O que o transfeminismo tem a dizer face ao avanço das novas direitas? Sayak Valencia responde

Aguente Bolsonaro

Em tempos em que o mundo se mostra mais alerta quando se trata de identificar a misoginia e a homofobia, em vários pontos do planeta essas formas de ódio não apenas recrudescem como também se tornam slogans de campanha para o sucesso. A filósofa transfeminista mexicana Sayak Valencia, em visita a Buenos Aires a convite da Universidade Nacional das Artes, faz a conexão entre o êxito da extrema-direita no Brasil e o mais glamoroso dos influenciadores do Instagram, entre a análise sobre como operam os jovens que provêm de linguagem e estratégias as novas direitas e o desvelamento das ferramentas dos feminismos e da dissidência sexual para enfrentá-los.

Estupro, ditadura, misoginia, homofobia, racismo e morte foram a fórmula desse êxito. Isso ficou claro com o crescimento de Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil. A filósofa transfeminista mexicana e autora de Capitalismo Gore (2016), Sayak Valencia, acompanhou a contagem de votos em visita a Buenos Aires ao longo do último domingo [7 de outubro], em bares e terraços com amigas. Enquanto o candidato de extrema-direita ampliava sua quantidade de votos, entre a carne e a sobremesa Sayak foi estabelecendo relações inesperadas, por exemplo, entre a metralhadora imaginária com a qual ‘Ele’ ameaçou fuzilar todos os militantes do PT com a roupa mais glamorosa dos influenciadores do Instagram. “Atenção! Não tenho nada contra o uso das redes em si! Apenas digo que você tem que estudar os regimes escópicos e estéticos, e também de vigilância, que são os que construíram nosso modo de olhar e mostrar”, alertou Sayak durante sua exposição na mesa “Transfeminismo: Estética, violência, geopolítica”, organizada pela Universidade Nacional das Artes.

Tijuana é seu lar de operações intelectuais. Sua terra natal, e a última fronteira da América Latina, oferece a Sayak um ponto de vista estratégico para acompanhar o exercício no poder de Donald Trump, um ponto de vista privilegiado para unir os pontos entre essa catástrofe institucional e seu efeito dominó em outras latitudes do cabo de forças políticas que conjugam moral ultraconservadora com um uso explosivo da linguagem digital.

Sayak compõe palavras. Ela se desculpa porque não pode “evitar dar voltas” e continua seu jogo com a linguagem, com seu ir e vir no tempo, com seu modo de usar as ferramentas de compressão do mundo do transfeminismo para conectar a Revolução Francesa com o massacre de Ayotzinapa ou o recorde de feminicídios deste ano no México com o mais inofensivo dos memes de sapos da nova direita alternativa norte-americana. Ainda que pareça que não haja pontes entre todos esses elementos, o pensamento e a visão de Sayak Valencia vão da cultura pop aos neofascismos, passando pelo Brexit e as máximas de Jaime Durán Barba até chegar a Rita Segato, Marx e Judith Butler.

Você está trabalhando em um livro sobre a história e o presente das masculinidades brancas e heterossexuais. Por que colocar o foco nos homens agora?

Porque me tira o sono como ainda hoje – em que todos parecemos tão conscientes da opressão das mulheres, das dissidências sexuais, minorias raciais e outras –, a violência contra esses grupos se mantém e até poderia adicionar votos. O que seria o “toque Benetton” nas políticas públicas está no nível da superfície, mas no interior das populações o machismo continua. E como! Há uma fusão encadeada de ordens e contraordens que são normalizadas, mas no fundo continua a desencadear violência extrema contra certas populações. Parece que os homens eram cada vez menos machos, mas é um efeito cosmético porque, ao mesmo tempo, não diminuem os números de feminicídios e travesticídios.

Os índices de feminicídios e crimes de ódio no México se mantêm?

Subiram! Sete mulheres por dia. Digo mulheres para resumir. E esses são apenas os casos reportados. Estamos em segundo lugar em toda a América Latina em quantidade de transfeminicídios. O primeiro desse triste ranking, que não nos surpreenda, é o Brasil. Já foi dito que esses crimes devem ser pensados como novas formas de guerra contemporânea.

