Jack Halberstam: “É digno aceitar o fracasso.”

Um diálogo transfronteiriço com o teórico e ativista queer Jack Halberstam onde discutimos sobre os desafios de uma vida trans na academia norte-americana, os conflitos políticos das identidades não-binárias, sua noção de um “feminismo gaga”, a importância dos asteriscos e os desafios que tem o ativismo feminista transnacional.

Conheci Jack Halberstam – um dos mais reconhecidos e inspiradores teóricos queer dos Estados Unidos, autor de importantes livros para o ativismo transfeminista – na primeira vez que viajei ao estrangeiro, com 28 anos de idade.

Estava no terceiro ano de minha pós-graduação em Biologia Celular e Bioquímica do Câncer e tive a possibilidade viver por seis meses em San Diego, Califórnia, uma tranquila cidade ocupada por cientistas, praias e montanhas. Talvez um lugar ideal demais para mim, um ressentido ativista da dissidência sexual do sul.

Comecei a ir a Los Angeles nos finais de semana, onde criei laços com vários artistas e ativistas queer graças a Sam, um lindx companheirx que iniciava sua transição de gênero e que eu conhecera anos antes em um encontro de mulheres lésbicas e bissexuais em Valparaíso. Foi nessa cidade de estrelas da fama e grandes autoestradas, onde sempre encontrava um irmão mexicano trabalhando, muitas lojas de roupas usadas e uma intensa história de resistência no ativismo político e feminista, que tive a possibilidade de falar com Jack.

Encontramo-nos numa manhã de sábado e conversamos sobre as assimetrias entre os contextos do norte e do sul, sobre as complexidades de publicar teoria feminista, trocamos experiências e desejos, tudo isso mediado pela tradução de Sam, que generosamente nos ajudava a nos comunicar entre meu péssimo inglês e o mesmo tanto do espanhol de Jack.

Antes de conhecê-lo, eu havia lido um importante livro seu: Masculinidades femeninas, traduzido por Javier Saéz e publicado pela editora espanhola Egalés em 2008. Esse livro, reconhecido como um “clássico da teoria queer”, guiou durante anos a discussão do ativismo transnacional ao ser o pioneiro em pensar a masculinidade como tecnologia de gênero no corpo das mulheres.

Jack, nesse livro, fez sua pesquisa por meio de uma “metodologia queer” que “supõe certa deslealdade com os métodos acadêmicos convencionais” quando faz intervir em sua análise o cinema de Hollywood, a literatura, a fotografia e a cultura popular de uma maneira sem preconceitos e interdisciplinar.

Tempos depois, voltamos a nos ver em Santiago no encontro do Instituto Hemisférico de Performance e Política de Nova York, participando juntxs em um grupo de trabalho que chamamos “sexualidades excêntricas”, onde se aprofundaram nossas alianças ativistas, mas também se puseram em tensão as violentas assimetrias que alguns de nós vínhamos tendo com os acadêmicos queer quando estudavam os contextos latino-americanos.

Jack, sempre alerta ao contexto e suas resistências, fez uma conferência no Teatro Nacional Chileno sobre seu livro mais recente – TRANS*, no qual analisou a presença do corpo trans ao longo da história, sempre com seu característico modo que envolve tanto intelectuais quanto famosos da televisão. Nessa conferência, ele nos falou das políticas do asterisco, um signo diacrítico que alerta para uma explicação, um esclarecimento, porque a sexualidade na era da transgeneridade nunca é simples. Foi assim que, em meio às complexidades e confusões que marcaram o encontro, e depois de sua conferência, saímos com Macarena Gómez-Barris, acadêmica feminista e escritora chilena, companheira de Jack, e nosso amigo, o antropólogo queer Baird Campbell, que traduziu, transcreveu e aprofundou o diálogo que emerge dessa pequena biografia ativista comum que nos une.

 

Você vive em um contexto em que a academia já permitiu a presença trans em seus programas de formação, gerando uma paisagem ainda impensável para nosso país, onde, de fato, ainda se exige o direito à educação gratuita. Considerando esse cenário, gostaria de saber brevemente como tem sido sua experiência como pessoa trans masculina na academia.

