“Ontem, o lugar da luta era a fábrica, hoje é o corpo.”

O filósofo e cronista do Libération se pergunta como criar uma nova gramática do desejo após o movimento #MeToo.

O caso Weinstein e a onda #MeToo transformaram as relações de sedução. Estamos vivendo uma civilidade mais igualitária nas relações amorosas e sexuais? Ou perdemos o gosto e a liberdade da carne ao formatar constantemente os códigos sedutores? Filósofxs, historiadorxs, diretorxs de cinema, médicxs esboçam até o fim de agosto o mapa de Tendre[i] do século XXI.

Para o filósofo Paul B. Preciado, não há dúvida: o caso Weinstein abriu uma grande crise política, sexual e institucional. Com um questionamento central: na heterossexualidade, quem tem o direito de desejar? Cronista do Libération, curador da Documenta de Kassel e da Bienal de Veneza, filósofo reconhecido na área de sexualidade e gênero, o incansável intelectual militante é um caso à parte: mulher lésbica tornada homem trans, Paul Preciado é um “trânsfuga” da diferença dos sexos, quer dizer, esse ser humano especial que experimentou em sua cabeça e em seu corpo o feminino e o masculino, bem como todas as nuances e atribuições ligadas a essas duas posições. “Fugitivo da sexualidade”, ele desenvolve essa incrível liberdade intelectual de estar em ambos os lados da parede do gênero e ainda mais além.

No outono, o caso Weinstein começou, pela primeira vez, com acusações públicas de assédio sexual, agressão sexual e estupro contra um dos mais poderosos produtores de cinema do mundo. Esse caso desencadeou uma reação geral, realizada pelo #MeToo e o #BalanceTonPorc[ii] na França. Por que tal explosão planetária?

O que #MeToo expressa é uma crítica à masculinidade em sua dominação e em suas relações de poder no seio do regime heterossexual. Alguns pensavam que a revolução sexual dos anos 1970 terminou, mas ela permanece mais do que nunca. Claro, o movimento feminista dos anos 70 criticou o poder masculino: as imagens das feministas francesas queimando seus sutiãs foram difundidas pela televisão, primeira teatralização mundial multidifundida de uma denúncia retomada em vários países, dos Estados Unidos ao Chile. Mas, após os anos 1980, o questionamento dos papéis sociais de gênero foi impulsionado principalmente por gays, lésbicas e pessoas trans.

Foram essas minorias sexuais que contribuíram para a politização da sexualidade e do gênero. Monique Wittig, Adrienne Rich e Gayle Rubin serão as primeiras a falar sobre a heterossexualidade não mais como prática sexual, mas como regime político e imposição normativa. Mas nesse meio tempo, no discurso hegemônico, mas também em certo lado do discurso feminista branco liberal, continuava-se a pensar que o “doloroso” problema (para retomar uma expressão da época) era a homossexualidade ou a transexualidade, enquanto a heterossexualidade permanecia incontestada e incontestável, como uma espécie de verdade natural, trans-histórica e transcultural. Naturalizada, ela saía do campo da crítica e da transformação política. Hoje, assistimos, via redes sociais e internet, a uma nova denúncia global, uma revolução micropolítica global na heterossexualidade, mas também à emergência de uma nova linguagem. Esse processo de denúncia e de visibilização da violência que estamos vivendo faz parte dessa revolução sexual, que, longe de estar terminada, é também incansável, embora lenta e sinuosa.

Sobre o que recai a atual crítica à heterossexualidade?

