes formações do inconsciente no campo social. Esta é a tarefa que nos desafia no presente. Depois é depois: novas formas de existência se instalarão, com novas tensões entre diferentes qualidades e intensidades de forças ativas e reativas e seus confrontos, os quais convocarão novas estratégias de insurreição, num combate sem fim pela vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s