“As teorias queer podem ser usadas hoje para tomar uma distância crítica do que nos sucede”

Lorenzo Bernini é professor associado de Filosofia na Universidade de Verona, onde dirige o centro de pesquisa PoliTeSse – Políticas e Teorias da Sexualidade. Entre suas obras, Apocalipsis queer: elementos de teoría antisocial foi traduzida para o espanhol (Egales, 2015). Lorenzo Bernini publicou recentemente The theory queer (Las Teorías queer, Egales).

 

Las Teorías Queer é um dos livros mais atuais e completos sobre algo que, como você esclarece, deve ser nomeado no plural. No primeiro capítulo você fala de alguns problemas com a filosofia política ou com a própria filosofia como forma de conhecimento sujeita a dogmas que demoraram a se mexer. Como você concilia os ataques de um setor do movimento ao academicismo do queer quando precedido pelo adjetivo “teoria”?

As polêmicas são essenciais tanto para o ativismo político como para o debate teórico: não devemos temê-las, e nem sempre temos que fingir resolvê-las. Neste caso, creio que deveríamos aceitá-las, tomar conta delas, questioná-las e compreender suas razões. Fazer teoria não é prerrogativa dos que estão na Universidade: as teorias queer, em particular, nascem nos movimentos, e ainda são produzidas pelos movimentos. É verdade que o governo atual da universidade neoliberal acentua o fosso entre os que produzem o conhecimento por profissão em uma academia que segue cada vez mais a lógica da ganância e a inversão, e aqueles fora da academia produzem conhecimento para o ativismo com o fim de desafiar a dominação de tais lógicas em todos os setores da vida social. No entanto, não estamos obrigados a deixar que nos ditem a agenda do “dividir para reinar” do neoliberalismo contemporâneo: sim, podemos boicotar a agenda, e de fato temos que fazê-lo ante a consolidação de uma direita populista e neofascista, que utiliza a xenofobia como cimento ideológico, o racismo e a homobitranspanfobia.

Agora precisamos de alianças estratégicas nas quais, a partir de diferentes posições, sem renunciar às controvérsias que consideramos vitais, seja possível, quando preciso, colaborar. E neste momento isso é necessário.

Talvez possa ajudar recordar que a Universidade não está em uma bolha, mas é precisamente investida pelas mudanças que afetam toda a sociedade. Também é um lugar de trabalho – privilegiado apenas para aqueles que conseguem obter um lugar permanente nela, mas não tão rentável e conveniente para muitos trabalhadores precários. É também um lugar de confronto e conflito em que se jogam importantes partidas. Este verão, por exemplo, presenciamos a intenção do governo húngaro de fechar mestrados em estudos de gênero no país.

Mais recentemente na Bulgária, a Academia de Ciências impediu um projeto de pesquisa sobre educação antidiscriminatória nas escolas.

Mesmo na Itália, a situação é alarmante em muitas frentes. Em matéria de imigração, o ministro gay do Interior, Matteo Salvini, atualmente sob investigação por sequestro de pessoas, agravada pelo caso do barco Diciotti, tem forçado os limites não apenas de legalidade, mas também de legitimidade. E certamente ele cruzou os limites da humanidade. Seu companheiro no partido, Lorenzo Fontana, ministro para a Família e a Deficiência, neste verão, pediu a abolição da lei italiana que sanciona a propaganda racista e a incitação aos crimes de ódio. Há algum tempo, quando ainda era membro do Parlamento Europeu, reagiu em uma entrevista contra as conferências e seminários realizados em minha universidade, a Universidade de Verona, sobre temas LGBTQI+, organizados em particular pelo centro PoliTeSse (www.politesse.it), que dirijo. Aqueles que fazem pesquisas acadêmicas sobre os temas de gênero e sexualidade, portanto, não trabalham sem serem perturbados em uma torre de marfim. E no novo e alarmante clima político, encontram-se em uma posição crucial do conflito. Por exemplo, em maio passado, em Verona, o grupo neofascista Forza Nuova ameaçou “evitar, até mesmo pela força”, a realização de uma conferência na Universidade sobre o direito de asilo aos migrantes perseguidos em seus países de origem devido a sua orientação sexual ou identidade de gênero. E o reitor respondeu com a decisão de adiá-lo.

