Insultos, prisão, teste anal… Karim conta sobre sua prisão por “crime de homossexualidade” na Tunísia

Karim B., 40 anos, é diretor de curtas-metragens na Tunísia. Bissexual “desde sempre”, casado e pai de uma menina de 8 anos e meio, ele sofreu uma violenta prisão por “homossexualidade” – um crime punível pelo artigo 230 do Código Penal tunisiano e passível de três anos de prisão. Enquanto milhares de pessoas se manifestaram contra a descriminalização da homossexualidade na Tunísia, no sábado, 11 de agosto de 2018, Karim já sofrera insultos, isolamento e testes anais durante 12 meses “de horror” na maior penitenciária do país. Ele rememora essa experiência traumatizante para Têtu.

Sempre tive um tipo de vida dupla: de um lado, a vida de todos os dias com minha esposa e minha filha; de outro, minhas aventuras com rapazes. Eu vivenciei isso sem muita dificuldade, sempre sem o conhecimento das pessoas mais próximas, exceto de minha esposa, de quem nunca escondi minha bissexualidade. Mas em 2017, esse equilíbrio se rompeu definitivamente.

Tudo começou no dia 10 de março de 2017: eu e minha esposa estávamos separados e tive alguns problemas com bebida. Naquela noite, decidi dar uma volta pelos bares do centro de Túnis e encontrei um jovem de 21 anos, que é gay. Paqueramos e naturalmente o convidei para tomar um drinque em minha casa. O pesadelo começou após nossa transa, quando o peguei remexendo nos bolsos de minha roupa para tentar roubar alguma coisa. Fiquei com raiva, e a situação piorou. Tentei colocá-lo pra fora, mas se ele se trancou em um quarto, antes de chamar a polícia.

 

“Um policial apontou uma arma para mim”

Implorei para que saísse, mas ele não queria, por medo. Então decidi caminhar pelo bairro e aproveitei para chamar um amigo advogado. Voltei alguns minutos mais tarde e vi vários carros de polícia e vários vizinhos em frente ao meu prédio.

Os policiais foram verdadeiramente grosseiros. Foi um escândalo; todo mundo me encarava. Apresentei-me a eles e um oficial de polícia apontou uma arma para mim antes de me fazer entrar em um dos veículos. Realmente, tive a impressão de ser um grande criminoso.

O jovem já estava no carro da polícia e me dei conta de que ele havia explicado a um dos policiais que havíamos transado. O pior disso tudo é que ele nem parecia saber que isso era uma infração na Tunísia! Naquele momento, o mundo desabou sobre minha cabeça!

 

“Isso vai te servir como lição”

Chegamos à delegacia para o interrogatório. De sua parte, o jovem ‘confessou’ tudo, enquanto eu neguei tudo completamente. Fomos colocados sumariamente sob custódia.

Na manhã seguinte, fomos levados a um centro de medicina legal para fazermos um teste anal, supostamente para provar ato de sodomia. Fui recebido por um psicólogo que me informou sobre o direito de me recusar a me submeter ao teste. Evidentemente, não quis fazê-lo porque era o pior ataque à minha dignidade. Mas, infelizmente, não era a coisa certa a fazer, já que o promotor tomou isso como presunção de culpa.

As 48 horas de custódia no centro de detenção foram dificilmente suportáveis. A polícia não parou de fazer insinuações depreciativas e humilhantes. Os oficiais repetiam para mim: “Isso vai te servir como lição!” Um mandado de prisão foi aberto contra mim e fui transferido para Mornaguia, a maior prisão da Tunísia, na periferia de Túnis.

 

Um ano sem julgamento

Meus primeiros dias na prisão foram extremamente difíceis. Como a acusação sempre está escrita explicitamente no inquérito, todos os oficiais ficaram forçosamente sabendo o motivo de minha prisão. Os quatro primeiros meses com os outros detentos foram insuportáveis: as agressões verbais e os insultos fizeram parte de meu cotidiano, a tal ponto que tive que ser levado para o isolamento diversas vezes. Eu estava em colapso e sob assistência psiquiátrica.

Minha situação melhorou ligeiramente no final do quarto mês, quando fui transferido para uma cela com pessoas mais esclarecidas e de um nível social mais elevado. Mas os oito meses restantes foram, ainda assim, extremamente difíceis psicologicamente, já que eu não sabia quando seria julgado e nem quanto tempo permaneceria naquele lugar. Poderia ter sido seis meses como três anos!

 

“O teste anal, um ato de barbárie”

Meus advogados tentaram me tranquilizar da melhor forma possível, e, seguindo um de seus conselhos, pedi para fazer um teste anal. Eu me dizia que, vários meses após os fatos, havia todas as chances de que os resultados fossem negativos, quer dizer, que eles não revelassem relações sexuais anais, e que isso pudesse ser usado de uma maneira ou de outra a meu favor.

Vi-me diante do médico da prisão, auxiliado por um enfermeiro e um oficial de justiça. O policial retirou minhas algemas no último momento, pouco antes de o médico me pedir para me despir, me agachar e abrir as pernas. Ele colocou luvas e enfiou um dedo no meu ânus. É esse ato, considerado um ato de medicina, que supostamente prova a sodomia. É desumano e humilhante. Isso não é nada além do que um ato de barbárie e continuará sendo meu maior trauma nesse ano que passei na prisão.

Os resultados ficaram prontos um mês depois e, obviamente, deram negativos. Só que ninguém na prisão e no sistema carcerário ou judicial levou isso em consideração, e continuei preso. Quando me dei conta de que havia feito o teste por nada, fiquei literalmente alquebrado.

 

“É indigno do meu país”

Finalmente fui julgado algumas semanas antes de sair da prisão e condenado a 12 meses de reclusão. Hoje, cinco meses após ter saído, ainda estou completamente aniquilado e tenho dificuldade de retomar uma vida normal. Não tenho atividade profissional, não retomei contato com meus amigos, pois estou coberto de vergonha. Mas também estou encolerizado com meu país. É indigno da Tunísia atacar os homossexuais, e eu sempre a culparei por ter me submetido a isso.

Por vezes, considero ir morar em outro lugar, e por que não na Europa, pois sinto que serei incapaz de viver neste país que me fez tanto mal. Entretanto, sonhei com a Tunísia quando o regime de Ben Ali entrou em colapso em 2011. Acreditava nisso e queria participar de sua reconstrução. Esse sonho se rompeu.

 

Reportagem de Marion Chatelin publicada na revista Têtu, em 22 de agosto de 2018. Disponível em: <http://tetu.com/2018/08/22/insultes-prison-test-anal-karim-raconte-son-arrestation-pour-delit-homosexualite-tunisie/?utm_source=t.co&utm_medium=referral>.

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s