“Não serei um rei, mas uma rainha!”

O “príncipe rosa”, Manvendra Singh Gohil estava à frente de seu tempo. Enquanto a Índia acaba de descriminalizar a homossexualidade, esse descendente de marajás do oeste da Índia sempre lutou pelos direitos das pessoas LGBT+ em seu país. Primeiro príncipe indiano abertamente gay, ele lançou um minicurso sobre o tema LGBT+ na faculdade de Direito de uma universidade de seu reino. Seu próximo projeto é transformar seu palácio em refúgio e centro social para todos os jovens desse segmento. Têtu desenha o perfil desse príncipe extraordinário no segundo artigo da série Queertopia, que destaca as pessoas que trabalham, todos à sua maneira, para o bem-estar das pessoas LGBT+.

Várias gargalhadas foram dadas durante a entrevista com Manvendra Singh Gohil. À pergunta “Você se dá conta de que quando seu pai, o rei, morrer, você será o primeiro rei abertamente gay do mundo?”, o príncipe responde, de imediato: “Não serei um rei, mas uma rainha!” Uma futura queen decididamente otimista, combativa e plena de vida, com trajes tradicionais de seda bordada chamejantes.

 

Reconhecido com uma conferência TED Talk

O percurso de vida do príncipe foi complicado em um país que criminalizava a homossexualidade até a quinta-feira, 6 de setembro de 2018. Em 2007, ele decide colocar sua vida a serviço dos direitos das pessoas LGBT+ ao sair do armário. Onze anos depois, essa figura emblemática em seu reino foi convidada pelo presidente de uma universidade próxima para fazer uma conferência no TED Talk sobre “a aceitação das pessoas LGBT”.[i]

No total, 500 pessoas compareceram, entre elas, estudantes e professores. “Eu estava tão impressionado! As trocas eram profundamente inspiradoras e as perguntas vieram de todos os lados. Mas me dei conta de que falar durante uma hora sobre esses temas não era absolutamente suficiente.” O presidente da universidade voltaria a chamá-lo alguns dias depois, pedindo-lhe para criar um minicurso específico para estudantes de Direito. “O fato de ser ele, o presidente da universidade, um homem heterossexual que não faz parte da comunidade, que me pede para fazer isso, é alguma coisa de extremamente positivo. Isso prova que as mentalidades estão mudando”, alegra-se o príncipe com Têtu.

 

Primeiro minicurso sobre direitos das pessoas LGBT+

Ele então lançou, na semana de 27 a 31 de agosto de 2018, o primeiro minicurso sobre direitos das pessoas LGBT+ na universidade de Karnavati, em seu reino situado no estado de Gujarat, no oeste da Índia. Um seminário de 20 horas dividido em cinco dias, com módulos de quatro horas, intitulado “Abordagem sociolegal da comunidade LGBTQ”. Uma iniciativa histórica em um estabelecimento de ensino do sudeste da Ásia.

O minicurso é aberto principalmente a estudantes de Direito. No total, foram 250, entre 20 e 22 anos e oriundos de várias universidades ao redor, que se matricularam. Cada dia corresponde a uma temática desenvolvida sob todos seus aspectos, quer sejam legais, de saúde ou sociais.

“Uma mulher lésbica veio na segunda para falar de sua orientação sexual e dos problemas ligados à lesbianidade na sociedade indiana. Um dia foi destinado ao HIV/AIDS; outro, às pessoas transgêneras”, ele explica alegremente.

 

Um minicurso “premiado”

Aqui, novamente, as perguntas dos estudantes foram numerosas, mas sobretudo muito básicas: “É completamente natural”, comenta o príncipe, pois a Índia sofre ainda com muitos clichês sobre a homossexualidade: “Ninguém aborda esse tema, nem nas mídias, nem na sociedade. As pessoas ainda pensam que os gays são pedófilos.”

Para ele, esse minicurso é “premiado”. Ele faz a aposta de que, ao sensibilizar os jovens, diferentes categorias sociais serão afetadas. “Os estudantes falarão sobre isso com outros, com seus amigos e sua família. Eles próprios são potenciais educadores.”

Manvendra Singh Gohil já conseguiu medir impactos muito positivos.

“Um estudante trans saiu do armário diante de todos quando abordávamos os temas ligados às pessoas transgêneras. Foi impressionante. No último dia, outro aluno veio me ver dizendo que era gay e que daí por diante ficaria feliz e orgulhoso de sê-lo.”

Um começo emocionante para esse minicurso, que deverá se repetir a cada ano.

 

A culpa de o “príncipe rosa” ser diferente

Nem tudo tem sido tão cor-de-rosa para o príncipe, apelidado “príncipe rosa” em referência a uma efígie dele com uma veste dessa cor. Ele teve uma vida muito mais sombria antes de se tornar um ativista LGBT+.