Isso mudou muito em momentos diferentes. Você também deve ter experimentado isso: às vezes você é algo estranho, de repente você fica na moda e depois volta a ficar entediado. Então, muda, mas é verdade que no começo de minha vida profissional foi muito difícil ser uma pessoa não-binária e ao mesmo tempo ver-me obrigado a seguir chefes muito tradicionais no contexto acadêmico. Agora é mais fácil. Por exemplo, no trabalho que tenho agora me perguntaram qual pronome eu usava, se deviam referir-se a mim no masculino ou feminino. Perguntam isso. Nunca em minha vida inteira me haviam feito esse tipo de pergunta no local de trabalho. Então a mudança é muito rápida, o que no dia a dia significa que a vida de uma pessoa trans é mais fácil, mas, em um sentido mais amplo, não é necessariamente maravilhosa. Não é bom para todos, é bom para mim. Talvez seja bom para você. Mas, como disse a mulher colombiana na minha apresentação, ser trans não é tão bom para as mulheres que ela representa na Colômbia, as mulheres trans que não têm acesso à saúde e são muito, muito vulneráveis. Isso é o que quis dizer.

 

Você acredita que sua trajetória política e intelectual teria sido muito diferente se você tivesse publicado sempre como Jack?

Não, acho que não, mas creio que eu teria passado despercebido como Jack, como homem, e acredito que o fato de ter mudado meu nome em dado momento sempre me trai como alguém cuja identidade não está resolvida. As pessoas sempre me falam: “Estou me referindo a um livro de quando você se dizia Judith”. Bom, eu continuo sendo Judith. Eu não nego a Judith, sabe? Há pessoas em minha família que ainda me chamam Judith, então, o nome não é o que importa.

 

Você falou em entrevistas anteriores que as pessoas queer, nesse mundo de acumulação de capital e domesticidade reprodutiva, estamos condenadas ao fracasso, mas que fazemos desse fracasso um projeto de vida digna. Samuel Beckett dizia: “Fracasse uma vez, fracasse novamente, fracasse melhor”. O que uma arte queer da derrota, como diz o título de um de seus livros (The Queer Art of Failure, Duke University, 2011), nos pode oferecer para dar dignidade a nossas vidas?

Acredito que o nosso papel é estar sempre no lado contrário ao das pessoas que se representam como bem-sucedidas. Frente à representação que fazem de nós como pessoas que estão destinadas ao fracasso, há duas opções: você pode tentar tomar parte do grupo que se vê como bem-sucedido ou pode aceitar o fracasso. Acredito que é digno aceitar o fracasso. E acredito que não é digno esperar sempre ter êxito. Essa foi a mentalidade de Donald Trump durante as últimas eleições: “Vou ganhar!”. O ganhar, a ênfase que se dá ao ganhar nos Estados Unidos e no mundo, é como uma ideologia, quando realmente as tradições queer que mais gosto – José Esteban Muñoz, Pedro Lemebel, Leslie Feinburg – são tradições em que eles não estão incomodados com o fracasso, precisamente porque ganhar é tornar-se parte de um sistema político ao qual você quer se opor.

 

Por que estudar essas tradições queer do fracasso a partir das práticas artísticas? O que te parece importante resgatar da arte e suas produções estéticas e políticas?

Porque a experiência é múltipla. Vive-se a vida de 60 milhões de maneiras, mas a estética nos dá um modelo, nos entrega uma simbologia. Ela nos permite discutir de forma abstrata uma representação que todos podemos ver e opinar sobre uma obra de arte ou uma performance. E se ficarmos somente com a experiência, só poderemos ser cinco pessoas em uma mesa, cada uma com sua experiência, dizendo: “Não, é minha experiência!”. Então, para mim, a cultura popular é uma maneira muito boa de ter uma discussão que possa ir mais além da universidade, que possa entender-se em outro lugar e que é ao mesmo tempo abstrata e com uma complexidade material.

 

Alguns ativistas criticaram duramente a presença de Lady Gaga nos eventos que lembraram o horroroso massacre na boate gay Pulse em Orlando, em junho de 2016. Eles argumentam que sua presença segue reproduzindo a lógica de dar voz a alguns privilegiados à custa da comunidade ativista, que é excluída dos meios de comunicação de massa. Qual a sua opinião sobre a presença de Lady Gaga nesse contexto, considerando seu livro Gaga Feminism (Beacon Press, 2013)?

