“Eu estou vindo do planeta fome.”

A fatídica resposta de Elza Soares a Ary Barroso, em 1953, no programa de calouros da rádio Tupi, me soou tão assustadora – medonha, estranha, absurda, triste. Por quê? Porque eu descobri a fome, não que já a tivesse sentido, mas na leitura de Carolina Maria de Jesus, em Quarto de despejo.

Faço parte dos millenium. Faço parte da ilustre geração que cresceu acompanhando a tecnologia e, ainda que morando em uma casa com telhas de amianto durante boa parte da minha vida, pude sonhar com um curso superior, porque sobre a mesa não faltava alimento. Ouvi histórias de fome a vida inteira, mas elas sempre me soavam distantes demais, mesmo estando em testemunhos tão próximos: minha mãe comia arroz apenas aos domingos; meu pai, desde os 13 anos, trabalhou para sustentar a mãe e os irmãos dele; minha avó saiu de Itamarandiba e trabalhou em casas de família Belo Horizonte afora para mandar dinheiro para a mãe criar seus outros irmãos. Para mim, isto era a fome: ter de batalhar de forma sub-humana pela comida. Para mim, a fome era comer alimentos de baixo custo, como a famosa sopa de fubá com couve da minha mãe, ou os restos do boi que meu pai ganhava. Eu achava até que fome era ter de comer apenas peixe, porque era o que o rio oferecia a minha avó. Mas, não, isso não é fome.

A fome que descobri nas linhas de Maria Carolina de Jesus tem cor: é amarela. A fome que descobri é a fome de quem não tem o que comer – e a grande preocupação do dia é ter o que comer. A autora dividia a ação de escrever entre mil outras tarefas em seu dia a dia e muitas delas era na luta para não deixar faltar o pão para Vera Eunice, João e José Carlos. Negra, favelada, catadora, mãe sozinha, moradora de barracão – e não me refiro a casas de alvenaria de poucos cômodos, mas a casas precárias que suponho serem feitas de madeira, papelão ou pau-a-pique. E por precárias sinta diante de si a miséria humana. Nunca fui a São Paulo; entretanto, chocam-me as imagens retratadas do Tietê daquela época e imaginar que ao lado pessoas construíam moradias e criavam seus filhos. E a fome. A fome amarela.

A fome que Maria Carolina relata é a fome que eu, também negro, também morador de periferia, nunca senti. O desespero de Maria Carolina por um punhado de comida nunca me foi próximo: posto que em alguns dias faltasse carne no prato, o arroz, o feijão e a verdura sempre estiveram ali. Parte disso devo ao meu pai, que sempre gostou de brincar de super-homem, e a outra devo à vida, que me escolheu para o grupo dos afortunados que têm pão sobre a mesa.

O planeta fome, sobre o qual Elza não se envergonha de falar, é o que muitos da minha geração não conhecem. Afinal, empatia para os meus companheiros de época sempre foi muito mais se colocar no lugar do outro em termos de tolerância e tratamento gentil. Fome não dá para tratar assim. E por saber que sou incapaz de entender essa dor – e não digo isso com orgulho –, envergonho-me por ser de uma época em que a comida está a dois cliques de distância de muitos dedos, enquanto para muitos ela é o sonho da noite.

Diante desse cenário, que é mais presente do que nunca num país em que 22% da população estão abaixo da linha da pobreza, em meio à atual corrida eleitoral, diante do silêncio dos candidatos sobre a fome, tive de calar em meio a tanta falação. Ainda que tudo seja importante: saúde, educação, emprego. Mas e a fome? Quem levantou a bandeira da fome? E não estou querendo saber propostas de longo prazo, de arrumar a casa, de varrer a sujeira – eu quero saber da fome! E a fome? Taxas de juros são importantes, e que a soberania nacional aguarde um pouco porque os meus alunos têm fome. Eu não sei quais, mas têm.

Há muito, nossa cena política deixou de ser representativa e transformou-se em espaço para manutenção de privilégios – afinal, quem dos nossos representantes fala da pobreza dos brasileiros? A periferia não pode continuar sendo visitada apenas de quatro em quatro anos, como espaço para campanha política: ela tem de ser lembrada todos os dias, nos discursos e ações. O processo eleitoral, em tese, é para as pessoas escolherem representantes, o que na prática não acontece, pois 94% dos brasileiros não se sentem representados pelos políticos que todos nós elegemos.

Fico aqui pensando com quantas Carolinas eu já cruzei pelo caminho e sequer fui capaz de estender um olhar de gentileza. Nós, milleniums, estamos sempre ocupados com coisas grandes – como dar significado à vida, fazer a pose ideal para a foto ou qual celular comprar – e não sobra tempo (ou talvez falte coragem) para olhar profundamente pela janela do ônibus e ver a miséria que grita a nossa volta. A fome de Carolina não é a minha fome, mas não é por isso que esse problema deixa de ser meu.

“Quando estou com pouco dinheiro procuro não pensar nos filhos que vão pedir pão, pão, café. Desvio o pensamento para o céu. Penso: será que lá em cima tem habitantes? Será que eles são melhores do que nós? Será que o predomínio de lá suplanta o nosso? Será que as nações de lá é variada igual aqui na terra? Ou é uma nação única? Será que lá existe favela? E se lá existe favela, será que quando eu morrer vou morar na favela?” (Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus)

Assinatura Daniel Lucas

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