A seriedade das intimidações desse tipo deixa claro como, mesmo hoje em dia, os estudos de gênero, as teorias feministas e transfeministas, as teorias queer praticadas dentro da academia, continuam sendo incômodas e um conhecimento militante. Este meu livro também é um livro militante, que defende a presença de espaços para praticar teorias queer na universidade, apresentando-as como teorias ou filosofias, críticas e não ideológicas. O primeiro capítulo tem a tarefa de colocar as teorias queer na tradição da filosofia política crítica, em resposta àqueles que, como o ministro italiano da Família e Deficiência, se inscreveram na nova cruzada católica contra a ‘ideologia de gênero’. O cânone da filosofia ocidental parte do sexismo, da homobitranspanfobia, do racismo, do classismo em que se baseia toda a nossa cultura, mas em seu interior – de Sócrates a [Michel] Foucault, e até hoje em dia – há sempre uma tradição crítica que põe em dúvida cada fundamento, que desafia as verdades professadas por aqueles que detêm o poder, e junto delas o sentido comum, o regime do normal. Não com a intenção de afirmar novas normas e impô-las a todo o corpo social, mas de abrir espaços anárquicos de dissidência e liberdade. A essa tradição se referem as teorias queer, que expressam o protesto das minorias sexuais contra os dispositivos de poder que as convertem em minorias.

Foucault definiu a crítica como “a arte da desobediência voluntária, da indisciplina racional”, como “a arte de não ser governado, ou melhor, de não ser governado dessa maneira e a esse preço”. Há duas formas pelas quais as teorias queer na universidade correm o risco de serem governadas, a partir do neoconservadorismo e neoliberalismo: a censura e a domesticação; a perda de sua crítica mordaz. Devemos nos rebelar contra ambos, dentro e fora da Universidade. E quando as polêmicas contra as teorias queer acadêmicas apontam para denunciar o risco de sua domesticação, elas são saudáveis.

 

Houve certo confronto com os movimentos queer e um setor um tanto estagnado do movimento feminista, também na Espanha. As posições sobre temas como a despatologização trans, a prostituição, a raça, a psicanálise etc. aparecem em seu livro, mas qual é a sua experiência dentro e fora das aulas?

Pessoalmente, aprendi muito com os movimentos pelos direitos das pessoas trans e prostitutas. Durante meus anos de doutorado, formei um grupo de autoconsciência masculina com amigos trans e hetero-cis. Em 2008, participamos de um seminário sobre o tema da despatologização organizado pela coordenadora trans Sylvia Rivera, que reuniu numerosas associações e coletivos trans italianos. Muitas mulheres trans presentes eram ou haviam sido prostitutas. Descrevo isso na apresentação de Apocalipsis queer: em uma casa rural na Toscana, foram dois dias intensos de discussões, confidências e celebrações. Foram duas experiências fundamentais para mim, humana e intelectualmente. Como foi a reunião com o ativismo intersexo. As pessoas que conheci nesses encontros, das quais continuo amigo, são parte de mim (Laurella Arietti, Michela Balocchi, Christian Ballarin, Pia Covre, Giorgio Cuccio, Porpora Marcasciano, Daniela Pompili, Valerie Taccarelli, para citar apenas alguns nomes…). Ao longo dos anos, organizamos muitas atividades em comum, e algumas delas foram convidadas para os seminários de PoliTeSse. E mesmo que eu raramente os veja hoje, ainda penso neles. Não poderia escrever sobre sexualidade e política sem considerar sua existência, suas experiências. Também por essa razão, desde que fui contratado pela Universidade de Verona, dediquei-me a promover a aprovação do “nome social” para estudantes e funcionários trans. O procedimento para mudar o nome nos documentos na Itália segue longo e tortuoso; o nome social permite interagir com a Universidade (por exemplo, durante as chamadas de exames), mesmo que não corresponda ao nome do documento. Atualmente, sou tutor dos estudantes que solicitam o nome social: posso fazer isso muito rapidamente, sem precisar de nenhum tipo de experiência, e tenho orgulho disso. Enquanto esperamos que as coisas mudem na Itália, esta é uma salvaguarda importante de direito para estudar e trabalhar. Isso faz com que a Universidade seja mais livre para todos.