Necrodestino

Os números de domingo [no primeiro turno] nas eleições do Brasil são outra confirmação obscena da capacidade de incidência dos discursos xenófobos e racistas, também entre aqueles que poderiam ser considerados os setores mais desfavorecidos e até mesmo o alvo móvel desses mesmos ódios. Faltam vocabulário e referências para terminar de nomear os neofascismos que assomam. Sayak Valencia disse isso, como também o explica o cientista político basco Marcos Reguera, que se dedica a estudar o sucesso do Alt Right[i], as direitas alternativas que já não se encaixam mais na imagem de um skinhead de coturnos. Mas são jovens bem trajados e celebridades com um manejo magistral das redes e um discurso ágil ornamentado com comentários afiados. Reguera diz que, para os estadunidenses, o Tea Party foi para os adolescentes do Baby Boom o que hoje os millennials são para o Alt Right, que surge como uma cibercultura com um senso de humor para machos brancos, e em parte dão conta de como Trump solidificou sua base eleitoral. O Alt Right põe em circulação seu modo de ver o mundo por meio da trolagem e da provocação. Sayak diz que “as novas apostas das direitas, que começaram vertendo seu ódio em fóruns espectrais, têm muito a ver com as masculinidades hegemônicas. Bolsonaro replica a lógica estadunidense de volta a um machismo recalcitrante. Outros representam o mesmo, mas usam certo estilismo ou sofisticação. Ele não. Sua campanha trabalha não só com o desafio à lógica do politicamente correto, mas também com as lógicas fanáticas e religiosas que são possibilitadas por um aparato que se apropria de certas formas de reafirmação nacional”.

Em Capitalismo Gore, você fala sobre a interação entre as masculinidades como máquinas de gerar mortos e a “guerra contra o narcotráfico”. E agora você disse que a necropolítica está vinculada à ideia de cidadão…

Digo que os homens são constituídos como pequenas máquinas de guerra, programados para a batalha. Isso não significa que sempre cheguem ao campo de batalha em forma de soldados. Como se houvesse uma espécie de Estado guerreiro alternativo, que corre em paralelo à máquina militar que já conhecemos e está institucionalizada. Parafraseando Carol Pateman em El contrato sexual: com a Revolução Francesa, os machos matam o pai, mas criam as fratrias (irmandades). Os direitos que são dados ao cidadão masculino devem ser retribuídos com obrigações.

Quais são eles?

Ser uma pequena máquina de reprodução do Estado para que seus ideais se propaguem. Isso é conseguido ao transmitir terror aos corpos das mulheres e outros corpos insurgentes. A máquina soberana disse-lhes (e quem não a ouviu, intui) que tem direito de vida e morte sobre os que ela considera inferiores quando irrompe uma crise. Isso é a necrosoberania: a masculinidade como cartografia política vinculada ao bélico. Uma das missões é a manutenção da hegemonia da masculinidade. Isso é confirmado, no caso do México e de quase toda a América Latina, por meio de uma legislação patriarcal. É por isso que, se você mata para reproduzir a hegemonia do macho, do soberano, ninguém vai te perseguir.

Quais são as chances de resistência contra tal máquina?

O feminismo está fazendo revoluções. As ollas comunes[ii] dos setores populares na Argentina são um exemplo de ato micropolítico. Contaram-me que castigaram e escreveram na barriga de alguém um “sem ollas”. Muitas pessoas se perguntam como uma olla pode ameaçar o poder do Estado. Respondo que ameaça e muito. Construa uma comunidade organizada. Postule uma alternativa à concepção de masculinidade como necropolítica. Nas alianças entre minorias e transfeminismos não param de brotar esses exemplos. Para vocês aqui, isso também acontece com os lenços verdes.

Em que sentido com os lenços?

Você pode colocar outras cores além do verde, e elas fizeram isso. E mesmo que pusessem o azul, a maioria registrará que esse lenço vem das Mães da Praça de Maio, símbolo de tudo o que pode ser feito como resistência pacífica. Por que tanto medo? É que estamos demonstrando que uma luta de transformação social pode ser feita com outra imaginação política, que não tem a ver com a docilidade, mas com uma desobediência que, ao mesmo tempo, promete um estado de paz para muitas populações. A aliança entre minorias e transfeminismos está pondo não apenas um exemplo que se presta a ser absorvido pelo neoliberalismo (coisa que ocorre), mas também um correlato de sentido que constrói pontes com a memória histórica. Mostra outros caminhos para não passar pelo massacre do que seria um “nós contra eles”, mas outra coisa. Nós questionamos duramente: para quando é a revolução masculina? Quando eles vão deixar o jugo de serem máquinas de guerra? Nós desobedecemos você quando?

Falando de assimilacionismo: há uma marca de refrigerante cujo último slogan é “Você não precisa gostar de todos”[iii], falado por uma travesti, uma feminista, uma cantora afro. O que acontece com essa tendência de absorção por parte do mercado?

