Quer que façamos o quê?

Sim. O título acima é uma variação da pergunta que ‘ele’ fez aos jornalistas ao responder sobre sua posição a respeito da devastação do Museu Nacional pelo fogo: “Já pegou fogo. Quer que eu faça o quê?”

Quatro dias depois, ‘ele’ sofreu uma agressão a faca (recuso-me a seguir a onda e qualificar aquele ato como atentado – são duas coisas diferentes) e está sendo mantido em recuperação em um hospital de São Paulo. Parece já ter sido bem definido que a agressão não foi uma farsa (apesar do palco em que este país se tornou, inclusive com farsas hospitalares já registradas – Tancredo Neves que o diga, e seu neto também, no já folclórico isolamento de andar de um famoso hospital belo-horizontino).

Todavia, a intenção deste texto não é debater a cena e o momento físico da agressão em si; não é renovar a defesa da integridade física de nenhum candidato (mesmo que ‘ele’ não se destaque pela defesa da integridade física de ninguém); nem mesmo buscar o senso comum para justificar certezas de um desastre iminente (algo do tipo, ‘quem com ferro fere, com ferro será ferido’).

Este texto tem o propósito de, pela inversão da pergunta feita, dirigir o questionamento a nós mesmos (ou à parcela de pessoas que não compartilha do ideário ‘dele’) quanto ao que fazer diante do que se delineia à nossa frente. Por enquanto, não me concentro em escrever isto mobilizado pelo temor de uma eleição ‘dele’ em primeiro ou segundo turno. Por enquanto, não… E certamente posso estar errado, uma vez que a tendência é de os fatos se precipitarem em um ritmo que nos dê a ilusão de perda de controle.

Para mim, o que se delineia pela frente, por enquanto, não é uma garantia de vitória em primeiro turno prevista por pesquisas eleitorais feitas no calor da hora e das emoções, embaladas pelo tumulto dos fatos e necessariamente tomando esses fatos como diretrizes. O que já vem se delineando há bastante tempo é a rearticulação do campo político conservador em torno de vetores que até então compunham um considerado trôpego baixo clero há muito sedimentado no Congresso nacional. É esse movimento subterrâneo que emerge à tona com grande intensidade na imagem da candidatura ‘dele’. Tal movimento vai mais além do chamado Centrão (composto por partidos fisiológicos, e não propriamente orgânicos, pois não há organicidade em um Democratas, mesmo que eles queiram aparentar isso) e é formado por deputados federais que não se fixam em partidos (haja vista a trajetória errática em partidos que ‘ele’ próprio teve em sua vida política), siderados pela ciranda partidária orquestrada de dois em dois anos.

O fortalecimento desse movimento subterrâneo é muito anterior aos diversos abalos políticos, institucionais, jurídicos, morais e econômico-financeiros ocorridos nos últimos cinco anos. Ele já estava presente, de modo muito fragmentado, nos anos 1980, sempre observado pela movimentação fisiologista de seus representantes, mas com ramificações muito potentes que foram se fortalecendo com os movimentos armamentista, religioso cristão, ruralista e do exercício do mandato político como meio de vida (no caso ‘dele’, ter sido colocado na reserva no início da carreira militar e apelado ao mandato político, renovado por seguidores e que já dura 27 anos, é uma forma de garantir um meio de vida – inclusive com um clã familiar já instalado nos níveis municipal, estadual e federal).

O que está em vias de delineamento é a rearticulação desse campo político conservador com os grupos empresariais financeiros, industriais e de mídia, todos orientados para uma guinada ultraliberal. É notável a mudança de tom desses três grupos nas últimas três semanas, sobretudo o da mídia, se comparado a abril e maio, quando ‘ele’ realizou um périplo no exterior e recebeu tratamento zombeteiro, por exemplo, em sua viagem aos Estados Unidos, durante os contatos que fizera com alguns representantes do sistema financeiro. Tem ocorrido uma convergência sensível e cuidadosa daqueles três grupos em torno do núcleo político que move a candidatura ‘dele’.

Mencionarei apenas a verborragia odiosa e descontrolada sob a forma de discurso apelativo e retrógrado que jorra daquela boca para me referir à dimensão da mentalidade ‘dele’ e, claro, à estratégia adotada ao longo de sua vida política. A agressividade expressa no rosto e o ‘cala a boca’ impresso ao gestual são heranças de um cunho autoritário adquirido na sua formação, como também meio de encantamento de uma massa de seguidores.

Essa massa de seguidores – representada por expressiva parcela da população cujos valores e mentalidade são compulsivamente retrógrados e tradicionalistas – não deveria assustar a ninguém. Sempre convivemos com ela, apesar de a imaginarmos menos ruidosa, talvez controlada sabe-se lá por que força. Mas faz parte da ação do novo campo político conservador dotar esse segmento de representação, expresso em movimentos como o MBL, Renova Brasil e Endireita Minas (entre outros), nutridos por intelectuais e jornalistas que compactuam dessa percepção.

Diante da rearticulação desse campo político (que já vem se efetuando também em nível internacional, com conquistas paulatinas no território europeu, cuja última consequência é o estremecimento da Suécia face ao avanço dessa movimentação), o que resta ao outro lado fazer? De certo modo, a situação é similar àquela que originou a pergunta feita por ‘ele’: após as demolições provocadas por aquele gradativo movimento rearticulatório, como (re)agir para continuar a fazer enfrentamento? Que tipo de resistência oferecer?

Em princípio, seria preciso atuar no mesmo diapasão e rearticular o campo progressista para aquilo que seria objetivo imediatíssimo: evitar a eleição ‘dele’. Nesse sentido, fazer uma conciliação, convergência e definição de uma única chapa para representar o campo progressista ainda no primeiro turno seria um passo urgente. Não dá para aguardar e planejar que isso ocorrerá naturalmente em um suposto segundo turno entre ‘ele’ e um candidato do campo progressista, com a união natural dos demais desse campo em apoio ao segundo colocado. Em outubro não haverá tempo suficiente para conversar/negociar com grupos empresariais financeiros, industriais e de mídia mais susceptíveis – e, cá para nós, isso é necessário de ser feito –, além dos níveis saturados de agressividade, incitações e possíveis ameaças que já terão intoxicado as pessoas daqui até lá.

É sabido que essa convergência já foi fragilmente tentada no primeiro semestre deste ano. Infelizmente, tudo me leva a crer que a estratégia petista/lulista perdeu o timing, se mostrou equivocada e confiou demais no tensionamento do fio do tempo para que entrasse em cena oficialmente a chapa Haddad e Manuela. Infelizmente, no dia 6 passado, um objeto estranho e inesperado entrou em cena e operou um corte naquela estratégia (talvez para vermos literalmente como ações locais provocam consequências longínquas, atingem pessoas a milhas de distância).

Sem dúvida, o campo progressista poderia nos estimular e nos insuflar confiança buscando a convergência em uma única chapa para tentar fazer resistência ao outro lado.

Assinaturas-Luiz

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