Para mim, nunca se tratou realmente de Lady Gaga. Ela apenas ocupava um espaço no “gaga”. Gaga é um termo genial e bom para ela que o agarrou, mas não é porta-voz queer de nada. De fato, é um claro sinal de como algo que tem um pouquinho de potencial radical se normaliza rapidamente. Meu interesse particular em Lady Gaga não é muito: para mim a expressão feminismo gaga é como dizer anarcofeminismo, ou feminismo dadá, ou feminismo do absurdo. O “gaga” é um bom termo porque tem significado em francês, um pouco em espanhol, não é uma palavra que se possa localizar facilmente em apenas um idioma. Então, é o mesmo que com o asterisco. Sempre estou buscando esses termos que abrem possibilidade em vez de fechá-las. O problema é que acredito que não funcionou. Creio sinceramente que a gente ouve “gaga” e pensa em Lady Gaga. Não funciona, está muito identificado com Lady Gaga, e ela é tão banal que meu livro desaparece nela, em vez de ser um livro que possa rearticular o “gaga” de forma separada. Então, assumo meu fracasso.

 

Você pode nos explicar brevemente sobre seu novo livro, Trans* (University of California Press, 2017)?

Já que trans sempre significou muitos tipos de não-binarismo, não queria dizer “estou falando desse tipo e não desse”. Não quero dizer “essas pessoas que colocaram hormônios e fizeram cirurgia, e não essa pessoa que se percebe como uma lésbica trans masculina (trans butch)”. Quero dizer “sim” à “trans butch” e à pessoa que usa hormônios para reconhecer que há uma esfera em constante ampliação do não-binarismo da qual temos que fazer algo antes de que se transforme em joguete. Em qualquer momento vão inventar um kit “crie seu próprio gênero” e você chegara à loja e o apresentará a seu filho e dirá a ele “O que você quer ser?”. Então, eu acredito que temos um momento aqui para tentar fazer que algo aconteça com esse termo. Sempre estou tentando estar meio passo adiante, e é como se a maré se aproximasse e estou correndo e de repente ela me alcança. E está tudo bem. Muitos dos livros que escrevo servem para fazer uma intervenção rápida que eu não acreditava necessariamente que fosse durar muito tempo, e então há livros acadêmicos que espero que tenham uma vida mais longa. Acredito que Trans* é um livro de intervenção, não um livro de longa vida. Meu próximo livro, sobre a natureza, é mais um livro acadêmico.

 

O que você gostaria de dizer aos ativistas chilenos sobre o que significou estar todos esses dias em nosso contexto?

Primeiro devo dizer que tudo o que sei sobre o Chile, aprendi com minha companheira, Macarena Gómez-Barris, e tem sido maravilhoso estar aqui com ela e ver o Chile de uma forma diferente, compreender que aqui tem uma tradição longa de resistência contra o autoritarismo, contra o Estado e contra o catolicismo, e que os grupos queer têm que se encontrar através dessas tradições, ao mesmo tempo que se critica a homofobia dessas tradições. Então acho que aprendi como é diferente ser queer em um contexto católico, que ainda luta com o legado da ditadura, e em um contexto onde a diversidade e a diferença se desenvolvem de formas distintas. Mas citando a feminista negra brasileira Denise Ferreira da Silva – que deveríamos ler, pois seu trabalho nos dá uma linguagem para pensar a raça em um contexto global –, reconhecendo que a raça funciona globalmente. Não funciona apenas nacionalmente. Há histórias locais e há contextos nacionais, mas é um fenômeno global porque a escravidão foi um fenômeno global, e encontramos corpos negros distribuídos por todo o mundo precisamente porque o capitalismo teve uma origem tão violenta na escravidão. Desse modo, não estou de acordo com essa ideia de que a negritude e a brancura signifiquem algo muito distinto no Chile, mas também agradeço que me ensinem sobre as formas diferentes que têm as políticas queer em um contexto chileno, graças ao trabalho que fazem no CUDS, o trabalho que foi apresentado no grupo.

 

Entrevista de Jack Halberstam a Jorge Díaz, do Colectivo Universitario de Disidencia Sexual (CUDS), publicada no site El Desconcierto, em 2 de julho de 2017. Disponível em: http://www.eldesconcierto.cl/2017/07/02/jack-halberstam-activista-transfeminista-los-grupos-queer-en-chile-poseen-una-larga-tradicion-de-resistencia/.

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

 

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