Revoltar é preciso

Em fevereiro de 2016, o historiador francês Patrick Boucheron fez uma conferência em Montreuil intitulada Como se revoltar?, que acaba de ser traduzida e publicada no Brasil (Editora 34, 2018). Em sua fala, o medievalista se detém a identificar alguns elementos que constituem a ideia e o ato de se revoltar na segunda metade do período medieval. Apresentadas com clareza e precisão invejáveis, assim como com fina e leve ironia, as informações são facilmente enxergadas em um mundo tão distante e diferente quanto este nosso contemporâneo.

Boucheron parte de um lugar comum – o tempo todo falamos em revolta e nos sentimos revoltados com várias coisas – para começar a deslindar porque a disposição de revolta é mais comum entre os jovens e o motivo pelo qual a revolta faz parte da ordem das coisas no universo humano. Porém, não interessa aqui retomar todo o raciocínio feito por ele. Esta reflexão ganha sentido quando relacionamos dois aspectos que Patrick Boucheron levanta com o processo que vivemos na história recente brasileira e, neste momento, com o período eleitoral.

O primeiro ponto: uma revolta é uma emoção coletiva, no sentido original da palavra emoção – aquilo que nos põe em movimento. “É um movimento interno, algo que nos mexe por dentro e nos obriga a nos aglomerar.” A consequência imediata de se sentir impulsionado, agitado por algo, seria buscar os pares que sentem/pensam, se movimentam e se ajuntam por motivações semelhantes às suas. Movimentos sociais em geral nascem assim: por um sentimento interior de indignação contra algo somado com a força de outrxs para construir ações em comum. A essa emoção coletiva, nós acrescentamos a comoção, também em seu sentido original: ser movido interiormente em companhia de algo/alguém, mudar um posicionamento interior movido pela reflexão do ato de revolta. A comoção não gera apenas uma ação exterior, mas também um deslocamento interior no sentido de aprimorar uma reflexão sobre um tema, um contexto, uma situação.

O segundo ponto: o ato de revolta implica “partir em grupo, num movimento coletivo e organizado, debandar para tornar a dominação inoperante”. Claro, Boucheron não está se referindo a mudar de cidade ou país (não é se sentir revoltado e ir embora para Miami ou Lisboa!) ou obrigatoriamente estabelecer um confronto armado para derrubar um dirigente (embora isso não seja descartado). A ênfase recai sobre o movimento em grupo, a movimentação coletiva e organizada com a intenção de abalar um governo – algo da ordem da desobediência civil. O historiador ainda esclarece que essa percepção está representada pela dos ativistas dos movimentos occupy como forma de resistência. Esse segundo ponto não significa dizer que o movimento deve ser monolítico, sempre no sentido de ocupar e fazer enfrentamentos físicos de violência. Saber ocupar, avaliar o processo/estratégias e dispersar/renunciar a espaços é uma maneira de revolta. Tudo depende de e exige experiência, isto é, revoltar-se é um processo contínuo, acumulativo e revisionista de enfrentar uma situação adversa.

Nesse sentido, um processo eleitoral democrático contém em seu bojo uma dimensão de afeto sustentada por um circuito interligado de emoção/comoção; de deslocamentos interiores e exteriores; de interesses em negociação; de diálogos e monólogos; de escutas e não escutas… São processos de revolta de graus diferentes entre e por aqueles que vão (ou não) escolher representantes com finalidades ou motivações variadas.

Como se revoltar, então, neste momento que vivemos no país? Bom, é sobre isso que tentaremos construir aqui no Resista! ao longo do período eleitoral. Pensar sobre algumas formas de agir coletivamente, de atuar com discernimento, de recusar o Messias, captando uma emoção coletiva e orientando-a a uma motivação também coletiva. A revolta busca sempre uma transformação. Um momento de ação poderá ser este.

Assinaturas-Luiz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s