Também pensamos que as populações consomem transversalmente. Além de você ter uma posição crítica ou não, o gosto de todas as pessoas está desenhado por isso, porque não apenas produzem conteúdo, mas formas de percepção. A MTV já é antiga, mas na minha juventude foi uma ruptura importante porque o videoclipe trazia uma nova forma de espacialização do olhar. Um antecedente muito importante do que agora vemos com o live e outros. Hoje, o neoliberalismo diz: consuma, não nos importa se você é gay ou se tem que matar para poder calçar nossos sapatos. Uma leitura simples é que o neoliberalismo se apropria dos símbolos da diversidade. Mas dentro disso haverá aqueles que têm uma leitura singular, que por meio do cosmético se acercam do político. E em algum lugar você tem que entrar.

Você poderia dar um exemplo?

Minha sobrinha de 12 anos, no Natal, nos declarou que era feminista. Eu disse a ela: ‘Fiz algo bom!’ E ela me falou: ‘Não é por você, é por Emma Watson.’ É a referência para ela por causa de Harry Potter. Tenho reclamado contra Emma Watson, que me parece que é a banalização do discurso da igualdade… mas aí está você. Perguntei a minha sobrinha: ‘O que é o feminismo?’ Ela me disse: ‘Queremos que nos tratem como pessoas.’ Bom, é o que Angela Davis diz mais ou menos. Pensar que tudo é inútil porque o neoliberalismo o absorve é outro efeito do neoliberalismo, que nos diz o que temos que pensar e às vezes o que cremos. Mas isso não é necessariamente o fim da história. Isso não significa que deixemos de criticar. É importante poder criticar as redes e o projeto fascista que representam.

Projeto fascista?

O que eu considero esperançoso nas redes e na Internet é que não é puro algoritmo, que por trás da arquitetura espectral da Internet há pessoas, e algumas dessas pessoas estão se enchendo de conteúdo. O desafio é o diálogo entre gerações para ver que, para além do on-line, há outras coisas. Mas a tecnogovernança mediante as fake news e outros elementos de propaganda política nas redes busca criar o regime de verdade. Os modos de percepção que as redes vão gerando te distanciam do mundo tangível, você esquece que o sofrimento acontece nos corpos, você perde a empatia e rompe com a coletividade. Há um regime de poder que se está propagando e que se distancia de suas responsabilidades. De onde vem essa notícia falsa? “Do nada, é uma falha de algoritmo!”, eles respondem. Mas, desculpe, sempre há alguém programando o algoritmo. Então, a ordem cosmética, bem estética, bem irrealizada, pensada para que o real vá perdendo o interesse e então eles possam segui-lo expropriado.

Dá a impressão de que as esquerdas ou os movimentos progressistas vão ficando um pouco para trás nas habilidades desse tipo…

Na esquerda há um núcleo duro relativo a uma purificação do pensamento. Stalin tinha um pensamento messiânico e tinha que cumprir as teses de Marx ao pé da letra. Marx era alemão e viveu há mais de duzentos anos. Você tem que colocar o corpo e o pensamento onde estamos. As esquerdas tendem a resistir a isso porque têm sido muito patriarcais. Quando a crítica se torna ortopedia e só pensamos a realidade através de tal linguagem ou tal vocabulário e não inventamos outros, perdemos a capacidade de descrever o mundo no qual vivemos. Temos que olhar mais como o Alt Right procede.

E como ele procede?

Através da linguagem do meme, do folclore digital e outras ferramentas, eles inoculam uma série de valores reacionários porque se sentem deslocados do regime de poder. Eles surgem nos Estados Unidos e se expandem. O Alt Right (como as teclas) construiu uma máquina de propaganda política, a Cambridge Analytica, vinculada ao Facebook, que está tendo tanto protagonismo nas campanhas. São jovens, fizeram seus doutorados e mestrados em Teoria Crítica e a Escola de Frankfurt e utilizam todo o aparato discursivo da esquerda para introduzir ideias reacionárias. Por exemplo, falam de etnoestados.

O que são etnoestados?

Uma proposta de campos de concentração de pessoas de acordo com a raça. Eles dizem: é que culturalmente somos incompatíveis. Então, os etnoestados seriam para que as pessoas deixem de ir aos Estados Unidos ou fiquem confinadas a certos espaços, porque não podemos conviver e esse multiculturalismo foi um erro. E adivinhem quem vai controlar os etnoestados?

O que você acha de Milo Yiannopoulos, blogueiro ultradireitista, referência gay do Alt Right?

Fico surpresa como ele opera. Parece saído do reality RuPaul’s Drag Race. É um fascista com uma estética afeminada. Usa essa estética para chegar e ridiculizar ao mesmo tempo, privar de conteúdo. Trump é o tradutor cultural do jovem Alt Right para o conservadorismo de outras gerações, já que convergem nele o caudilhismo, o cinismo e todo o silêncio imposto nos Estados Unidos para não se dizer “as palavras”, mas ainda há ódio, homofobia, racismo.