Com 26 anos, Manvendra se casou com uma mulher. Em retrospecto, nesse momento ele diz “ter colocado um véu sobre a face” acreditando que era heterossexual. Um casamento arranjado com a única finalidade de garantir sua descendência e que ele viverá muito mal. Ao fim de um ano, os dois esposos se divorciaram, sem ter sido consumado o casamento. “Era fisicamente impossível”, declara ele.

Ele diz que “sempre se sentiu diferente”.

“Eu me senti atraído por rapazes desde os 13 anos, mas não conhecia a palavra ‘gay’. Não havia internet à época, nenhuma abertura para o mundo exterior. Era impossível para mim saber o que eu verdadeiramente era.”

O príncipe “compreenderá” sua identidade, bem mais tarde, com 30 anos. Mas um sentimento de culpa misturado a vergonha invade ele. Ele acaba por ter uma depressão nervosa aos 37 anos. “Havia uma pressão enorme da parte de minha família para que eu me casasse novamente. No meu reino, todo mundo esperava isso com impaciência. Eu não suportava isso.”

O psiquiatra que o acompanhava no hospital fará seu outing para a família no lugar dele.

 

Suas efígies queimadas em praça pública

No início, seus pais ameaçaram revelar sua homossexualidade antes de levá-lo para ver um médico para “curá-lo”. Em seguida, eles encontrarão um líder religioso local que lhes aconselhará impedi-lo de comer carne a fim de torná-lo heterossexual.

No meio desse discurso entristecedor, as explosões de riso reaparecem. “Marion, é como te digo: ‘Você para de comer frango amanhã e se torna lésbica!’” É assim, está perdido. O príncipe faz mais uma piada: “Então, você para de comer batatas e se tornará heterossexual! É o que se pode compreender face a esse religioso que de religioso tem apenas o nome.”

E então, Manvendra Singh Gohil assumiu seu destino. Corajosamente, em 2006, do alto de seus 40 anos, ele contacta um jornal local e sai do armário publicamente. Protestos explodem nas ruas de seu reino. Alguns aldeões até queimam efígies com sua pessoa em local público. Seu pai anuncia publicamente que o deserdará integralmente. Apesar de tudo, ele não teve medo. “Eu estava pronto para falar, eu desejava isso no mais fundo de minha alma. Eu confiava em mim, em minha honestidade. O pior que poderia ter ocorrido teria sido me matar.” Otimista, se poderia dizer?

 

A vez de Oprah Winfrey

Sua história foi repetida nas mídias, atravessou os oceanos e chegou aos ouvidos de Oprah Winfrey, que o convidou em 2007 (e em 2011) para seu programa. Foi o ponto de virada em sua vida pessoal. “Na Índia, as famílias educadas e as reais assistem ao programa de Oprah Winfrey. Eu estava verdadeiramente feliz por estar ali.” No começo envergonhada, sua família ficou orgulhosa.

 

Construção de um centro LGBT

Em seguida, Manvendra decidiu dedicar sua vida à luta pelos direitos das pessoas LGBT+. Destruído por uma inundação, o palácio da família agora está em ruínas. O príncipe rosa planeja torná-lo um centro social de acolhimento de jovens LGBT+ em situação precária. “Alguns são expulsos de suas casas. Outros são assediados na escola e decidem abandoná-la. A finalidade será acolhê-los, dar-lhes um teto e habilidades, como aprender inglês ou saber usar computadores.”

Proporcionar-lhes um lugar seguro, um “espaço de liberdade” no qual não teriam que suportar a homofobia. Um lugar real para se viver, o tempo para que todos e todas se insiram na sociedade – este é o objetivo desse centro único na Índia.

O príncipe, que não vive mais na opulência de sua juventude, agora tem “recursos limitados”Ele diz viver uma vida “simples e modesta”. No entanto, quase toda sua renda, obtida com conferências e trabalhando para a associação americana AIDS healthcare foundation, é utilizada para financiar a construção do centro.

“Tive a oportunidade de nascer em uma família rica. Levei uma vida luxuosa até minha saída do armário. Já é hora de eu devolver tudo isso para as pessoas. É meu dever dar o máximo às pessoas LGBT+ de meu país.”

Do mesmo modo, o príncipe lançou uma campanha para arrecadar fundos.

Seu pai, o rei, não vê nenhum inconveniente no fato de seu palácio ser transformado em centro LGBT+. E o simbolismo disso é lindo: ele colocou a pedra fundamental, durante uma cerimônia ritual para a construção do local, sob o olhar enternecido de seu filho.

 

Reportagem de Marion Chatelin, publicada na revista Têtu em 10 de setembro de 2018. Disponível em: http://tetu.com/2018/09/10/portrait-premier-prince-indien-ouvertement-gay-je-ne-serai-pas-un-roi-mais-une-reine/>.

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

[i] O vídeo, de quase oito minutos, está disponível no YouTube no endereço: https://www.youtube.com/watch?v=HUxQ2xWZNiY.

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