Elogio do fetichismo

É no culto ao fetiche que a lamentável história sexual da humanidade encontra sua versão mais conceitual e poética.

 

Há alguns meses, lancei-me na tarefa quixotesca e imensa de dar uma forma discursiva à existência in-existente do corpo trans. Não o faço por razões altruístas, mas porque essa invenção discursiva é a própria condição da vida daqueles que se encontram sendo nas margens da anatomia e da lei. Um dos parâmetros que constituem a subjetividade trans (comparada ao corpo naturalizado e normalizado dos cisgêneros – pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento) é a impossibilidade de se construir sem referência a um elemento (objeto, órgão, nome, tecnologia, instituição…) que não nos é dado e que não nos pertence: um objeto ou um órgão que se afirme como radicalmente outro e que, entretanto, reivindicamos ao mesmo tempo como universalmente possível e singularmente nosso.

O corpo trans mantém uma relação de alteridade reapropriada com seus próprios (impróprios) órgãos sexuais, mais especificamente com esse órgão que a medicina continua chamando de prótese e que nós chamamos nosso corpo. Com o objeto, reconstruo outro corpo, ampliado ou transformado, que, por um momento, age e vive. Incorporar o objeto é rejeitar sua condição e coisa, insistir em integrá-lo como vivo. Daí a hospitalidade que sinto em relação à prótese até considerá-la um órgão efêmero e externalizável de meu corpo.

A psicologia ocidental fala de “fetichismo” para designar essa relação do corpo sexual com o que ela considera um simples objeto. O fetichismo seria nessa gramática um meio patológico de obter prazer através do erotismo do objeto. O DSM IV, o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, se refere ainda ao fetichismo como uma “parafilia”, uma perversão ou um desvio do desejo sexual no qual o sujeito persiste em integrar um objeto inerte ou um órgão não genital ao circuito de produção de prazer sexual. O sujeito desloca a centralidade da penetração genital bio-pênis-bio-vagina e se direciona para um objeto, uma imagem ou um órgão não genital com o qual ele se relaciona sexualmente. Li com admiração a lista da “parafilias fetiches” do DSM: retifismo ou fetiche por pés, assim denominado em referência a Restif de La Bretonne; belonefilia, fetiche por agulhas; toonophilia, fetiche por desenhos animados; agalmatofilia, fetiche por manequins; dacrifilia, fetiche por lágrimas e choro… A lista é longa, mas deixe-me mencionar meu favorito: brontofilia, fetiche por tempestades. Percorri essa lista pensando que é no fetichismo que a lamentável história sexual da humanidade encontra sua versão mais conceitual e poética, a única digna de uma abordagem artística. Pergunto-me, então, e aos meus colegas psicólogos, se é possível continuar a utilizar hoje a noção de fetichismo como uma categoria de diagnóstico e tratamento clínico.

Defendo que, longe de ser um sinal de desvio ou perversão, o fetichismo nos mostra a extensão das restrições que a modernidade ocidental, com sua tarefa de produzir a experiência sexual civilizada, impôs à pulsão de vida.

E se as noções que a psicologia inventou, com o objetivo aparente de conhecer e tratar, eram de fato apenas instrumentos de uma operação cultural de destruição, descapacitação e assujeitamento? Os conceitos que nossas disciplinas modernas utilizam para explicar e classificar a experiência sexual, para compreender a construção da subjetividade normal e patológica, são marcados pela violência colonial. “Fetiche” é o nome que os primeiros colonizadores portugueses deram, ao longo do século XV, aos objetos aos quais os povos nativos da costa oeste da África atribuíam um valor singular, constituindo os elementos cruciais de um ritual no qual a diferença entre os vivos e os mortos, o orgânico e o inorgânico, o animal e o humano ultrapassava as taxonomias do pensamento cristão medieval. “Fetiche” era o nome com o qual mercadores coloniais e missionários europeus relegavam esses objetos e rituais ao posto de práticas de feitiçaria, experiências primitivas e patológicas, que deviam ser exterminadas.

No imaginário colonial, a noção de fetichismo serviu para legitimar a escravidão e as políticas imperiais. A razão ocidental des-autorizou a relação ritual e erótica com o inorgânico, qualificando-a de feitiçaria, patologia e primitivismo, para salvá-la mais tarde, apenas em momentos excepcionais e pela legitimação do mercado e da academia enquanto “arte”. Na modernidade colonial, o fetiche passa de mão em mão: do viajante Charles de Brosses ao economista Sir William Petty, deste a Kant, de Kant a Hegel, de Hegel a Auguste Comte, até chegar a Marx, em 1842, e tornar-se “o fetichismo da mercadoria”, noção central da crítica socialista ao capitalismo. Embora já seja interessante que a relação africana com a matéria inorgânica tenha sido equiparada a uma prática religiosa sacrílega e à feitiçaria, como uma patologia econômica e política, é ainda mais fascinante que essa noção tenha se tornado um conceito-chave da psicologia sexual moderna.

Em 1887, o psicólogo Alfred Binet, mais conhecido como o inventor do primeiro teste para medir a inteligência, escreve Fétichisme dans l’amour, um pequeno tratado no qual ele caracteriza como patológico o deslocamento do instinto sexual dos órgãos genitais para um objeto. Alguns anos mais tarde, Freud fará do fetiche a chave para compreender a diferença entre a heterossexualidade e a perversão: os fetichistas tratam os objetos como fetiches, enquanto para os heterossexuais o pênis e a vagina tornaram-se os únicos e bons fetiches. Assim, Freud herda a violência colonial que inventou o fetiche e o eleva à saúde mental. O que poderia ter sido nossa sexualidade se Freud tivesse sido africano?

 

Texto de Paul Preciado, publicado em 29 de junho de 2018 no jornal Libération. Disponível em: http://www.liberation.fr/debats/2018/06/29/eloge-du-fetichisme_1662985.

 

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

 

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