Você diz que esses personagens seriam um efeito indesejado do politicamente correto?

Construiu-se a ideia de que não se pode dizer negro a um negro, mas o racismo coexiste com isso. Você não diz nada sobre isso ou aquilo, mas em seu interior permanece presente o ódio contra as populações. E você não pode problematizar esse silêncio também. Então, Trump vem dizer todas as coisas que você não pode dizer. E não há consequências a respeito disso. Se você observar a máquina da propaganda, verá que há semelhanças sobre como as eleições foram vencidas no Brasil, nos Estados Unidos, como o Brexit foi possível. E é possível que Mauricio Macri tenha trabalhado algo nessa linha. Uma das ideias que se repetem é a de que “não somos políticos”. Até há pouco você podia entrar no portal da Cambrigde Analytica e ver os serviços oferecidos a toda a América Latina. É garantido que a campanha se baseia em mover-se dentro de uma margem de manipulação. Essa máquina publicitária conjuga a visão das famílias mais ultraconservadoras dos Estados Unidos com toda a cosmética, a estética e a tradução cultural que os jovens da direita fazem de todos os aparatos críticos da esquerda.

O que se faz quando, como o demonstra a figura de Bolsonaro, a misoginia e a homofobia não apenas não se ocultam, mas se convertem em capital político?

No Brasil, esse tema tem muitas arestas. Uma é a descoberta dos evangélicos, que se dá em todo o continente e tem a ver com uma apropriação de todas essas lógicas da cosmética de que vínhamos falando aplicadas ao pensamento fascista para retornar a um lugar de certeza. O mundo contemporâneo desorienta as lógicas do que é possível ler ou entender. Muitos dos discursos construídos a partir do campo democrático, mesmo nossos discursos da teoria, não chegam a permear as populações. A religião preenche o conteúdo e torna o mundo inteligível. Há também o tema do sacrifício: esse messias, que às vezes é abertamente desprezível, pede uma oferta àqueles que votam nele. Seria algo assim: “Bom, vamos sacrificar um pouco a coisa democrática a favor de uma vida melhor”, porque a julgar pelo que se oferece, soa mais como uma sobrevivência.

No Brasil, e agora também no Uruguai, isso é muito claro com a ninhada de youtubers evangélicos que fazem campanhas acessíveis e ao mesmo tempo muito eruditas contra a “ideologia de gênero”.

É interessante ver como esses setores ganham, porque conquistam nossa psique. O pensamento messiânico do qual parte as religiões católica e evangélica é o mesmo que exigimos dos políticos. A ideia do político que ainda temos é muito delegativa: eu voto e eles resolvem o universo. Eu apenas pago impostos. É difícil ver que o político também é o que você faz todo dia em sua casa, diz o feminismo. O messias é um grande homem, e o digo enfaticamente no masculino, um Trump, um Bolsonaro, que chegam e te falam em um idioma que você entende. Os feminismos e a dissidência sexual, e não só sexual, têm muito a contribuir para a desautomatização dessas linguagens e esses sistemas de pensamento.

 

Entrevista a Dolores Curia, publicada em 12 de outubro de 2018 no site do jornal Pagina 12. Disponível em: <https://www.pagina12.com.ar/147690-agarrate-bolsonaro>.

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

[i] “A direita alternativa (do inglês alternative right ou alt-right) é um grupo de pessoas com ideologias de direita a extrema-direita que rejeitam o conservadorismo dominante nos Estados Unidos, Suécia, França, e em outros países.” Cf.  https://pt.wikipedia.org/wiki/Direita_alternativa.

[ii] Ao pé da letra, ollas comunes pode ser traduzido como ‘panelas comuns’. A expressão se refere “às instâncias de participação da comunidade (entre vizinhos e moradores mais distantes) que buscam resolver a necessidade básica de se alimentar. Eles são semelhantes aos refeitórios populares, embora com um caráter mais autogerido e independente.” (cf. https://es.wikipedia.org/wiki/Ollas_comunes) Trata-se de reações comunitárias construídas no período de repercussão da Grande Depressão (1928-1934), quando o Chile foi profundamente afetado financeiramente pela queda nas exportações de cobre e sal. As populações mais pobres se reuniam para preparar refeições simples (sopas) e comunitárias em grandes panelas. Na Argentina, essa ação se tornou comum durante a crise econômico-financeira dos anos 1980.

[iii] Referência à propaganda da Pepsi, que pode ser vista em https://www.youtube.com/watch?v=-bwrqHj//KDAg

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