A verdadeira questão colocada pelo #MeToo é a do estupro, essa relação entre sexo, violência e poder. Acredito que um dos antecedentes do movimento #MeToo na França foi a polêmica criada pelo filme Baise-moi [Me fode, em tradução livre], dirigido por Virginie Despentes e Coralie Trinh Thi. Lançado em 2000, Baise-moi, que mostrava uma cena de estupro filmada de acordo com os códigos da pornografia (mesmo que o filme não fosse pornográfico), desencadeou uma verdadeira crise política: como duas mulheres podiam dar visibilidade ao estupro daquela maneira? Denunciar a impunidade do estupro na heterossexualidade era algo inaudível. O longa-metragem foi proibido para menores de 18 anos, uma censura de Estado. Para mim, Baise-moi e a crítica ao estupro escrita em primeira pessoa por Virginie Despentes em seu livro Teoria King Kong foram um pré-Weinstein. Falar sobre estupro é, obviamente, a questão-chave sobre a relação entre desejo e política. O que significa desejar quando não se está mais numa posição de poder? Nos anos 70, o escritor Guy Hocquenghem, um dos primeiros franceses a falar de sua homossexualidade, interrogava politicamente o desejo homossexual: um homossexual deseja diferentemente de heterossexuais? Ao seu modo, #MeToo interroga o desejo e reivindica a emancipação do desejo dos subalternos na heterossexualidade.

Por que é também um questionamento do desejo heterossexual masculino?

O desejo heterossexual masculino é construído historicamente sobre a posse e a violência. O desejo não é natural, ele é construído, é cultural. Ele se alimenta da assimetria do poder entre os homens e as mulheres: é, portanto, questionável e criticável. Poderíamos até dizer que homens e mulheres não são nada além do que ficções políticas que resultam dessa assimetria. Criticar essa construção é desencadear uma grande crise política, sexual e institucional, além de se perguntar: na heterossexualidade, quem tem o direito de desejar? Os homens, sim; as mulheres, não. De acordo com os códigos amorosos, mesmo que eles estejam em via de mudar, uma mulher que deseja e seduz é uma puta. A sedução repousa ainda hoje sobre a assimetria do poder. Como construímos um desejo que não reproduz mais essa desigualdade face ao poder? A questão política central é: podemos desejar de outra forma? Podemos aprender a desejar fora das normas de gênero e das assimetrias políticas?

 

Até que ponto a sexualidade masculina está ligada à violência?

O que caracteriza a posição dos homens nas sociedades tecnopatriarcais e heterocêntricas é que a soberania masculina é definida pelo uso de técnicas de violência (contra as mulheres, contra as crianças, contra os homens não brancos, contra os animais, contra o planeta em seu conjunto). Poderíamos dizer, ao ler Max Weber com Judith Butler, que a masculinidade está para a sociedade assim como o Estado está para a nação: o detentor e o usuário legítimo da violência. Mas não há nada de natural aqui. Essa violência masculina se exprime socialmente sob a forma de dominação, economicamente sob a forma de privilégios, sexualmente sob a forma da agressão e do estupro. Ao contrário, no regime heterossexual, a soberania feminina está ligada à capacidade das mulheres de procriar. As mulheres são sexualmente e socialmente subjugadas. Apenas as mães são soberanas. São o monopólio das técnicas de violência masculina e o vínculo entre violência e prazer sexual que colocam em crise o movimento #MeToo. Como então definir a soberania masculina sem a violência?

 

Mas, desde a década de 1970, as mulheres são livres para aceitar ou não uma relação sexual, e a sexualidade masculina mudou também.

Como mostraram Monique Wittig e Carole Pateman, a heterossexualidade é não apenas um regime de governo, mas também uma política do desejo. A especificidade desse regime é que ele encarna tanto o processo de sedução quanto o de dependência romântica entre os agentes sexuais aparentemente “livres”, homens e mulheres. Essas posições não são escolhidas individualmente, e não são conscientes. A heterossexualidade é uma prática de governo que não é imposta por aqueles que governam (os homens) às governadas (as mulheres), mas sobretudo uma epistemologia que fixa as definições e as posições respectivas de homens e de mulheres pelo viés de uma regulação interna. Essa prática de governo não toma a forma de uma lei, mas de uma norma não escrita, de uma transação por gestos e códigos que têm como efeito estabelecer na prática da sexualidade uma partição entre o que pode e o que não pode ser feito. Essa forma de servidão sexual repousa sobre uma estética da sedução, uma estilização do desejo e uma dominação historicamente construída e codificada, erotizando a diferença do poder e a perpetuando. Essa política do desejo é o que mantém vivo o que chamo de antigo regime “sexo-gênero”, apesar de todos os processos legais de democratização e de empowerment das mulheres. É esse regime heterossexual que o #MeToo coloca em crise. Acredito que estamos vivendo uma mudança de paradigma na organização do gênero e da sexualidade semelhante à que foi vivida em outras épocas com a secularização dos saberes, com a teoria heliocêntrica ou a abolição da escravidão. Mas obviamente, é um processo longo que implica uma transformação das instituições, das linguagens, das representações, das leis: uma revolução total.