Além disso, a identidade de cada um de nós se define pelo mesmo sistema de classificação sexo-gênero-orientação sexual (atualmente em vigor na psicologia e direito), que define a identidade trans. Abordo isso no segundo capítulo. As pessoas trans são os principais objetivos da campanha contra a “ideologia de gênero”, que desejam reafirmar uma interpretação rigidamente binária do gênero. Os setores do feminismo transexcludente são cúmplices dessa campanha, assumindo posições inaceitáveis. Mas também devemos prestar atenção, não confundir, não abordar o epíteto “TERF [Trans-Exclusionary Radical Feminist]” como um insulto quando as questões feministas são abordadas de um ponto de vista cis. Também neste caso, acho que podemos falar assim entre nós, aceitando as discussões e mesmo as polêmicas, conscientes das diferenças de cada um, respeitando-as. Felizmente, está se espalhando uma nova consciência transfeminista nos movimentos: sobretudo nas novas gerações, não faltam espaços feministas para as mulheres trans. Mas não posso desejar UM movimento homogêneo onde impere um novo sentido comum politicamente correto. Os sentidos comuns, os conformismos, são sempre perigosos. Prefiro a discussão, ainda que inflamada, que te permita ver as coisas de diferentes pontos de vista.

Isso também se aplica a outros temas, como a barriga de aluguel e a prostituição. Algumas feministas têm tomado posições maniqueístas e paternalistas, ofensivas contra os pais e contra mulheres grávidas, do mesmo modo que contra mulheres que declaram prostituir-se por escolha própria. Em suma, liberticídio. Posso apenas discordar. E, no entanto, acho que esses temas são complexos, que devem ser questionados a fundo, respeitando as experiências e escolhas de indivíduos e pessoas, mas sem temor de fazer perguntas radicais. Sei que casais heterossexuais em sua maioria recorrem cada vez mais à maternidade de aluguel, mas lhes dou um exemplo que me preocupa como homem gay. A que ideal de vida corresponde a imagem de um par de homens ricos com filhos biologicamente corretos, nascidos de mulheres grávidas muito menos ricas que eles em troca de uma recompensa? Para quem é acessível essa possibilidade? Que condições econômicas e geopolíticas tornam possível esse desejo de paternidade? Como ocorrem as diferenças de classe e raça ao determinar os atores dessas transações (o casal, a gestante, a doadora de óvulos, os médicos, a agência de intermediação…)? Seriam necessárias algumas boas leis, que fossem capazes de regular essas práticas sobre a tutela especialmente para as mulheres, e que pusesse fim ao fenômeno do turismo reprodutivo – na Itália, até o momento, a gestação para os outros é proibida, e apenas aqueles que têm dinheiro suficiente para ir ao estrangeiro conseguem realizá-la. Mas as boas leis não são suficientes. Os movimentos feministas, de lésbicas e gays não deveriam lutar entre si, mas discutir esses temas, porque hoje, na ausência de discussão, é o mercado que prevalece, que induz e satisfaz os desejos daqueles que podem pagar, utilizando outros em função desses desejos.

O pensamento queer, em particular, pode desempenhar o papel de um antídoto crítico contra essas ideias homo – e trans – normativas da boa vida, que reflitam modelos da vida heterossexual. Pode voltar a despertar a imaginação política, encorajar para viver de maneira diferente, experimentar formas alternativas de praticar relações, vínculos de parentesco, relações intergeracionais. Considere a controvérsia de [Lee] Edelman contra o “Fascismo da face da criança”, ou a desconstrução dos ideais de sucesso feita por [Jack] Halberstam, e novamente suas reflexões sobre outras temporalidades, diferentes do ciclo produtivo e reprodutivo das sociedades heterossexuais. O terceiro e último capítulo do meu livro termina com esses temas.

 

A questão trans está no centro das atenções em muitos países. Comenta-se, por exemplo, que a origem das revoltas de Stonewall foi protagonizada por transexuais latinos. Outros fatores, como os primeiros momentos da luta radical contra a AIDS ou a influência das pós-feministas, o ativismo dos chicanos, estão na origem da teoria queer. No entanto, você acha que a teoria queer é um conceito ocidental ou que pode incluir muitas outras realidades culturais desde suas origens?

