#MyEggsToo, para dispor de seu corpo

Ovócitos, útero, leite, esperma, sangue: o Estado, a Igreja e o mercado ainda regulam o corpo das mulheres, dxs não-heterossexuais, dxs não-brancxs. A reapropriação deve começar.

 

Mais uma vez, as declarações da conferência episcopal sobre a PMA[i] e a GPA[ii] na França mostram a existência nas democracias ocidentais de um lúmpen somático-político, grupo de sujeitos subalternos que não têm uma relação de propriedade com seu próprio corpo, mas sim de extração e expropriação.

A soberania de um corpo é diretamente proporcional à posição que ele ocupa no seio da hegemonia de classe, raça, sexo, sexualidade e deficiência em uma dada sociedade. Classe, raça, sexualidade, gênero e deficiência não são realidades empíricas, mas relações de poder que determinam a capacidade de um agente social para utilizar livremente seu corpo, isto é, dispor de seus próprios órgãos, de suas células e seus fluidos.

Deixe-me resumir uma história complexa em duas frases. O que chamamos corpo humano moderno foi inventado por meio de uma série de processos de colonização. Do século XVI ao XIX, a Igreja e as instituições dos nascentes Estados-nação disputaram a gestão e a utilização das forças de trabalho e de reprodução dos corpos. Essa batalha terminou no Ocidente com uma secularização progressiva do corpo e uma reterritorialização dos órgãos e fluidos pelo viés das instituições médico-legais. No século XIX, as forças até então discordantes da Igreja e da ciência chegaram a uma aliança baseada na manutenção de privilégios de classe, sexo, raça e sexualidade das sociedades em via de democratização. As democracias que resultam desse processo são dispositivos complexos de gestão de privilégios patriarcais e coloniais. Apenas os corpos masculinos, brancos, burgueses e válidos (quer dizer, produtivos) têm o direito, nesse regime, de utilizar livremente seus corpos, seus fluidos e suas células.

A impunidade do estupro, o direito ao defloramento, a criminalização do aborto, a esterilização de “deficientes e invertidos”, a proibição da venda do leite materno para amamentar crianças de outra mulher, a proibição de vender serviços sexuais, o direito de suspender o direito de mães lésbicas, de prostitutas, de mulheres não brancas, de mulheres migrantes e de atrizes pornôs sobre seus filhos… são tantos exemplos dessa regulamentação somatopolítica nos regimes ditos democráticos! O movimento #MeToo pode ser considerado um processo de emancipação face a essas formas de extrativismo e opressão corporal.

Mas o #MeToo não será suficiente. Hoje, somos novamente confrontados com uma mudança de paradigma. De agora em diante, o mercado neoliberal e as indústrias farmacopornográficas lutam para adquirir parcelas de poder, arrancando-as das instituições eclesiásticas e estatais. Da mesma maneira que uma aliança entre a Igreja, o Estado e a ciência foi selada no século XIX, um novo acordo está em curso entre as antigas instituições e as indústrias da reprodução. Essa nova aliança repousa sobre um pacto tecnopatriarcal. A Igreja e o Estado cedem certos órgãos, fluidos e células ao mercado neoliberal na condição de que sejam administrados em benefício da hegemonia hetero-patriarcal-colonial.

Por exemplo, se você é gay, não pode doar sangue ou esperma. Pelo contrário, seu sangue e seu esperma são considerados fluidos poluidores e não reprodutivos. A relação que o Estado e o mercado estabelecem com esses fluidos é uma relação de vigilância e de restrição da circulação. Mas em uma economia geral do corpo, é sempre o leite, o útero e os ovócitos que são submetidos ao regime hetero-patriarcal-colonial mais estrito. Se você é mulher e/ou não-heterossexual e/ou não-branca e/ou migrante, a relação com seu “próprio” corpo é a da despossessão e alienação. Seu corpo é uma concessão tecnocolonial regulamentada em parte pela Igreja, em parte pelo Estado, em parte pelo mercado neoliberal.

Como um corpo humano vivo, você nunca está completamente sozinho. No meio da sua cama, um comitê inteiro de bioética reúne múltiplas instituições que lutam pela apropriação de seus fluidos, de suas células e de seus órgãos. Um ministro papal observa (quando ele não transgride!) o acesso ao seu ânus. O Estado vigia tudo o que entra e sai de sua vagina. A mídia segura sua mão quando você se masturba. A indústria farmacêutica te acompanha quando você planeja se reproduzir (ou não se reproduzir) ou simplesmente gozar. Assim, para uma democracia somática, convém começar um movimento #Myeggstoo: greve de cuidados, sabotagem da reprodução do Estado, confisco dos órgãos da Igreja, contrabando e coletivização de células e fluidos reprodutivos.

 

Crônica de Paul B. Preciado publicada em 28 de setembro de 2018, no jornal Libération. Disponível em: https://www.liberation.fr/debats/2018/09/28/myeggstoo-pour-disposer-de-son-corps_1681957

Tradução: Luiz Morando

Assinaturas-Luiz

[i] A procriação medicamente assistida (procréation médicalement assistée - PMA) é um conjunto de práticas clínicas e biológicas em que a medicina intervém mais ou menos diretamente na procriação.

[ii] A gestação por terceiros (gestation pour autrui - GPA) é o conjunto de formas de gestação conhecidas como barriga de aluguel.

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