É preciso lembrar os jovens

A juventude – fase da vida em geral associada à força física, ao vigor e ao desejo de mudança, símbolo de renovação e rebeldia ante as velhas práticas – ainda assim não é levada a sério. Só fui perceber isso depois de ouvir repetidas vezes a introdução de Não é sério, canção de Charlie Brown Jr. com participação de Negra Li, e pude constatar o silêncio do nosso povo sobre a juventude.

Das poucas coisas de que posso me orgulhar da juventude, em nenhum momento me recordo de algo ser ligado a alguma questão de política pública, ação popular ou social de alguma instituição. Os jovens estão esquecidos. Não ocupam lugares de destaque na política – vez ou outra algum partido lança alguma candidatura, que sempre é sufocada pelos favoritismos partidários, enaltecendo candidatos rentáveis; ou quando são destaque, não há debates sobre a importância de se votar em um jovem. Esses jovens são doutores aos 30 anos e estão desempregados; suas dissertações e teses estão nas bibliotecas das universidades e não chegam ao conhecimento público; sequer são convidados a participar de algum debate.

O jovem que deseja participar de alguma discussão tem de impor seu espaço. É ouvido como os políticos de partidos sem coligação são ouvidos no legislativo brasileiro: falam, pedem, mostram alguma solução, alguém balança a cabeça e depois segue – e tudo permanece igual.

Dentre os candidatos aos cargos públicos dessas eleições, é preciso admitir o aumento do número de jovens. Entretanto, é necessário ainda problematizar: é suficiente uma candidatura ser apenas registrada? Se os jovens não reunirem força política suficiente para serem eleitos e assumirem os cargos, tampouco existirão ações para isso por parte dos senhores que ocupam a política anos a fio.

É preciso lembrar os jovens inseridos na política para que estimulem o acesso à educação – seja ensino técnico, superior, profissionalizante (pensar a educação como um processo contínuo, tanto em ambientes educacionais, como em espaços informais); à cultura – a lei da meia-entrada a estudantes menores de 21 anos e jovens de até 29 anos de baixa renda não é suficiente (somos um país em que as pessoas têm pouco acesso e interesse por eventos culturais, e nem preciso citar a falta de leitura); e sobretudo, estimular os jovens ao acesso e permanência no mercado de trabalho. É preciso estimular a emancipação dos jovens, dar-lhes as ferramentas para a construção de um novo amanhã, e não permitir que perpetuem o dia de hoje pelo restante de seus dias.

Toda vez que assisto à deliciosa apresentação de Elis Regina no programa Fantástico, em 1976, cantando Como nossos pais, de Belchior, alguns versos tilintam na minha cabeça e nublam minhas ideias. Afinal, nesse tempo de sinais de armas com os dedos e facadas no bucho, eu fico cá pensando: será que estamos revivendo fatos que antecedem o pior? Será que a pouca voz do jovem nos dias de hoje será calada pelas vozes que ordenam mão na cabeça?

Belchior, já maduro, ao falar de Como nossos pais, comentou: “Espero que nós não sejamos iguais nem parecidos com os nossos pais. Demos continuidade aos sonhos deles sim, mas que sejamos absolutamente outras pessoas, personagens de um mundo novo que a música definitivamente está ajudando a criar.”

E com sorte, se os jovens forem lembrados, amanhã, quando formos senhorxs, não cantaremos o refrão da canção: “[…] minha dor é perceber / que apesar de termos / feito tudo o que fizemos, / ainda somos os mesmos / e vivemos / como os nossos pais, […]” e ofereceremos aos futuros jovens a chance de construírem o seu próprio futuro.

 

Assinatura Daniel Lucas

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