Como você mencionou no começo, para mim as teorias queer têm que ser declinadas no plural. Se você cria um cânon, se se começa a discutir qual pensamento é autenticamente queer e qual não é, sobre o que pode ou não ser incluído na lista, acho que isso enfraquece seu potencial crítico. Para mim, as teorias queer nos oferecem ferramentas que podemos utilizar mesmo contra a nossa ideia de queer, quando ela começa a ser mais estrita. Isso ocorreu em outras ocasiões: até mesmo a filosofia crítica, como disse antes, ofereceu ferramentas às teorias queer para desafiar o sexismo e a homobi-hispanofobia da própria tradição filosófica.

Das teorias queer, pode-se, portanto, rastrear diferentes genealogias, cada uma das quais corresponde uma posição política no presente. No terceiro capítulo, por exemplo, minha genealogia começa muito antes de 1990, quando [Teresa] De Lauretis pronunciou sua famosa conferência. Antes da publicação de Problemas de gênero por [Judith] Butler e Epistemologia do armário de [Eve-Kosofsky] Segdwick. Começa com os movimentos das pessoas soropositivas estadunidenses e europeias durante a crise do HIV/SIDA nos anos 80, e até mesmo antes, nos anos setenta de [Michel] Foucault, de [Paolo] Mieli e de [Carla] Lonzi, de [Monique] Wittig, de [Guy] Hocquenghem. Começou em Nova York, em 1969, com a revolta de Stonewall, como disse, com o protesto de Sylvia Rivera e Marsha Johnson; e nos anos 1950, entre Martinica e França, com o pensamento decolonial (tenho que mencionar o verdadeiramente homófobo e misógino) de ]Frantz] Fanon, e com os quarenta de [Simone de] Beauvoir… Mas esta é apenas uma proposta minha, a tentativa de pôr ordem em algo e proporcionar elementos de compreensão para aqueles que ainda não conhecem o debate. Não tenho a intenção de encerrar uma discussão, mas sim de reabri-la. Eu mesmo agora estou trabalhando em uma genealogia diferente, que gira em torno de Freud e Marx, assim como de Foucault e Fanon, e os baluartes teóricos que o pensamento marxista e freudiano levantaram contra o fascismo.

Em resumo, é correto e saudável que hoje podemos reivindicar as múltiplas origens, mesmo dos negros ou chicanos, das teorias queer. Podemos renunciar à linearidade do tempo, à tirania do começo, e mirar as coisas prospectivamente. No mundo globalizado de hoje, também podemos renunciar a pretender distinguir claramente o que é ocidental do que não é: tudo é híbrido e mestiço, todos colonizados pelo imperialismo ocidental, especialmente nosso olhar. Certamente, para aqueles que vivem e se formaram no Ocidente privilegiado, as teorias queer podem ser usadas hoje para tomar uma distância crítica do que nos sucede, para desafiar, por exemplo, o fato de que para conceder proteção internacional a imigrantes perseguidos por sua orientação sexual, as administrações europeias pretendem determinar se os reclamantes são “verdadeiramente homossexuais” com base em estereótipos de identidade binária do dispositivo sexo-gênero-orientação sexual. Trata-se de uma violência epistêmica que deve ser denunciada. As metodologias desconstrutivas das teorias queer, ainda que forjadas na contestação dos movimentos ocidentais, nos ajudam a fazê-lo: podem permitir-nos dialogar com outros modelos identitários, ou não identitários, da sexualidade, distanciando-nos do que somos.

Particularmente, não gosto do termo queer, podemos trocá-lo se descobrimos que se abusa dele, que está demasiado comprometido com uma academia domesticada pelo governo neoliberal ou o mercado do entretenimento, se não encontramos um melhor. Mas enquanto houver injustiças e problemas abertos como os que nomeei, dos instrumentos críticos que foram forjados a partir do debate (às vezes polêmico) das teorias queer, certamente ainda precisamos disso.

 

Entrevista com Lorenzo Bernini por realizada por Eduardo Nabal, publicada no site Parole de Queer. Disponível em: http://paroledequeer.blogspot.com/2018/09/entrevista-con-lorenzo-bernini.html

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

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