 

Na revista le débat, Marcel Gauchet fala do fim da dominação masculina. Há um confronto masculino face ao #MeToo…

É a resistência dos patrões do sexo face à revolução das operárias! Na França, a contrarreforma foi iniciada em 2000 quando Eric Zemmour escreveu Le premier sexe (editora Denoël), justamente no momento de Baise-moi. Desde os tremores da revolução sexual e anticolonial do século passado, os heteros patriarcas embarcaram num projeto de contrarreforma. Na heterossexualidade defendida por essa contrarreforma, o desejo heterossexual masculino vem em primeiro, naturalizado, fossilizado. Ora, o desejo está sempre em processo de construção. Ele se inventa e se transforma em imagens, textos, literatura, poesia, pornografia. No roteiro da heterossexualidade, o monopólio do desejo e da violência é dado aos homens. Hoje, a questão é: quem detém esse monopólio? Como redistribuir o poder na sexualidade? Esse debate começou no século XIX. Mas há uma questão mais radical: a dimensão construída do desejo remete à construção dos gêneros e das sexualidades. Uma transformação do desejo implica, portanto, em uma transformação das identidades, dos homens e das mulheres, que são todxs ficções políticas.

Daí um pânico dos homens e de certas mulheres…

Há um pânico em pensar que a heterossexualidade pode entrar em colapso. O roteiro político da heterossexualidade está sendo reescrito e a classe dominante (masculina e heterossexual) não abandonará seus privilégios tão facilmente. Se a grande luta operária do século XIX e do começo do XX foi pela apropriação e coletivização dos meios de produção, a luta do final do século XX e começo do XXI é a dos colonizados, das minorias sexuais e do gênero pela apropriação e coletivização dos meios de reprodução. Ontem, o lugar da luta era a fábrica; hoje, são o corpo e a subjetividade.

Com o que poderia se parecer um novo desejo sexual?

Como aprender a desejar a liberdade sexual? É preciso acreditar em uma nova gramática, entrar em uma política da experimentação. O que me preocupa é o retorno a uma política sexual naturalista e descritiva, segundo a qual nós já sabemos o que homens e mulheres desejam, do que são capazes. Dois elementos diferenciais separam a estética trans-queer da estética da heteronormatização do antigo regime: o consentimento e a não-naturalização das posições sexuais. A equivalência de corpos e a redistribuição do poder. É preciso imaginar uma sexualidade sem heteros e homos, sem homens e sem mulheres.

 

Entrevista de Paul Preciado a Cécile Daumas publicada no jornal Libération, em 20 de julho de 2017. Disponível em: <http://www.liberation.fr/debats/2018/07/20/paul-b-preciado-hier-le-lieu-de-la-lutte-etait-l-usine-aujourd-hui-c-est-le-corps_1667833>.

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

[i] Tendre (sensível, em francês) era um país imaginário do romance francês Clélie, de Madeleine de Scudéry (1607-1701). O mapa de Tendre esboça uma topografia alegórica formada por três cidades principais e três rios. O deslocamento entre elas estabeleceria trajetos metafóricos sentimentais e amorosos que poderiam apontar para a paixão ou o tédio.

[ii] Balance ton porc é um movimento francês, similar ao MeToo, para denúncia de assédio sexual, agressão sexual ou estupro. O endereço do site é https://www.balancetonporc.com/.

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