Uma vela a Deus, outra à Arte

No próximo mês, fará um ano do início de uma movimentação conservadora que levou ao fechamento de uma exposição de artes plásticas em Porto Alegre (RS) – a Queermuseu. Em setembro de 2017, segmentos dos campos religioso, político e da sociedade civil se uniram para pressionar a Fundação Santander a encerrar antes do prazo a exposição de 208 trabalhos sob a alegação de incitação à pedofilia e zoofilia, escarnecimento de símbolos religiosos cristãos, ausência de classificação proibitiva para menores, estímulo a práticas sexuais consideradas anormais. O final dessa história – a Fundação Santander se submeteu à pressão e encerrou a exposição – foi o início de uma onda que explicitou uma movimentação subterrânea – de caráter retrógrado, conservador e aliado a censura – que vinha se organizando de forma latente há anos e se espalhou pelo país.

[Felizmente, a Queermuseu foi inaugurada dia 16 de agosto passado no Parque Lage, no Rio de Janeiro, financiada inteiramente por meio de vaquinha eletrônica iniciada em janeiro, não dependendo do apoio financeiro público ou privado (fundações privadas e similares).]

No final de setembro daquele ano, aquela onda veio bater em Belo Horizonte, visando à mesma intenção com relação à exposição Arte Minas, mais objetivamente contra a exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina”, do já falecido artista Pedro Moraleida, no Palácio das Artes (PA). As argumentações foram as mesmas do imbróglio gaúcho, reunindo representantes mineiros daqueles mesmos campos – grupos religiosos católicos e evangélicos, representantes desses grupos na Câmara de Vereadores e na Assembleia Legislativa, o MBL, o Endireita Minas etc.

O governo mineiro resistiu e manteve – sem ceder a pressões de três cultos realizados na calçada em frente ao PA – a exposição até sua data prevista de encerramento, em meados de novembro. Dessa resistência também surgiram algumas manifestações favoráveis à exposição e pelo menos dois coletivos: a Frente Nacional contra a Censura e o Resista! Observatório de Resistências Plurais.

Agora, com a proximidade das eleições para governador, Minas Gerais dispõe de oito candidatos que terão oportunidade de manifestar sua visão e a dos partidos coligados com relação à área cultural por meio de suas plataformas e planos de governo. Algumas ocasiões já se mostraram favoráveis a isso. Nesse ensejo, no domingo passado (26/08), o jornal O Tempo publicou uma reportagem baseada em uma enquete com três perguntas direcionadas a seis dos candidatos, mencionados aqui por ordem alfabética: Antonio Anastasia, Dirlene Marques, Fernando Pimentel, João Batista Mares Guia, Jordano Metalúrgico, Romeu Zema. As questões foram as seguintes: O que pretende fazer na área da cultura; Como promover o encontro do público com as expressões artísticas; Comente as polêmicas e as reações por conta de exposições que envolviam nudez e sexualidade.

As respostas à terceira questão são as que nos interessam mais diretamente agora. Zema foi o mais curto e aparentemente sincero: considerou difícil opinar, reconheceu não ser especialista em arte, mas ressalvou a necessidade de “respeitar as diversidades e expressões culturais”. Mares Guia, Jordano, Dirlene e Pimentel convergem, no discurso apresentado, no consenso de não aceitar a censura, não ceder a pressões retrógradas e defender a livre expressão artística.

Por fim, Anastasia pondera: “Não se pode ofender, na forma da lei, os símbolos religiosos. Mas não podemos falar em censura quando o assunto é a cultura.” Em seguida, defendeu o livre arbítrio, a visão imparcial, a liberdade de ver ou não ver… E por aí foi a fala ensaboada, tentando garantir às manifestações artísticas a liberdade de expressão e veiculação, mas, ao mesmo tempo, sobrepondo-se à laicidade do Estado, fez a defesa do argumento da vertente religiosa. Qualquer pessoa em sã consciência sabe perfeitamente bem que não houve ofensa a símbolos religiosos nas exposições mencionadas.

Se recuamos um passo e olhamos a coligação que dá sustentação à candidatura do senador ao governo do Estado, observamos, junto ao seu partido (PSDB), o Democratas, PP, PHS, PSC, PPS, PSD, PTB, Patriota (cujo candidato a presidente é o cabo Daciolo), PMB, PTC e Solidariedade. Assim, fica possível compreender, a partir desse mingau partidário, marcado claramente por um posicionamento de direita, a ambivalência do começo da fala do candidato peessedebista.

Com mais um recuo, agora temporal, sabemos que quem iniciou a mobilização contrária à exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina” foi o deputado estadual João Leite, pastor evangélico e companheiro de partido de Anastasia. Talvez assim fica um pouco mais clara a fala ensaboada, que escorrega quando se tenta segurar: como ignorar um fiel partidário, vertedouro de votos na seara evangélica? Como encarar e contrariar uma ala religiosa potente, capaz de interlocução com outras igrejas de denominação evangélica, dentro do próprio partido? Como evitar desagradar aquele caldo partidário que contém diversos integrantes de vertentes cristãs conservadoras?

Por instáveis ou frágeis que sejam as outras opções, pelo menos no tema dessa enquete aquele que destoou da música é o que demonstra não ter condições de manter a livre expressão artística a salvo das investidas reacionárias. Vade retro, pois…

Assinaturas-Luiz

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